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Monumento de D. Pedro IV, em Angra do HeroĆ­smo

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Paradoxalmente, nesta nossa atualidade, quando existe na história da humanidade o maior acervo de conhecimento do passado acerca da própria espĆ©cie, Ć© quando se constata a maior amnĆ©sia social, essa rutura irrevogĆ”vel, causadora deĀ enorme sofrimento psicossocial, marcada pelos desaparecimentos, que colapsaram o sentido tradicional de comunidade. HĆ” uma perceção generalizada de que tudo e qualquer coisa pode desaparecer, a qualquer momento. Ɖ uma autoconsciĆŖncia amplamente presente nos espĆ­ritos dos indivĆ­duos. Assistimos, presencialmente, no tempo das nossas vidas, ao fim de algumas comunidades que subsistiam num longo sono etnogrĆ”fico, sendo que nelas subsistiam reservas deĀ Mnemósine. Comunidades religiosas subitamente laicizadas, fosse qual fosse aĀ religiĆ£o, onde existia atĆ© normalidade e previsibilidade garantida da transmissĆ£o de valores, agora maioritariamente implodidos. Tudo mudou e mudou subitamente. Ɖ o que sintĆ©tica e metaforicamente vĆ”rios pensadores denominaram de a aceleração da história. O desaparecimento combina-se com a ansiedade acerca do significado do presente e a incerteza do futuro.



E tal agudizou o interesse e o fascínio pelos lugares de memória, ou, como Pierre Nora os teorizou, os lieux de mémoire, que são lugares que representam o que são e aquilo que foram, enquanto específicos e particulares testemunhos de acontecimentos de importância histórica singular, nódulos espÔcio-temporais onde se operou uma rutura no tecido da continuidade, onde a tradição foi rasgada; marcos dessa realidade pretérita. E, maioritariamente, esses mesmos lugares não habitam a memória, ora porque não eramos nascidos, ou porque não estão presencialmente no território de onde somos oriundos. Os horizontes são mundiais e a cronologia é tão profunda quanto o desejemos. Em apenas alguns anos a materialização da memória foi dilatada, multiplicada, descentralizada, democratizada. A tarefa de lembrar faz de cada um de nós o seu próprio historiador.


O património cultural passou a ser o repositório pessoal da nossa imaginação de identidade. E, independentemente de outros assuntos que nele possam ser debatidos, obriga-nos, sobretudo, a ter de nos confrontarmos com a nossa perpetuidade e finitude. Não pelo património cultural em si, nem pelo que alegadamente rememoriza, mas sim pela angústia da contemporaneidade, desnudada de forma brilhante, por exemplo, por Milan Kundera, em A imortalidade. 

A tua vida tem fim. A tua imortalidade não, pelo menos enquanto de ti houver memória. Após a nossa morte, legamos uma imagem ao resto do mundo dos viventes, mas não possuímos qualquer controle sobre ela. A diversidade de reações perante tal facto é tanta quanto o número de pessoas existentes. Este foi o filão, extraordinariamente denso, penoso, mas cuidadosa e sabiamente urdido, por Kundera, num dos mais importantes escritos que nos legou.


E porque esta angústia existencial é fundamentalmente um fenómeno ocidental, urbano e cosmopolita, optÔmos por olhar não para um lieux de mémoire perdido no alforje etnogrÔfico, mas antes um urbano, à plena vista de todos, cujos atribuídos significados são múltiplos, desvelando-se estratigraficamente, de acordo com a perspetiva usada e o prévio conhecimento do observador.


