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Fazedores de Mudança – lutar, concretizar, transformar



Susana Gomes da Silva* 1


No meu gabinete há uma janela enorme para o jardim. Nela colei, em tempos, palavras de ordem resultantes de um projeto participativo realizado pelo serviço educativo do Centro de Arte Moderna com jovens dos 11 aos 17, oriundos de um bairro social na periferia de Lisboa. O projeto chamava-se Mapas em aberto - Moradas Coletivas.


Tratava-se de uma proposta de intervenção e transformação do bairro (que estava naquele momento num processo de consulta participativa mas da qual estes jovens não tinham podido fazer parte) e essas palavras, escolhidas por eles, faziam parte de uma proposta gráfica de intervenção nas fachadas dos prédios com o objetivo de se criar um espaço de visibilidade para as suas ideias e para as suas vozes.


Neste processo nós fomos parceiros de caminho, lançando desafios a partir dos artistas e dos processos da arte contemporânea, debatendo e vindo ao museu, desenhando espaços conjuntos de trabalho cá e lá, ouvindo, partilhando e criando ferramentas para pensar, intervir e criar. Foi assim, aliás, que o projeto, inicialmente chamado Mapas em Aberto, ganhou o acrescento Moradas Coletivas, por sugestão deles.



Lutar, Concretizar e Transformar, são algumas das palavras do projeto escolhidas pelos jovens, e são exatamente aquelas que, coladas na minha janela, emolduram diariamente a forma como olho para o mundo lá fora, lembrando-me destes caminhos trilhados em colaboração, mas também, e sobretudo, da necessidade de conhecermos (e revisitarmos) o que nos move, os conceitos em que assentamos as nossas crenças e valores. São esses valores que enquadram e moldam o mundo que vemos, o mundo que queremos e o mundo que fazemos todos os dias enquanto pessoas e enquanto profissionais.



Os paradigmas de museu têm vindo a mudar e não podemos ser alheios ao debate sobre a nova definição de museu2 e o que ela proporciona em termos de novos paradigmas3. Há muito que a dimensão da relação com os públicos (audiências, comunidades, pessoas) entrou nas definições da sua missão e os modelos participativos passaram a fazer parte das suas práticas.


Mais do que de públicos quando falamos de pessoas, e mais do que de educação quando falamos de envolvimento e aprendizagem.


Os novos paradigmas em debate demandam, assim, mais do que o simples desenho de projetos de aproximação aos públicos ou da criação de “serviços educativos”, e exigem que os museus assumam outros papéis de relevância que os tornem socialmente responsáveis, acessíveis, inclusivos e participativos. E que, neste sentido, se assumam como “uma força cultural dinâmica, flexível e adaptativa” para citar a museóloga Ana Carvalho.4


Consequentemente, o que nos está a ser pedido é que nos assumamos como uma força vocacionada para a mudança e um garante da democracia, justiça social e direitos humanos. E aliada a esta tomada de consciência está também a urgência da inscrição dos museus no debate atual, no aqui e agora, enquanto instituições capazes de reflexão e transformação, não só das suas visões da educação mas sobretudo do seu papel e responsabilidade cívica num mundo desigual, convulso, violento e complexo. Para podermos, como diz Wayne Modest – construir novos e melhores futuros.5


Não é de estranhar, portanto, que o debate atual clame por mudanças de perspetiva e pela diversificação das vozes, convidando os museus a repensarem-se de fora para dentro. A escutar mais, a partilhar a responsabilidade e a construção de conhecimento: “Que significado teria começarmos as conversas sobre museus com uma melhor compreensão do que as pessoas realmente desejam e precisam deles? O que passaria a ser possível se víssemos as audiências como participantes ativos na produção de conhecimento em vez de meros recetores passivos?”.6


E neste processo somos também chamados a repensar os formatos para este encontro e plurivocalidade, assumindo novas formas para a educação nos museus, seus agentes, seus sujeitos, objetos e práticas. Ajudando a redesenhar o papel dos museus numa sociedade civicamente mais exigente, incorporando outras vozes e novos atores no seu espaço de poder e de representação.


Para que os museus se possam constituir, então, como espaços de criação, de reflexão, de reconstrução, de reparação e de cuidado.


Tal como nos diz Mike Murawski os museus têm o potencial para serem “espaços transformadores de ligação humana, cuidado, escuta e aprendizagem profunda”7. Cuidar, Reparar, Escutar, são cada vez mais, palavras fundamentais na forma como os museus se inscrevem no mundo.

Museus feitos de pessoas, para pessoas, com pessoas.


Enquanto responsável de educação, programadora e mediadora, acredito que o papel da educação nos museus é fundamental para contribuir para o desenho destes lugares de participação e ligação.


Um programa educativo é um espaço de encontros e de relações e uma área crucial e transversal de trabalho em qualquer museu na concretização da sua política de públicos e na sua visão do mundo.


A riqueza deste trabalho decorre do envolvimento do museu como um todo, numa visão partilhada da sua missão, da sua estratégia relacional e do reconhecimento do seu compromisso com a atualidade.


Os museus não existem separados do mundo mas em profunda interdependência. Diz-nos Sandell que um dos problemas da relação dos museus com os seus públicos reside em parte na noção de que museu e comunidade são entidades separadas.8


E Murawski reforça que uma das falácias reside justamente no facto das comunidades serem vistas como entidades externas das quais temos de nos aproximar (daí o termo outreach) para as integrar e incluir9, cabendo habitualmente à educação essa função e responsabilidade.


Mas os museus inscrevem-se no mundo, são parte integrante do tecido social onde se encontram e a sua relação com este tecido desenha-se em todas as frentes, e não apenas na programação educativa ou dita de públicos.


