CHILDHOOD IS A NOTION OF GEOGRAPHY

A INFÂNCIA É UMA IDEIA DE GEOGRAFIA

 

memoria is a writer – portraits

ALEXANDRE SARRAZOLA

EXPOSIÇÃO

3 - 24 Julho 2020

Mundo Património, Campo de Ourique, Lisboa (mapa)

Dias úteis, das 14:00 às 19:00

[entrada livre]

 

 

 

«Há cerca de quatrocentos anos, Saccardino, copeiro de um Medici durante três lustros, aprendeu a ler às escondidas na vasta biblioteca de alquimia do seu amo. Roubou e foi punido. O resto dos seus dias viveu-os a liderar um bando de párias na noite florentina. Todavia muito peculiares eram estes bandidos. Propalavam entre os demais desvalidos e flibusteiros uma sabedoria rara que a breve trecho os conduziu às vinte e uma espiras do nó de forca, não sem antes ferirem Medici com as palavras albergadas na sua própria sala de leitura.

 

Um século antes, fundeados ao largo da ilha que viria a ser New Amsterdam e depois New York, uma tripulação de portugueses e espanhóis aportou em seus escaleres na chã da margem e, por descuido, perdeu os doze cavalos com que se havia feito acompanhar para a batida daquela plataforma eivada de lameiros de erva alta e flores campestres. Os bichos fugiram e multiplicaram-se exponencialmente ao longo de escassas décadas, numa resfolegante e selvagem manada de puros lusitanos. Os mesmos que os Apache domaram e montaram infligindo sanguinolentas cargas sobre os europeus que ali iam aportando. Uma brincadeira de Deus da igualha da do pária erudito de Florença.

Tudo enfim cheio de prodígios, agressividade e da empatia primal dos bichos que todos somos.

Todavia o Passado já não existe e o Futuro também (ainda) não. Resta a feérica condenação à espuma dos dias de um Presente contínuo como um basso ostinato. A criança alegre de olhos ambarinos e sôfrega de todas as cores do mundo que eu era (e trago sempre comigo) saltou para as minhas cavalitas e segurou-me os dedos. «Fica sossegado e larga-me a mão. Vais só dando ideias». Afinal a infância talvez não seja já uma ideia de geografia. Ou melhor, bem o pode ser; mas de cartografia obnubilada pelas cores dos mares e desertos do Atlântico e do Índico, e das acácias rubras que povoam o jardim secreto por onde todas as manhãs passo para ouvir o sortilégio dos melros. Eu e ele.»

Alexandre Sarrazola, Lisboa, 2020

[fotos da inauguração]

ALEXANDRE SARRAZOLA

 

Licenciado em arqueologia (FLUL, 1996), pós graduado em Direito do Património (FDUL, 2016) e formado em Argumento Cinematográfico (CEM, 2004).

Trabalha desde 1996 na área do Património Cultural com vasta experiência em direcção e coordenação de projectos no sector privado. Integra o quadro da Clay-Arqueologia.

Colaborou com a RDP-Antena 2 em teatro radiofónico (Domingo), com a companhia Entrés de Jeux-Usina e com o Teatro Nacional de São João (Avercamp). Publicou as peças Domingo (edições moscaMorta, 2012), Retratinho de Guerra Junqueiro (edições moscaMorta, 2013) e adaptou para o palco O Som e a Fúria de William Faulkner (teatromosca, 2015).

É autor de livros de poesia e ficção. Publicou regularmente ficção e poesia em antologias colectivas desde 2006 (Assírio e Alvim, Averno, Nova Delphi, Jornal Público, Língua Morta, Bíblia, Cão Celeste, 3X3 Marginal e Cidade Nua, Futuro).

Exposições como artista plástico: Barely Legal Portraits (Lx Factory-LerDevagar, 2020); Childhood is a notion of geography [pintura] (Mundo Património/ Campo de Ourique, 2020); Dodge [vídeo e pintura] com Guida Casella (Lx Factory-LerDevagar, 2021 - em preparação).

É colunista da patrimonio.pt desde 2018. [+]

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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