JĆ” nos alertava Alexandre Herculano, n’ O Monge de Cister, que:Ā ā€œComo debaixo dos pĆ©s de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas geraƧƵes que a precederam, assim debaixo dos fundamentos de cada cidade grande e populosa das velhas naƧƵes da Europa jazem alastrados os ossos da cidade que precedeu a que existe.ā€.Ā Em Angra do HeroĆ­smo, oĀ Monumento a D. Pedro IV, popularmente conhecido como Alto da Memória,Ā Ć© permanentemente visto por todosĀ aquelesĀ que percorremĀ os diversos bairros da cidade históricaĀ (classificada como Património da Humanidade pela UNESCO),Ā sendoĀ dedicado ao monarca,Ā herói da liberdade dos povos e trata-se, de facto, do primeiro monumento concluĆ­do no paĆ­s Ć  memória desta figura, sendo complementado pelo do Porto (estĆ”tua equestre, de 1866) e pelo de Lisboa (estĆ”tua de corpo inteiro encimando colossal coluna corĆ­ntia, de 1870), que lhe sĆ£o posteriores. O que havia sido programado primeiramente como busto, a colocar diante do PalĆ”cio dos CapitĆ£es-generais (ideia abandonada pelo alto custo da escultura), depois ainda, como uma estĆ”tua a colocar no centro da PraƧa Velha (ideia abandonada porque iria interferir com a dinĆ¢mica das touradas ali realizadas), acabou por ser concretizado no local onde se encontra, nos escombros do ā€œCasteloā€ de SĆ£o LuĆ­s (ou dos Moinhos, a mais antiga fortificação do arquipĆ©lago, que foi arrasada para o albergar), simbolicamente assumido como um gólgota laico, o que foi reforƧado pelo rasgar de acesso ao jardim Duque da Terceira, entĆ£o efetuado, concluindo-o. A 3 de marƧo (evocativo do dia da chegada de D. Pedro IV Ć  Terceira) de 1845 (ou seja, onze anos após o seu falecimento, com somente 35 anos de idade), lanƧou-se a primeira pedra, que foi, literalmente, a primeira pedra por si pisada na ilha, com vista a homenagear o protótipo perfeito do herói romĆ¢ntico que oĀ monarca encarnou na perfeição. Foi concluĆ­do em 1856, ao qual Ć© obrigatório ascender em patamar, apresentando ainda trĆŖs degraus emĀ podium, com uma base quadrangular, de onde arranca uma pirĆ¢mide, no largo quadrangular que lhe dĆ” enquadramento, esse concluĆ­do em 1862. Apesar das muitas crĆ­ticas e das dificuldades de financiamento da obra, o facto de nĆ£o ser um monumento figurativo, mas sim um altamente simbólico, permite que o tempo nĆ£o o desatualize. Em 2016, o Grande Oriente Lusitano e a CĆ¢mara Municipal de Angra do HeroĆ­smo colocaram uma instalação comemorativa, com a inscrição: ā€œAo ilustre Teotónio de Ornelas Bruges (1807-1870) filantropo e responsĆ”vel pela edificação do monumento em memória de D. Pedro IV. Tributo que lhe presta o G.O.L. - MaƧonaria Portuguesa 02-12-2016ā€. Trata-se do Ćŗnico monumento conceptualmente maçónico, erigido com esse pressuposto, na ilha1.


Dada a crónica dificuldade de liquidez, a ideia do monumento era a da construção de um obelisco, talqualmente haviam aprendido que os antigos egĆ­pcios o faziam, após grandes vitórias bĆ©licas.Ā O Obelisco deĀ Luxor,Ā instaladoĀ naĀ PlaceĀ de la Concorde,Ā em Paris,Ā havia sido inauguradoĀ em 1836,Ā oito eram os obeliscos em Roma reinstalados nas centĆŗrias de quinhentos a oitocentos, o Obelisco dos deĀ Mayo, em Madrid, foi inaugurado em 1840, pelo que Angra, nessa altura jĆ” Angra do HeroĆ­smo, aos olhos do promotor, tambĆ©m merecia um monumento assim.Ā PorĆ©m, dada a pobreza dos materiais empregues na sua construção, tijolo e argamassas de cal – um monumento de betĆ£o antes da chegada do cimento Portland, que ocorreria poucas dĆ©cadas mais tarde – o resultado foi um cubo, sob um cubo, encimado com um triĆ¢ngulo, uma representação geomĆ©trica da sociedade burguesa que se instalou, com os simples na base, aĀ emergente classe mĆ©dioĀ no meio e, claroĀ estĆ”, piramidalmente distribuĆ­da, a aristocracia atĆ© culminar no rei. Involuntariamente, ou nĆ£o, erigiu-se, a propósito do monarca, o desenho da nova sociedade liberal, tornando-o, portanto, num monumento coletivo.


