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O Museu da Covilhã e a acessibilidade



Elisabet Carceller*


Por volta de 2018, o Município da Covilhã decidiu ampliar a sua oferta de espaços museológicos com a criação de um novo museu municipal, que contava com o financiamento da linha de apoio ao turismo acessível, no âmbito do Programa Valorizar do Turismo de Portugal.


Pouco tempo depois, a Formas Efémeras foi desafiada a conceber o futuro Museu da Covilhã, desafio que abraçamos com todo o interesse por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, por o Museu tratar sobre o concelho onde estamos sediados e, em segundo lugar, por prever, na sua génese, as questões de acessibilidade.

Desde a sua criação, a Formas Efémeras tem na sua missão a promoção da acessibilidade, visando tornar as exposições mais cativantes para os visitantes. Cada vez mais se entendem os museus como espaços abertos à comunidade, espaços de discussão e construção crítica de conhecimento e espaços que garantam a igualdade de acesso. Para nós, o caminho certo está nessa linha de pensamento.


Em todos os projetos que tínhamos realizado até ao momento, escolhemos comunicar utilizando textos com base na linguagem clara, optar por opções de design gráfico que tenham em conta a facilidade de leitura (tipo de fonte, contraste, cores, etc.) e definir alguns aspetos do design de mobiliário com base no design inclusivo. Aplicar estas soluções não implica aumentos nos orçamentos, mas tem um impacto direto na acessibilidade das propostas.


No caso do Museu da Covilhã podíamos, finalmente, ir mais além. A existência do financiamento do Turismo de Portugal permitia colocar a questão da acessibilidade no centro de todas as decisões. Mesmo assim, como em todos os projetos, existiam montantes orçamentais a respeitar e entre os diversos caminhos possíveis, coube-nos decidir qual seria o mais indicado para este projeto.


A definição de acessibilidade utilizada pela Acesso Cultura (aqui resumida e adaptada) foi um dos nossos pontos de partida: “A acessibilidade consiste em criar igualdade de oportunidades para o acesso de todas as pessoas aos espaços e conteúdos, minimizando as barreiras físicas, intelectuais e sociais. A verdadeira igualdade de oportunidades pressupõe um acesso direto, imediato, permanente e o mais autónomo possível.”


O Museu da Covilhã localiza-se numa das ruas principais do centro histórico da cidade, muito próximo da Praça do Município. Está instalado no imóvel onde funcionou a agência do Banco Nacional Ultramarino, entre os anos 20 e anos 80 do século XX. Do edifício, de autoria do arquiteto suíço radicado em Portugal Ernesto Korrodi (1870-1944), apenas resta a fachada, revestida a azulejos que representam motivos relacionados com o comércio e os Descobrimentos.


O imóvel, de planta irregular, é composto por piso térreo, cave e três pisos superiores. A circulação entre os pisos pode ser feita através do elevador ou da escadaria interior.


A entrada é feita pelo piso térreo, onde se encontra a receção, a loja e uma sala expositiva. Os três pisos superiores são exclusivamente expositivos e na cave existe uma sala multiusos, para programação de atividades diversas.


Desde o início, ficou decidido que os conteúdos começariam no piso superior e terminariam no piso térreo, criando uma circulação de cima para baixo. O intuito era que os visitantes pudessem subir de elevador até o início da exposição e descessem pelas escadas que comunicam com todos os pisos.



O objetivo principal da exposição permanente é divulgar a história do concelho, desde os primeiros assentamentos até à atualidade. Os conteúdos estão organizados cronologicamente. O piso 3 abarca a pré-história e a romanização, o piso 2, a idade média e a época moderna e o piso 1, a época contemporânea. As salas expositivas combinam diversos recursos que estruturam o discurso. Os textos expositivos, as ilustrações e fotografias, as réplicas, as maquetas e as peças originais funcionam em conjunto para explicar e contextualizar cada momento histórico tratado.


A sala expositiva do piso térreo pode funcionar como conclusão da exposição ou pode ser visitada de maneira independente, tendo sido pensada como ponto de partida das visitas guiadas à cidade que organiza o Município. Este espaço oferece uma visão global de diversos temas, dando especial destaque às personalidades covilhanenses, ao património imóvel e à evolução da cidade, com recurso a interativos multimédia. É também nesta sala que se reflete sobre o futuro do concelho, através de breves entrevistas a especialistas covilhanenses que tratam sobre temas como o turismo, a cultura, o património, a interioridade e o envelhecimento ativo.


Concebemos todos os conteúdos e elementos expositivos com o intuito de garantir a acessibilidade de diversos públicos. Ao projetar com a acessibilidade e o design inclusivo em mente, não estamos apenas a promover o acesso de pessoas com características específicas, mas estamos a melhorar as condições de acesso de todos.