Assumir o papel cívico das instituições culturais e colocar o desenvolvimento de uma relação com os públicos (as comunidades, as pessoas) no centro da sua ação é um desafio que implica mudanças importantes nas missões e identidades que nos caracterizam (e diferenciam) enquanto espaços culturais, nas equipas que constituímos (ou que procuramos constituir), nos programas que desenvolvemos e na forma como os pensamos e operacionalizamos, nos públicos que convocamos e a quem nos dirigimos, no papel que os convidamos a desempenhar, no(s) poder(es) e responsabilidades que assumimos, delegamos e partilhamos.


E volto a Murawski, “o museu não é uma instituição, somos nós”.10


E esta deslocação de visão implica-nos a todos como agentes da mudança que queremos ver. É neste espaço dinâmico, por vezes ruidoso e cacofónico, muitas vezes ambivalente e não isento de tensões, desconforto, risco e inquietude, que concebo o meu lugar enquanto programadora e mediadora.


Este é, a meu ver, o lugar de escuta e de ação, um lugar de mediação, colaboração e partilha. De múltiplas formas de fazer mudança.


E é também este lugar (espécie de ruidosa “caixa de ressonância dos sons do mundo”11) que me parece constituir um museu verdadeiramente comprometido com as pessoas e o seu tempo. Relevante. Empático. Um único organismo vivo e orgânico, um sistema interdependente com uma visão comum, onde não cabe apenas ao educativo a responsabilidade de incluir, diversificar e escutar. Agora mais que nunca, e isso, isso exige reconhecer agência nos públicos. Passar de uma noção de consumo passivo para uma noção de co-criação, colaboração e participação.12



Acredito que o espaço da educação nos museus é fecundo na criação de diferentes registos e diferentes vozes, um forte aliado no desenho de espaços de participação efetiva de diferentes indivíduos e coletivos.


A riqueza e diversidade de uma coleção não se mede apenas pela qualidade dos seus objetos e obras de arte, mas pela capacidade que temos de os interpretar e ler de diferentes formas.


Acredito que isto implica sempre um modelo dialógico de trabalho, dentro e fora do museu, e aponta para uma ação participativa dos públicos e uma visão colaborativa das equipas.


Um espaço que tem de permitir liberdade, audácia e risco uma vez que ir ao encontro requer disponibilidade para trilhar caminhos desconhecidos, abraçar a diferença e experimentar. Promover a diversidade, ceder lugar, escutar e fazer juntos.


Nos meus quase 20 anos enquanto responsável educativa, programadora e mediadora tenho procurado plasmar estas ideias em ação.


Projetos como o que mencionei experimentam modelos participativos de trabalho, partilhando com os participantes o lugar e o poder de quem decide, de quem programa, de quem constrói as leituras e narrativas. Introduzem desvios.


Projetos híbridos de estreita colaboração entre educação e curadoria, entre museu e associações ou ONG, outros modelos de colaboração que preconizam espaços e atores renovados na leitura das coleções e na capacidade de fazer do museu um espelho da diversidade do mundo em que se insere e um propositor de mudança: de novos e melhores futuros para voltar à expressão de Wayne Modest de que tanto gosto.


Porque todas as vozes importam e a cooperação e a sustentabilidade são um chão comum essencial no mundo que queremos e pelo qual somos responsáveis. Porque todos somos Fazedores de Mudança.


Segundo John Berger “a escuta é uma forma de ativismo”. Comecemos por aí pois ela implica a capacidade de ouvir o mundo à nossa volta, de empatia, de deslocação de uma posição auto-centrada para a atenção e o cuidado do outro.


Nos tempos que correm nada me parece mais essencial.


Saberemos escutar?


Notas


1 Este texto é uma adaptação do texto "Escutar, agir, transformar – porque fazemos o que fazemos?", originalmente apresentado no dia 3 de Setembro de 2021 no âmbito da Escola de Verão – Museus e Educação, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian. A transmissão vídeo da apresentação pode ser vista aqui.


2 Processo de consulta em Portugal aqui.


3 Relembrando a nova definição que foi colocada em cima da mesa em Kyoto em 2019 gerando uma enorme controvérsia e debate: “Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.

Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes; trabalham em parceria activa com e para comunidades diversas na recolha, conservação, investigação, interpretação, exposição e aprofundamento dos vários entendimentos do mundo, com o objectivo de contribuir para a dignidade humana e para a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário.”

4 Ana Carvalho, "Diversidade Cultural e Museus no Séc. XXI: O Emergir de Novos Paradigmas”, Doutoramento em História e Filosofia da Ciência, especialização Museologia, Universidade de Évora, 2015.


5 É possível revisitar aqui as suas palavras na Adeste + Lisbon Summerschool Empowering Audiences, reimagining Audiences, realizada em Lisboa na Fundação Calouste Gulbenkian (23 a 27 de Setembro de 2019) e na palestra “Perpetual Return or On Being Included: Again, and again and again…” aqui.


6 Tradução livre de Laura Raicovich on How to Make Museums “Better for More People”, Hyperallergic, June 2021 +


7 Mike Murawski, Museums as agents of social change, (2021)


8 A este respeito vale imenso a pena revisitar a conversa com Richard Sandell e Cristina Lleras promovida pela Acesso Cultura em Maio de 2021 no âmbito do ciclo de conversas "The Activist Museum: going deeper", aqui.


9 Mike Murawski, "The Urgency of Empathy & Social Impact in Museums" (July, 2016) +


10 Idem, ibidem.


11 Perdoem-me a auto-citação (aqui).


12 Isabel Singer, "Refocusing museums on people: my dreams for museums in a post-covid world" (April 2021) +

* Susana Gomes da Silva é Responsável de Educação no Museu Calouste Gulbenkian. +


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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