Oposição ou posição: a Arte e a controvérsia na documenta de Kassel



A décima quinta edição da documenta arrancou, em Kassel, cidade no estado de Hessen, bem no centro da Alemanha, no passado dia 18 de junho. Contudo, este que, em 1972, sob direção do suíço Harald Szeemann (1933-2005), passou a ser um evento de 100 dias e não apenas um museu de 100 dias, reforçando o seu papel como espaço de antecipação da vanguarda do tempo artístico, está envolto em polémica.


A primeira novidade da edição de 2022 esteve na escolha do coletivo indonésio ruangrupa para assumir a curadoria do evento, mudando o foco de uma perspetiva ocidentalizada sobre a qual sempre se construiu a História da Arte e compreendendo que a produção artística contemporânea é consequência do mundo global em que vivemos e tem o poder de diluir fronteiras e distâncias entre criadores de diferentes centros artísticos. A documenta fifteen é um convite para olhar o mundo e para percebermos que o mundo somos todos, sendo cada vez mais difícil justificar as desigualdades e os fossos, ou seja, a gestão de recursos globais. A arte contemporânea tem essa magia de potenciar a descentralização, de tornar próximo o que parecia distante e de nos provar que estamos todos no mesmo barco e que, enquanto essa consciência não dominar o comportamento da espécie humana, continuaremos, alegremente, em direção ao precipício.


Mais do que um novo atlas do mundo da arte, os ruangrupa trouxeram com eles o conceito de lumbung que estrutura todo a programação da documenta fifteen. Na tradução direta, lumbung significa “celeiro de arroz” e trata-se de um pote coletivo ou um sistema de acumulação usado em áreas rurais da Indonésia, onde as culturas produzidas por uma comunidade são armazenadas como um futuro recurso comum partilhado e distribuído de acordo com critérios determinados em conjunto. Ou seja, nos 27 locais de exposição de que é feita esta viagem pela documenta fifteen, além de dominarem práticas coletivas, muitas das propostas refletem sobre a ideia de sustentabilidade e de consciencialização para o bom uso de recursos comuns, com desafios claros à participação ativa dos públicos na conclusão da obra de arte e com as fronteiras entre arte, arquitetura, design e arquivo muito ténues, fazendo-nos questionar sobre os limites e os caminhos do que é e não é Arte. Uma das dimensões mais interessantes desta documenta fifteen está, precisamente, na escolha desses lugares de exposição, que vão dos tradicionais museus vocacionados para a arte, a museus de História e ciência, locais de culto religioso e de encontro pagão, monumentos e o espaço público, sobretudo na relação com o rio Fulda que marca a paisagem da cidade.


A documenta não é, nunca foi, um evento dos números e a comunicação não é feita em redor das quantidades de criadores, nacionalidades e metros de área de exposição. Em 2022, reforçando essa filosofia, há contenção, há detalhe e atenção às formas de educação e mediação cultural que aqui se consideram parte do processo curatorial, circunstância que, aliás, defendo de forma veemente.


A documenta sempre apresentou uma tendência muito clara, ao longo da sua história, para uma ação política, o que se foi refletindo, sobretudo depois de 1972, nas escolhas dos curadores e direções artísticas e é, por isso, ainda mais preocupante que, em 2022, tenha existido um julgamento de conteúdos por parte dos decisores políticos e da opinião pública, sem dar oportunidade ao contraditório e sem respeitar a estreita liberdade dos artistas. Falo, evidentemente, de uma das obras do coletivo Taring Padi, também eles indonésios. “People's Justice” tratava-se de um acrílico sobre tela, colocado no famoso “Rahmenbau”, obra do coletivo austriaco Haus-Rucker-Co, realizada para a documenta 6, de 1977, localizada na Friedrichsplatz e que é uma extraordinária janela para o rio Fulda. Esta é apenas uma das três obras do coletivo a integrar as propostas da documenta fifteen. Os artistas foram acusados da presenta de imagens antissemitistas na obra, nomeadamente pela referência à Mossad numa das figuras que faziam a composição e por associação de algumas figuras satíricas ao que se poderia assemelhar à imagem de um judeu ortodoxo. O grupo procurou, inicialmente, defender-se alegando que a obra era um manifesto contra a militarização da sociedade em que vivemos, explicando que a obra continha referências a outras organizações militares de diferentes países, e reforçando que, após a Indonésia ter vivido com a mordaça de um regime ditatorial, militar e mordaz, liderado pelo general Suharto desde 1965, combatiam modelos de sociedade autocráticos em que existe repressão, violência, uso generalizado de armas. Israel apoiava o regime de Suharto. Os argumentos não foram atendidos e a obra foi retirada.


No dia 25 de junho, encontrando-me já em Kassel, junto ao local iam-se repetindo as manifestações artísticas contra a exclusão da obra dos Taring Padi que, consequentemente, eram anuladas e retiradas pela polícia local. A imagem que anexo a este texto é de uma dessas intervenções, antes de ser retirada pela polícia, situação a que também assisti. O facto gerou controvérsia e, não obstante o próprio coletivo ter pedido desculpas pelo mal-entendido, esta edição da documenta continua a gerar controvérsia.