Mas, passar da teoria à prática não é fácil. Obriga-nos a analisar cada caso e, forçosamente, chegámos à conclusão de que nem sempre existe uma opção de “design para todos”. São diversos os casos em que não foi possível aplicar uma solução que sirva na perfeição a todas as pessoas. Questões à partida tão simples como a que altura devemos colocar uma peça, fazem-nos descobrir que as regras de boas práticas para um tipo de público contradizem-se, literalmente, com as normas para outro público. Ao nosso entender, é preciso haver cedências de parte a parte. Nem todas as soluções aplicadas no Museu da Covilhã são ideais para todos, mas todos os visitantes terão diversos recursos que foram desenhados preferencialmente a pensar neles.


Neste sentido, para além do cuidado na escrita dos textos expositivos e na apresentação gráfica dos conteúdos – que foi referida anteriormente – demos especial atenção ao design de mobiliário. O balcão de atendimento tem uma zona rebaixada, que facilita a comunicação com pessoas em cadeira de rodas ou de baixa estatura. As vitrinas e as mesas interativas são abertas na parte inferior, permitindo a aproximação frontal em cadeira de rodas. As vitrinas têm vidro em duas faces (superior e frontal) para facilitar a observação do espólio. Todas as alturas dos elementos expostos foram pensadas, para serem o mais abrangentes possíveis aos diversos públicos.



Todo o percurso expositivo conta com piso podotátil. O piso tem duas funções principais: indicar um caminho seguro livre de obstáculos e, através do piso de alerta (retângulos pontilhados), criar “chamadas de atenção” nos locais onde existem outros recursos para público cego ou com baixa visão. Existem também mapas tácteis de localização em cada piso expositivo, que reproduzem a planta e indicam o percurso e os elementos que poderão ser encontrados ao longo do mesmo.


Foram executadas réplicas táteis de diversas peças que não podiam integrar a exposição (como, por exemplo, uma lápide romana que se encontra no Museu Nacional de Arqueologia ou o frontispício do Foral Manuelino, preservado no Arquivo Municipal da Covilhã). A maior parte destas réplicas foram feitas com base em imagens fotográficas. Após definir o relevo, cada peça é esculpida sobre pedra sintética e posteriormente colorida com impressão direta, conseguindo um acabamento muito realista. Também há maquetes táteis e peças originais disponíveis para o toque. Todos estes elementos estão complementados com textos em braille e, na maioria dos casos, por clips áudio da aplicação de apoio à visita.


Os diversos filmes apresentados ao longo do percurso estão legendados e contam com interpretação em língua gestual portuguesa.


Foi criada uma aplicação de apoio à visita acessível, com versão portuguesa, versão portuguesa com audiodescrição e versão legendada e com interpretação em língua gestual portuguesa. Esta aplicação permite conhecer melhor 25 pontos de interesse do interior do museu e 25 pontos do exterior, promovendo uma visita ao património edificado da cidade. Aliás, um dos objetivos do Museu da Covilhã é convidar à descoberta de outros museus ou património do concelho. Todos os textos dos painéis foram traduzidos para inglês e estão disponíveis em formato digital, acessível através de telemóvel.



Também no exterior, em 3 locais estratégicos do centro histórico, foram colocados mapas tácteis de localização.


Para além do projeto expositivo, a Formas Efémeras também orientou diversas questões relacionadas com a acessibilidade, ainda na fase de requalificação do edifício.


Um dos aspetos de resolução mais complexa foi o acesso físico ao edifício. O imóvel acompanha o ligeiro declive do arruamento e todos os vãos de acesso tinham um ou vários degraus. O passeio era relativamente estreito e em frente ao edifício estava localizada uma zona de paragem de táxis.

A proposta que apresentámos veio eliminar os degraus de acesso através da construção de uma plataforma de nível, executada em granito amarelo semelhante ao utilizado na cantaria da fachada. Com o alargamento do passeio foi garantida maior dignidade da fachada.


Nesta fase de obra também foram definidas as alterações necessárias à escadaria interior de acesso aos vários pisos e às instalações sanitárias.


Antes da abertura do Museu foram feitas diversas visitas que nos permitiram testar e corrigir diversos aspetos. Agora que o Museu está aberto ao público, os comentários dos visitantes continuam-nos a ajudar a melhorar alguns aspetos e perceber quais foram as melhores soluções adotadas.


Não podíamos acabar este breve texto sem reconhecer a dedicação de algumas pessoas que tornaram possível este museu: a Dra. Sandra Ferreira, da Câmara Municipal da Covilhã e atual diretora do Museu da Covilhã, o Prof. António dos Santos Pereira, curador científico e com quem tantas vezes debatemos o guião expositivo, o Dr. Filipe Serra Carlos, colaborador incansável na pesquisa e redação de textos, o Arq. Pedro Seixo Rodrigues, responsável pelas soluções arquitetónicas e pelo design de mobiliário, neste último ponto tão bem auxiliado pelo designer de produto Daniel Catarino e, finalmente, o designer gráfico David Duarte, responsável pela identidade e pelo design de todos os elementos visuais da exposição.


A Formas Efémeras também definiu e coordenou o trabalho executado pela Casa do Braille (réplicas táteis e piso podotátil), Realizasom (aplicação de apoio à visita), Crossing (interativos multimédia), Lobby Productions (filmes), Tecnat (execução de mobiliário) e WDretail (impressão gráfica).


* Elisabet Carceller é gerente da Formas Efémeras.


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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