Os Serviços Educativos de Museus em uma era de protesto



Denise Pollini *


Texto baseado na conferência inaugural do III Encontro dos Museus do Médio Tejo, realizado no Instituto Politécnico de Tomar no dia 8 de Novembro de 2021.


No dia 01 de abril de 1971 o artista alemão Hans Haacke recebeu uma carta de Thomas Messer, então diretor do Museu Guggenheim de Nova Iorque, a cancelar a sua exposição individual, programada para inaugurar dali a 29 dias. O motivo do cancelamento foi a abordagem política de Haacke, principalmente uma obra que expunha – na forma de fotografias – a especulação imobiliária em Manhattan e os laços económicos e familiares entre os proprietários destes empreendimentos[1]. O curador envolvido no projeto foi demitido e, em sua declaração sobre os motivos do cancelamento, Messer afirmou que “O mérito artístico nunca foi a questão. Nós o convidamos [Haacke] porque admiramos o seu trabalho. Eu penso que, embora a apresentação de problemas sociais seja positiva, não é a função de um Museu”[2].


A frase nos oferece a oportunidade de analisarmos o que se transformou – ou não – no funcionamento dos Museus em cinquenta anos[3]. E o choque provocado pela declaração de Messer revela o quanto seria hoje impensável que tal anúncio fosse proferido. A demanda por um posicionamento, ou um ativismo dos Museus diante de questões éticas e sociais, estejam elas relacionadas de forma direta ou não às obras de arte, ou a artefactos sob a sua guarda, é uma realidade com a qual os Museus impreterivelmente deverão lidar cada vez mais. Isto posto, o enfoque pretendido neste texto é o de brevemente problematizar duas questões: 1) O papel de protagonismo da ação ativista dos Museus levada à cabo pelos Serviços Educativos ou Departamentos de Educação. 2) A construção de uma ação ativista a partir do interior da instituição e de uma forma transversal.


Arquivo 15M: Seleção de cartazes, pasquines e bandeiras, 2011-2015. Museu e Centro de Arte Rainha Sofia, Madrid. Fotografia: Denise Pollini.

1) Serviços Educativos – Ativismo – Protagonismo: sentir o pulsar da relação entre a instituição e o seu público seria um dos fundamentos a explicar o envolvimento histórico mais acentuado dos Serviços Educativos com a prática ativista. Não é por acaso que uma das atividades mais representativas destes Serviços é a mediação, prática esta que é relacional por natureza.


Tendo experimentado o moroso ciclo das transformações institucionais, é frequente que estes departamentos "arregacem as mangas" com o propósito de fazer dos Museus lugares mais acessíveis, porosos e mais próximos de seus públicos. Por mais louvável que seja a iniciativa – e as suas conquistas a curto prazo – este posicionamento não opera a favor do fortalecimento de um ativismo transversal e mais robusto dos Museus, pois para dizer o mínimo, pode distanciar o Serviço Educativo dos outros departamentos. A promoção de feudos - que é frequente no funcionamento de alguns museus - pode, consequentemente, enfraquecer o surgimento de um alinhamento necessário para um ativismo mais efetivo.


Por conseguinte, a ação mais relevante que os Serviços Educativos dos Museus podem fazer em prol do ativismo dos Museus é não mais tomarem para si o protagonismo do compromisso pelo ativismo dentro de suas instituições.


Francesc Ruiz, "La Settimana Enigmistica", 2015. Museu e Centro de Arte Rainha Sofia, Madrid. Fotografia: Denise Pollini.

2) Ação Ativista transversal à Instituição: o ativismo deve começar de dentro da instituição para depois, a partir de seus projetos, emanar para a sociedade em geral. O que é aqui cunhado por emanar é, justamente, o processo natural do posicionamento do Museu diante de acontecimentos sociais mais amplos e diante dos dilemas éticos com os quais a instituição se confronta em seu dia a dia. Para isso, o ponto de partida deverá passar por um reconhecimento do chão comum, dos valores que sustentam a instituição e que nutrem o ofício daqueles que nela trabalham. Aqui, dada a sua experiência relacional, os Serviços Educativos podem desempenhar um papel crucial, pois o diagnóstico daquilo que nos une não pode eliminar aquilo que nos diferencia.


A lógica neoliberal, aplicada aos museus, os transformou (em grande medida) em uma grande engrenagem, cuja produção em série de exposições pode não ser a de salsichas, mas cujo ritmo lembra em muito o de uma fábrica. Portanto, o mito da performance isolada deverá ser combatido, a construção dos projetos necessita ser comparticipada, as opiniões precisam ser expressas, assim como as dificuldades.


Arquivo 15M: Seleção de cartazes, pasquines e bandeiras, 2011-2015. Museu e Centro de Arte Rainha Sofia, Madrid. Fotografia: Denise Pollini.

O ativismo dos Museus nunca será um "produto" a ser exibido para mostrar o quanto se está integrado aos novos tempos, sendo necessário que esteja presente no quotidiano dos Museus e não apenas no apoio mediático a uma causa específica. E, se não existir um alinhamento interno e um senso de propósito institucional, esta coerência não terá possibilidade de se desenvolver e apresentar-se quando as circunstâncias o exigirem.


Notas:

[1] Hans Haacke, Shapolsky et al. Manhattan Real Estate Holdings, a Real-Time Social System, as of May 1, 1971, 1971. [2] https://www.artforum.com/print/197106/hans-haacke-s-cancelled-show-at-the-guggenheim-37767 consultado em 08 de outubro de 2021. [3] Embora o enfoque desta reflexão recaia mais sobre os Museus não exclui também as instituições culturais de forma mais genérica.

 

* Denise Pollini foi, entre 2015 e 2021, coordenadora do Serviço Educativo do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves no Porto. Entre 1999 e 2015 exerceu a mesma função no Museu de Arte Brasileira em São Paulo, Brasil, onde foi uma das responsáveis pela implementação do Setor Educativo deste Museu. Em sua trajetória profissional tem idealizado e coordenado projetos educativos destinados ao público escolar, à formação para professores, às famílias e crianças assim como iniciativas no âmbito da inclusão social e intelectual. Na área dos programas destinados ao público adulto, desenvolveu inúmeros projetos na área da mediação artística, assim como encontros, mesas redondas, conferências e seminários. Atualmente trabalha como investigadora e consultora na área de educação em museus e mediação artística e cultural. É membro associado da Acesso Cultura, Portugal.



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