A história de Angra do Heroísmo e a história de Portugal, a partir de 1820, mais ainda a partir de 1828, misturaram-se. RevolucionÔrio, apaixonante, carismÔtico, vaidoso, um pouco louco também e maior do que a vida, foi Teotónio Simão de Ornelas Bruges Paim da Câmara de Ávila e Noronha Ponce de Leão Borges de Sousa e Saavedra, nascido em Angra a 25 de abril de 1807. Opulento proprietÔrio terratenente, de longe o maior proprietÔrio da ilha Terceira, que, com 21 anos, se revelou o grande responsÔvel, pelo sucesso da causa constitucional, aquando da restauração da mesma, no golpe de 22 de junho de 1828, feito fundamental na história lusa, obrado em conjunto com os seus irmãos dos Caçadores n.º 5. Subsequentemente, com a ilha Terceira isolada e cercada, foi ele a sustentar, com os seus cabedais, todos os liberais. Em 1831, chefiou a comissão que foi jurar fidelidade a D. Maria II e a D. Pedro IV, em Paris. AliÔs, foi ele a convencer D. Pedro IV a juntar-se-lhe nos Açores. E foi ele a recebê-lo, bem como a obter o empréstimo de um milhão de réis para continuar a luta. E foi ele também o morgado a disputar com o rei/imperador os amores das freiras do convento da Esperança, o que os pÓs desavindos. Tal não inibiu que, em 1833, a rainha o tenha elevado a Visconde de Bruges, e este dedicou-se a reorganizar toda a Maçonaria açoriana, a organizar a CarbonÔria e a organizar ainda a Sociedade dos Jardineiros. Sem ele não teria existido contragolpe liberal e Teotónio sabia-o. Porém, tal não o inibiu de pegar em armas e destacar-se na valentia castrense, principalmente no desembarque em São Jorge.

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O contributo da ilha Terceira nĆ£o foi esquecido pelo novo regime. Em 1837, Angra viu o seu nome alterado para Angra do HeroĆ­smo, a Vila da Praia passou a Praia da Vitória, alusiva Ć  batalha de 11 de agosto.Ā Com o fim da guerra civil foi logo eleito deputado Ć s Cortes, tendo passado, no ano seguinte, Ć  CĆ¢mara dos Pares. A 1 de janeiro de 1831 tornou-se no primeiro presidente de cĆ¢mara eleito no paĆ­s, em Angra, e voltou a sĆŖ-lo numerosas vezes. E administrador do Distrito tambĆ©m. As inovaƧƵes que trouxe Ć  ilha e aos AƧores sĆ£o incontĆ”veis, em muitas Ć”reas, da agricultura (com a introdução de novas culturas, a alteração do regime fundiĆ”rio e a criação de um falanstĆ©rio-pilotoĀ inspirado nas ideias de Fourier), na polĆ­tica (mais revolucionĆ”ria durante a juventude, mais moderada com a idade, mas sempre, sempre, de esquerda), na imprensa (criou o primeiro jornal ā€œindependenteā€), nas sociabilidades, na educação, na assistĆŖncia social, na cultura, no ā€œprĆ©-feminismoā€, ao ponto de se poder, sem exagero, afirmar que hĆ” um antes e um depois dele na ilha. Em 1863, foi-lhe outorgado o tĆ­tulo de Conde da Praia. E, foi devido a esse tĆ­tulo e ao facto de, com a idade, se ter tornado um requintado gastrónomo, que o seu nome ficou indissociĆ”vel do doce que ainda hoje herdou o seu nome – o pudim Conde da Praia. O doce jĆ” existia, mas talqualmente como no caso da D. AmĆ©lia, transformou o seu nome devido ao ilustre consumidor. PorĆ©m, esse lado somente se revelarĆ” numa idade madura, mas numa linha de continuidade moderadamente hedonista.


Enquanto novo, a questão era diferente. Tudo nele era um incêndio. As paixões eram arrebatadoras e proibidas, recriando, na sua vida real, a famosa peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, enamorado pela filha do líder dos absolutistas, com quem veio, mais tarde, a casar. Amores proibidos, inquebrantÔvel zelo revolucionÔrio, dominaram a juventude, aliados a uma obstinação sem par, que o definiram e mudaram uma ilha, depois, um arquipélago, e, em verdade, mercê de um conjugar de vontades, mudou mesmo o país. Esta força da natureza, o maior herói dos Açores a par de Ciprião de Figueiredo, expirou a 25 de outubro de 1870. O seu funeral foi, até aos dias de hoje, a maior manifestação pública de que hÔ memória na ilha e no arquipélago. Vinte mil pessoas, cerca de metade da totalidade dos habitantes da ilha, acompanharam o seu cortejo fúnebre.


