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Ponto de encontro: Casa Fernando Pessoa


Clara Riso *


Quando em março de 2019 arrumámos caixotes com livros, apontamentos e equipamentos necessários para nos mudarmos para os escritórios provisórios, não podíamos imaginar que a Casa Fernando Pessoa iria reabrir no intervalo entre confinamentos resultantes da então desconhecida pandemia de Covid-19. “Fechamos para abrir novas portas” foi a frase que escolhemos para anunciar as obras de remodelação que estavam prestes a começar.


Desde 2016 que trabalhávamos sobre duas ideias: como podíamos melhorar a experiência das pessoas que vinham à Casa Fernando Pessoa – alunos das escolas, turistas de várias paragens, vizinhos do bairro, frequentadores da biblioteca? E para quem ainda não conhecia a Casa, como poderíamos provocar vontade de a conhecer?


A Casa Fernando Pessoa foi criada em 1993. Nestes quase 30 anos muito mudou em diferentes campos relacionados com a nossa atividade: na relação do público com os museus; nas dinâmicas do turismo cultural e literário; no conhecimento sobre Fernando Pessoa; no entendimento sobre inclusão e mediação. Na cidade, na comunidade.


O número de visitantes da Casa Fernando Pessoa aumentava de ano para ano – vinham conhecer a última morada onde Pessoa viveu. Procuravam saber mais sobre este escritor que deixou, dentro de uma arca, milhares de páginas por ler e que deslumbrou quem com ele conviveu, quem o editou, quem o leu.


Crescia também a equipa que trabalhava na Casa e aumentava a diversidade de expectativas e interesses do público. Tornavam-se mais evidentes as suas necessidades específicas. A Casa Fernando Pessoa estava já em transformação mesmo antes do início das obras de remodelação – numa reação natural e atenta a estas mudanças.


Reabriu em agosto de 2020, com uma nova exposição de longa duração sobre Pessoa, uma biblioteca mais estruturada e um auditório mais equipado. As obras tornaram o edifício mais acessível e sustentável, melhoraram a circulação no espaço e permitiram aumentar a área expositiva.

O projeto de remodelação da Casa beneficiou da Linha de Apoio ao Turismo Acessível do Turismo de Portugal. O projeto de arquitetura é da autoria de José Adrião Arquitetos. O projeto museográfico é assinado pela empresa de design GBNT e pelos designers Nuno Quá e Cláudio Silva e foi feito a partir de uma proposta de curadoria de Paulo Pires do Vale. A Acesso Cultura foi consultora em matéria de acessibilidades.


O acesso físico, social e intelectual na Casa Fernando Pessoa é entendido de forma integrada: na arquitetura, no desenho da exposição, no mobiliário, na mediação, na programação, na formação contínua da equipa, na comunicação com o público.



Os espaços públicos da Casa são acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida. A entrada não tem degraus, a rampa tem a inclinação adequada à autonomia e patamares de descanso, os balcões e expositores têm uma altura confortável para pessoas em cadeira de rodas ou de baixa estatura, as portas têm abertura fácil e há elevador.


Foi colocado piso podotátil nas áreas de circulação pública. Há legendas braille e reproduções táteis na exposição. São programadas visitas com audiodescrição, conjuntamente para público com e sem deficiência visual, orientadas por dois elementos da equipa, sendo um deles o audiodescritor. Toda a equipa de mediação fez formação em audiodescrição com a empresa especializada que construiu o guião de audiodescrição para a exposição, a AR Produções.


São feitas visitas com interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP). Público Surdo e ouvinte junta-se nestas visitas à exposição, onde há vídeos legendados e interpretados em LGP, o que também acontece em parte da programação online. A programação presencial também tem, por vezes, interpretação LGP.



Na atual exposição as peças da coleção têm uma relação mais próxima com os visitantes: as peças estão dispostas de uma nova forma e contextualizadas com um novo discurso, pelo que se tornam mais apelativas. Atualmente expomos, por exemplo, os livros da Biblioteca Particular de Pessoa, o conjunto mais valioso da coleção da Casa Fernando Pessoa, que antes estava nas reservas. Os livros ocupam o espaço a que chamamos o “coração” da exposição, dispostos em prateleiras forradas a vidro, com controlo de temperatura, luz e humidade.



Os textos de parede e legendas foram escritos com linguagem clara, procurando que comunicassem com pessoas com diferentes graus de conhecimento sobre Pessoa, poesia e literatura. Escrevemo-los a várias mãos e revimo-los muitas vezes até encontrarmos boas soluções para eliminar o acessório sem que, no entanto, a simplificação da linguagem conduzisse à simplificação das histórias que queríamos contar.


