BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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Um projecto

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Ajuda! É preciso Ajuda!


A decisão de se concluir o remate poente do Palácio Nacional da Ajuda (PNA), em Novembro, se não estou em erro, de 2014, encheu-me, desde logo, de alegria e satisfação, embora tivesse acrescentado que era preciso “ver para crer”. Tantas vezes se falou nisso… Não pretendo ser propriamente como São Tomé, nem sequer velho do Restelo, apesar da coincidência da proximidade geográfica não tenho nem idade nem feitio para isso.


O projecto palaciano teve início há mais de duzentos anos e o plano inicial nunca verá a luz do dia, por motivos, de resto, compreensíveis. A História, os acontecimentos e as suas circunstâncias são oleiros de excelência e moldam como ninguém. Num processo feito de paragens, avanços e recuos, de ajustes e reajustes, felizmente cada vez mais estudados, a obra em questão representará mais uma etapa de uma história que se quer que continue longa e indissociável da história nacional.


Palácio Nacional da Ajuda. Ala poente em construção.

Estamos a falar de um monumento nacional, de um antigo paço real, de um museu que possui colecções artística, histórica e culturalmente muitíssimo relevantes para o país, para a nossa identidade, a nossa soberania e percurso comum. Ainda mais satisfeito fiquei por essa requalificação contemplar uma utilização museológica que permitirá expor, com dignidade e segurança espera-se, muitas das peças da colecção de ourivesaria ligada à Casa Real Portuguesa.


Fui voluntário do Palácio Nacional da Ajuda/Museu em 2001, depois até meados de 2003 aí desenvolvi actividade profissional, sempre mantive uma ligação forte e afectiva ao monumento/museu (convém sublinhar esta dupla faceta, entre outras como um palácio utilizado pelo Estado Português, nomeadamente a Presidência da República e também o Governo). Sou membro do seu Grupo de Amigos (GAPNA), com uma amizade franca e genuína quero o melhor para o PNA.


Conforme já referi, a utilização museológica do novo remate parece-me a melhor solução. Não é, de resto, uma ideia original deste projecto cujas obras já arrancaram é verdade, embora tenha havido já lugar a reajustes de prazos e orçamento…Este pequeno grande pormenor está longe de ser irrelevante e merece monitorização.


Em nome dessa amizade e da importância patrimonial e cultural do palácio quero tecer algumas considerações, necessariamente breves. Primeiro, o processo de selecção do projecto que está a ser aplicado, que acarretou uma ausência de concurso através do qual se pudesse avaliar diferentes propostas (desde a estética à funcionalidade e ao orçamento). Foi dito que já se discutiu em demasia este processo e que era preciso avançar sem demoras. Mas a todo o custo? Sem comparar hipóteses e propostas em concreto no momento de agir?


Palácio Nacional da Ajuda. Ala Norte-Ministério da Cultura.

Depois, a solução encontrada para a gestão do designado Museu do Tesouro Real. Ainda não são conhecidos por inteiro os contornos desta solução (convém relembrar!), mas do que já é público (manifestamente insuficiente) é certo o envolvimento da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), cuja maioria dos associados é composta por entidades privadas, em articulação com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), na gestão da nova unidade museológica. Falava-se anteriormente de uma exposição permanente (seria preferível a designação longa duração), conceito que terá caído. Um museu nacional, num monumento nacional, financiado em parte pela ATL (será a utilização mais apropriada de uma taxa turística municipal?) e provavelmente gerido por esta? Um museu separado e autónomo do Palácio Nacional da Ajuda/Museu? Sem visão de conjunto? Faz isto sentido? A equipa técnica do PNA, e bem, esteve envolvida na programação museológica do novo espaço, que depois, sem grande sentido nem coerência, será gerido por uma outra entidade, de cariz local?


Em conversa sobre o assunto com o meu muito estimado João Neto, director do Museu da Farmácia e presidente da APOM-Associação Portuguesa de Museologia, foi dito pelo próprio (estou devidamente autorizado a citá-lo), com o sentido de humor que lhe é característico, que a situação mais se assemelha a Hong Kong, um país dois sistemas!


A Ajuda merece mais. Mais rigor, mais coerência, mais bom senso, mais luz (poeticamente podemos dizer que brilha per si, o que não deixa de ser verdade, embora pragmaticamente não chegue), e menos interrogações, menos sombras, menos egos. Merece também uma valorização mais consequente e mais meios que permitam o exercício de toda a sua missão cultural. Importa acabar a Ajuda e não acabar com a Ajuda.


Palácio Nacional da Ajuda. Escadaria Nobre, "A Monarquia Lusitana", de Noberto José Ribeiro.

#OPINIÃO #ANDRÉDESOUREDORES