A prestigiada artista alemã Hito Steyerl (n.1966) exigiu já que seu trabalho fosse removido da documenta fifteen, dizendo que “não tem fé” nas tentativas dos organizadores de combater o antissemitismo. Em meados de julho, a diretora da documenta fifteen, a também alemã Sabine Schormann (n.1962), demitiu-se, considerando que a obra dos Taring Padi havia causado danos no evento que não justificavam a sua continuidade nos destinos da organização. Há quem defenda que a documenta fifteen deve encerrar antes do previsto, em 25 de setembro de 2022, e por diferentes motivos: uns por considerarem tratar-se de um atentado claro à liberdade artística e um exagero do politicamente correto, outros por acharem intolerável a organização ter permitido a presença de obras alegadamente antissemitistas.


Vivemos tempos complexos e conturbados, tempos sem tempo para pensar devagar e ouvir sem pressa. É um facto. Não há lugar para qualquer tipo de tolerância com os intolerantes e é preciso sermos rigorosos no respeito pelos credos, pelas origens e grupos étnicos, pelas orientações e escolhas sexuais de cada um, ser implacáveis com o racismo, a xenofobia, a homofobia, o machismo. É preciso que a Liberdade seja o valor e, nessa precisão, a escolha da democracia é fundamental e o direito à autodeterminação dos povos é um princípio base. Conhecemos a história da criação do Estado de Israel após a II Guerra Mundial e não nos esquecemos dos horrores do holocausto. Mas isso será uma medida para não podermos, publicamente, manifestarmos a nossa opinião, eventualmente, contrária às decisões e às ações do Estado Israel, quer em termos de política externa, quer no que respeita ao conflito com o povo palestiniano? Criticar a Mossad é ser antissemita? E qual a diferente entre podermos fazer um julgamento das convicções e formas de vida de um judeu ortodoxo e de um islâmico? Porquê que, do ponto de vista ocidental, Europeu e Norte-americano, o respeito pelos direitos humanos varia tanto com mediante a geografia, credo e cor da pele do outro?


A documenta, como outros eventos similares, nasce de uma utopia e as utopias são bandeiras que fluam em águas de navios naufragados, são alavancas de esperança. Quando não há utopia não há futuro. O início da documenta, em 1955, é definido pelo terror e pelo sofrimento, mas ao mesmo tempo pela busca da reconstrução e por uma reforma intelectual: uma cidade destruída no centro da Alemanha do pós-guerra, um homem com uma grande ideia, uma mostra nacional de jardins, um museu do século XVIII reconstruído e um círculo de cidadãos comprometidos, historiadores de arte e artistas. A cidade de Kassel, Arnold Bode (1900-1977) e os seus amigos, a Exposição Nacional de Jardins da Alemanha em 1955 foram a causa da primeira documenta e o Museum Fridericianum fazem a história fundadora daquele que é hoje considerado como o mais vanguardista evento mundial dedicado à arte contemporânea. A sua mística, contudo, também nasce pelo facto de no contexto de uma Alemanha destruída a todos os níveis, ele ter sido decisivo para manifestar a vontade do país em abandonar, precisamente, o antissemitismo e aderir às causas e valores europeus. A documenta, primeiro realizada de 4 em 4 anos e depois de 5 em 5, faz-se de ruturas e continuidades da imagem de um ditador, de uma grande guerra ou da guerra fria. A visão inicial de Arnold Bode, o seu sentido estético e o seu comprometimento político, influenciaram diferentes gerações de artistas e vão-se refletindo no espírito de cada documenta. Arnold Bode preconiza uma relação única entre subjetividade, representatividade, objetividade e a elevada influência que as imagens, sobretudo as obras de arte, podem ter no mundo.


Em 1982, já com outros no destino do evento, Joseph Beuys (1921-1986) propõe, durante a documenta 7, a plantação de 7000 carvalhos em toda a cidade, acompanhados por um marco em pedra, que deveriam representar uma mudança no desenho urbano de Kassel, tornando-a sustentável e mais equilibrada ambientalmente. Os 7000 carvalhos do artista alemão, aquele que afirmava que todos podemos ser artistas e defendia uma relação de respeito entre o Homem e a natureza com os seus demais seres-vivos, continuam a marcar o desenho de uma cidade que, de 5 em 5 anos, é da Arte para pensar o mundo.


Esta documenta fifteen, que nos merece uns bons três dias de visita, deixa muitas perguntas sobre a definição de obra de arte, afirmando os princípios da desmaterialização, dessacralização, descategorização e da democratização do objeto artístico e dos seus processos, mas, sobretudo, é um desafio a descentralizarmos o modo como nos posicionamos e olhamos o outro. Não poderá ser válida e não ofensiva esta proposta dos Taring Padi?


Por último, o must see, na minha opinião, da documenta fifteen é a instalação arquitetónica dos Wajukuu Art Project, um coletivo do Quénia, que se encontra no documenta Halle, e que tem como fonte de inspiração as casas tradicionais da tribo Maasai e a estética das favelas. Ainda no documenta Halle, a projeto do coletivo Britto Arts Trust, sediado no Bangladesh, que explora, através de um grande mural, questões de geopolítica, direitos sobre as terras e alimentação. Mas há muito para ver nesta documenta fifteen e será desse olhar atento que nos nascerão vontades novas que permitirão a desconstrução de velhos dogmas.



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A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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