Escolhemos três grandes temas, para os três pisos da exposição: no Piso 3 a Heteronímia – onde se apresenta Pessoa como criador, desde criança, de “outros nomes” que tinham a sua própria forma de escrita; no Piso 2 a Biblioteca Particular – onde, a partir dos livros que Pessoa leu, podemos descobrir ligações e ecos entre a leitura e a escrita; no Piso 3 o Apartamento – espaço em que se reconstitui a planta da casa para onde Pessoa veio morar com a família há cem anos.



Começamos com a primeira caligrafia que se conhece de Pessoa, aos seis anos, quando escreve o nome de um dos seus amigos imaginários numa agenda de aniversários da mãe. E vamos terminar com a última frase que deixou escrita, em inglês, a lápis, no topo de uma página de resto em branco, na véspera da sua morte: “I know not what tomorrow will bring” [Não sei o que o amanhã trará]. É ao longo deste arco de escrita e vida que acompanhamos os visitantes, partilhando histórias, curiosidades e perplexidades sobre um escritor excecional.


Para além dos três pisos da exposição, a atividade da Casa Fernando Pessoa estende-se à programação presencial e digital, ao serviço educativo online e fora de portas, ao funcionamento da biblioteca, ao acolhimento na livraria/loja.


A biblioteca especializada em Pessoa e em poesia faz parte da Casa Fernando Pessoa desde a sua fundação. Com as obras de remodelação, a biblioteca ganhou uma luminosa sala de leitura, onde se encontram em livre acesso os livros de e sobre Pessoa, e um acervo abrangente de poesia portuguesa e internacional.



Durante os períodos de confinamento, criámos conteúdos digitais que podem ser encontrados no nosso site sob o título “Coisas para fazer”. Entre essas “coisas” encontram-se faixas áudio sobre Pessoa, jogos para construir poemas em grupo ou poemas musicados para crianças. Uma oficina síncrona para alunos do 12º ano, sobre os livros da Biblioteca Particular de Pessoa e as muitas notas de leitura que neles escrevia, vai circular em breve. Lançámos um programa online – Perguntas na Biblioteca – para conversar em direto sobre dúvidas específicas que os participantes tenham sobre Fernando Pessoa. No Dia Mundial da Poesia distribuímos pelos vizinhos do bairro de Campo de Ourique bandeiras com versos breves para pôr à janela e assim trocar algumas palavras com quem vive em frente ou com quem passa na rua.



A par da programação presencial ensaiámos várias formas de filmagem e difusão, considerando que a lotação do auditório se viu reduzida para aproximadamente um quarto. Experimentámos o live streaming e a filmagem para transmissão diferida. São experiências que nos permitem variar e escolher as modalidades adequadas a diferentes programas e públicos.


O programa que mais repercussão teve em tempos de pandemia e que ainda hoje nos dá alegrias diárias – quando nos tratamos pelo nome, quando nos chamam amiga ou amigo à despedida – é o programa de chamadas telefónicas Leituras ao Ouvido. Todos os dias, fazemos telefonemas para as pessoas inscritas e lemos-lhes poemas ou textos curtos em prosa, mantendo assim contacto com quem está em isolamento, tem dificuldades no acesso à internet ou para quem a comunicação através de ecrã não é simples ou nem sempre é desejada. Até hoje fizemos cerca de 3500 chamadas para todo o país.


Várias ações de comunicação nas redes sociais permitiram igualmente manter a relação com o público e promover um maior envolvimento. Com a ação #ligadospelapoesia fazemos uma rede de partilha de poemas, com o programa #marginar apelamos às “pessoas que riscam livros”, como fazia Pessoa, que enviem fotos de páginas com as suas notas à margem.


Depois do segundo período de confinamento, regressamos gradualmente ao encontro físico com os visitantes. Os museus reabriram há duas semanas. Em breve retomaremos as visitas orientadas e a programação presencial. Não descartamos, porém, os programas à distância, seja online ou por telefone. Percebemos que assim podemos “sentar-nos à mesma mesa” com pessoas geograficamente distantes. Ou distantes por outras razões, em situações de isolamento ou afastamento por vezes muito anteriores a esta pandemia.


Um dos efeitos da literatura é a aproximação entre pessoas. A construção de pontos de encontro e de lugares comuns faz parte do nosso trabalho diário.


Fotografias: Susana Riso e José Frade/EGEAC.

Clara Riso é directora da Casa Fernando Pessoa desde 2014.

A Casa Fernando Pessoa é tutelada pela EGEAC, empresa municipal de gestão cultural de Lisboa


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.

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