E de 1834 até à sua morte, em 1870, a maçonaria na ilha Terceira foi ele. A sua influência foi de tal modo marcante que ou se era por ele ou, definitivamente, contra ele. Da imensa prole de catorze descendentes, seis foram os filhos, sendo que JÔcome (1833-1889), Teotónio (1836-1907), Teotónio Simão (1841-1936), Francisco (1849-1877), André (1852-1916) e João (1853-1941), foram todos igualmente maçons.  Das duas Lojas existentes na joint venture com os deportados da Amazona, Angra passou a ter quatro, quando não cinco ou seis Lojas, em funcionamento simultâneo. E alargou-se ainda para a Praia da Vitória. Contribuiu, de forma mensurÔvel, para o crescimento da maçonaria nas demais ilhas, ao ponto de, em todas aquelas em que existiam lojas, pelo menos uma se revelava próxima de Teotónio de Ornelas. A ele se deve, pela primeira vez, a noção arquipelÔgica e, extravasando em muito apenas os Açores, a ele se deve, em verdade, a conceção de uma maçonaria atlântica, fundamental à sobrevivência e sustentação da Maçonaria do Sul, do marechal Saldanha, que existiu até 1849, da qual ele foi um dos fundamentais garantes, não tendo realmente fidelidade a obediências, mas sim aos princípios políticos. 


PorĆ©m, a maƧonaria nĆ£o criou apenas oficinas. Criou as primeiras instituiƧƵes bancĆ”rias mutualistas, as primeiras bibliotecas pĆŗblicas, as escolas diurnas e noturnas, inclusive as móveis, os clubes para instrução das elites e das classes mĆ©dias, teatros, com vista Ć  emancipação social a partir da educação. Nas palavras do próprio:Ā ā€œA educação primĆ”ria da mocidade Ć© por certo principal objeto, que deve ocupar-nos. (…)Ā Sem educação bem regulada, a mais ilustrada legislação serĆ” infrutĆ­fera: qualquer regeneração polĆ­tica encontra escolhos fortĆ­ssimos num povo, aonde a educação moralĀ se despreza; aonde, em lugar de princĆ­pios sólidos e puros, a Ć­ndole infantil sobrecarregada e corrompida por monstruosas mĆ”ximas do prejuĆ­zo, e pelos desumanos princĆ­pios do fanatismo polĆ­tico e religioso: pelo contrĆ”rio, aonde por um reto sistema de educação o povo bebe os puros ditames da moral e das virtudes sociais, dificilmente o vĆ­cio e o crime estabelece impĆ©rio e ganha adoradores; (…)Ā Quando falo num sistema de educação ilustrada, eu o faƧo aplicĆ”vel a ambos os sexos; digo isto porque tem-se sempre tratado entre nós com o maior desleixo a educação moral do sexo feminino, quando eu suponho a educação ilustrada neste sexo tanto essencial como no sexo diferenteĀ (…).ā€2. E Ć© tudo isto que naquele monumento se materializa.Ā 


Por fim, serĆ” a Memória umĀ lieuxĀ deĀ mĆ©moire? Atualmente Ć© o mais concorrido miradouro da cidade e da ilha. Todos os queĀ a ilhaĀ TerceiraĀ visitam, a ele se dirigem em peregrinação, escalando o jardim, num fenómenoĀ comĀ aparentesĀ semelhanƧas aĀ outras turĆ­sticasĀ peregrinaƧƵes modernasĀ de motivação religiosa. Os mais idosos,Ā acedemĀ ao lugar atravĆ©s de autocarro, claro estĆ”. VĆ£o para ver a vista, sim, mas tambĆ©m para contemplar o singular monumento erigido ao monarca herói romĆ¢ntico. Nele se explica, a todos, porque a ilha Terceira foi fundamental na história do paĆ­s, narrativa essaĀ de incontido orgulho próprio, mais do queĀ emĀ isenta exposição histórica.Ā Continua, de igual modo, a marcarĀ a paisagem urbana para quem o habita, sendo ponto de referĆŖncia espacial recorrentemente utilizado. Ali, no campo do domĆ­nio do natural e artificial,Ā conforme Pierre Nora, sĆ£oĀ ā€œoferecidos Ć  mais sensĆ­vel experiĆŖncia e, ao mesmo tempo, sobressaindo da mais abstrata elaboraçãoā€, o monumento, simultaneamenteĀ lieuxĀ deĀ mĆ©moire. Nele seĀ concentramĀ a dimensĆ£o material, a dimensĆ£o simbólica e a dimensĆ£o funcional. Ɖ lugar contemplativo e introspetivo. É umĀ templo laico ao ar livre.

 _______ O autor utiliza o novo acordo ortogrÔfico.


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