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Crónica a propósito de memórias e mais quê?


O Museu é um espaço de salvaguarda de memórias e de dignificação da comunidade. E, como tal, o Museu tem, entre outras, uma função fundamental nas suas geografias de intervenção que é a do registo dessas memórias.


Contudo, esses registos estão marcados pelos momentos das palavras “eternizando” o emissor e fazendo que esse não seja apenas mais um registo ou mais um momento que se acrescentará a uma nuvem infinita de registos.


O hoje é o tempo da perpetuação das memórias. A infinita maioria vai ganhar uma outra vida que é a de ser um simples item num cardápio de muitos outros organizados por data ou ordem alfabética. Um número transcende em dimensão e design a gravação onde se conta ou descreve. E a entrevista deixa de ser o instrumento de posse do entrevistador, que de repente se assume como um escrivão do tempo, do destino de personagens que não conhece e que, como títeres, lhe chegam agora às mãos. E assim ficam. E para ali se arrumam.


Quando o entrevistador chega ao entrevistado a memória de cada um é uma peça de um puzzle inacabado e impossível de terminar. Sem nos apercebermos, somos parte de um tempo, de um espaço repartido por uma cartografia geográfica que se multiplica pela viagem que fomos recriando nos nossos “estares”. Que se iniciou na casa onde nascemos e se completou na escola, no primeiro trabalho, na juventude inquieta, no tempo do trabalho e da diáspora; outro tempo paralelo se foi construindo no tempo do namoro, do casamento, do saber-fazer de todos os dias. E aqui, entrevistado e entrevistador, confundem-se nas suas funções de atores de uma história quase irreal, mas que é história e faz parte de um guião que se adapta a contextos e a necessidades, neste caso científicas, que, mesmo de curto prazo, são parte incessante de dois tempos cronológicos: o ontem, tempo dos episódios passados e agora revividos na entrevista, pelo entrevistado; e o hoje, o tempo da entrevista, o tempo da sua divulgação, da sua utilização como referência “documental”, a que o entrevistador vai dar corpo.


E é “isto”. Nestes processos de (re)construção da memória, o “destino” de uma entrevista, de um depoimento, de uma história de vida, de um acontecimento olhado num prisma muito particular, é referência apenas durante um tempo. O cronos do fabricante… o espaço das sombras de um resquício de existência que se queda solito, mas allá do esquecimento que não foi, mas será logo de seguida.


O registo, o inventário, a classificação da memória oral entraram num processo “viral”, como nunca se tinha visto. Multiplicam-se os projectos de registo de “histórias de vida”; procuram-se intensamente os relatos dos mais velhos sobre a vida nos tempos da sua juventude; a utilização da multimédia permite fazer, com muita facilidade e poucos meios, documentários sobre os mais diversos e variados temas. Saberes-fazer, espaços e sons de trabalho.


A memória oral, num mundo onde há cada vez menos reflexão e cada vez mais montras de mostras, aparece hoje com nunca como a jóia da coroa no panorama do nosso património cultural. No entanto, e no remanso dessa febre do registo de todo e qualquer relato das “coisas” de ontem, poucas são as iniciativas que trazem para o dia-a-dia o resultado desse trabalho de registo. Poucos são aqueles que através dos tantos ficheiros onde se acumula e “salvaguarda” a oralidade, não fogem da banalidade do banal registo, do inventário e do seu arquivar em plataformas que, na sua essência, o valor maior que trazem são o ser praticamente acessíveis a toda a gente e terem o talvez um dia faça falta.


A maioria desses relatos vão ficar algures por aí e raros serão aqueles que terão uma função objectiva na divulgação, valorização e salvaguarda de memórias para a construção de um discurso que recuse o esquecimento, que dignifique o devir do “actor” e do seu espaço de representação. A maioria dessas histórias de vida ali vão ficar armazenadas em dezenas e dezenas de horas de gravações, pouco ou nada escalpelizadas, arrumadas por temas e/ou assuntos para que possam facilmente ser consultadas. Serão bem arrumadinhas, mas pouco ou nada estudadas.


“A Aldeia e o Mundo Novo - Os pioneiros dos Cortiços”, é um livro de Fernando Oliveira Baptista que acabei de ler há meia dúzia de dias. Mas não é essa proximidade cronológica que me leva a fazer aqui uma referência objetiva a este pequeno livro de pouco mais de 100 páginas, recentemente editado pela 100luz, uma editora de Castro Verde. Desde já o aviso que estas pouco mais de duas páginas não são uma crítica literária, técnica ou científica, tão pouco uma recensão crítica, como aquelas que se faziam na Faculdade. É, pura e simplesmente uma referência a uma publicação que me merece essa referência.


E porquê?


Comecemos pelo autor. Fernando Silva Oliveira Baptista, ex-professor do Instituto Superior de Agronomia, foi o Ministro responsável pelas pastas da Agricultura e das Pescas entre 26 de março e 19 de setembro de 1975. Estamos no Verão Quente do famoso PREC de que toda a gente enche a boca quando por esta e outra razão se fala do período pós-25 de Abril e anterior ao 25 de Novembro. E é neste contexto que Oliveira Baptista faz parte do elenco governativo.


Não pretendo fazer um elogio saloio a um homem com uma importante obra publicada, na área da sociologia rural, das dinâmicas socioeconómicas em espaços rurais, da gestão económica de espaços florestais que não conheço pessoalmente.


Apenas trago esta referência pelo exemplo metodológico e pelo despir de preconceitos que é este pequeno livro e que me permite refletir em torno de uma questão que peso com alguma acuidade e que se resume a duas coisas: para que serve a história oral e como podemos utilizá-la para reescrever a História que está mal contada. Que os documentos deformam…


A viagem é simples de percorrer. “Tudo aconteceu nos Cortiços, uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, que também dá o nome a uma freguesia que se reparte por duas povoações – Cernadela e Cortiços”, e se a história que nos conta Oliveira Baptista teve o seu epicentro nos anos de 1975 a 1977, ela é uma extraordinária radiografia social, política e económica de um período histórico, no nosso país, pouco conhecido de todos nós e que aqui nos é contada de forma simples e clara.


Genericamente, trata-se de uma experiência de “reforma agrária” no norte, longe dos campos de latifúndio do Alentejo e do Ribatejo, apesar de não faltarem sobreiros e olival, nas escarpas de um regime fundiário “micro”, lá no topo de um Portugal a acordar para um novo país… Desde os seus primeiros passos, até ao último sopro.


Fico por aqui. O leitor procure e leia e perceba que quase sempre a história dos vencedores é a História.


Mas a que propósito chego aqui… ah… o poder do registo oral e a sua utilização no complementar de toda a outra documentação para construir o discurso histórico que tem uma função social que não apenas alimentar modas, reforçar escolas, fazer títulos.


Aqui se cruzam comunistas, retornados, fascistas, funcionários, arrependidos, voluntários, sonhadores. Mas sobretudo, a importância de todos os documentos para refazer o tempo histórico e acertar contas com o saber feito de banalidades. É esta a função “social” da história contemporânea na recusa do esquecimento. E aqui, a memória oral tem um papel imprescindível e indispensável.


Tão bom este ler, ouvir e escrever simples do Professor Oliveira Batista.


Mas esta crónica era a propósito de quê?


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