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Activação do Património


«(…) o armário cheio de loiça luzidia da Vista Alegre, o simpático e bojudo pote d’agua, o velho piano mal firme nos seus três pés torneados, o paliteiro tão querido de todos (…)» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

A Vista Alegre faz parte da memória colectiva dos portugueses e será muito provavelmente uma das marcas mais conhecidas de Portugal. Localizada perto de Ílhavo, na Quinta da Ermida, antiga propriedade de D. Manuel de Moura Manoel (bispo de Miranda, inquisidor-mor e reitor da Universidade de Coimbra) esta foi a primeira unidade fabril de porcelana em Portugal e é a mais antiga da Península Ibérica, sendo hoje um dos seis maiores grupos deste sector.

Inicialmente a fábrica dedicava-se à produção de vidro e cerâmica mas em 1880 passa a dedicar-se exclusivamente à produção de porcelana - o vidro voltaria a entrar na vida da empresa mas numa fase posterior, em 2001, com a fusão com o grupo Atlantis.

O espírito inovador de Augusto Ferreira Pinto Basto, filho do fundador José Ferreira Pinto Basto, impulsionou o foco da empresa na pasta de porcelana. Augusto visitou a Manufacture Nationale de Sèvres, fábrica perto de Paris que começou a laborar em 1756 e que era dirigida por Alexandre Brongiart. Esta visita teve um propósito técnico muito bem definido: conhecer melhor os processos de produção para aperfeiçoar a qualidade da sua pasta e vidrados.

A Vista Alegre contratou mestres estrangeiros para trazer o seu conhecimento para a fábrica, dando formação à mão-de-obra local que ficou altamente especializada na produção da pasta de porcelana e sua decoração. Um dos mestres estrangeiros que mais marcou a empresa foi Victor Rousseau, desenhador e pintor francês que fundou a escola de pintura e formou gerações de pintores, aliando a arte à pintura cerâmica. Esta relação com artistas, nacionais e internacionais, esteve sempre presente no ADN da marca: Leitão de Barros, Raul Lino, João Cazaux ou mais recentemente Christian Lacroix, Graça Morais, Joana Vasconcelos, Marcel Wanders, Óscar de la Renta e Siza Vieira são apenas alguns dos exemplos.

O museu nasce em 1964 para contar a história da marca e o percurso expositivo leva-nos a conhecer os seus já quase dois séculos de existência. Somos convidados a conhecer a evolução histórica da porcelana e as peças representativas da produção desde a fundação da fábrica até aos dias de hoje, sem negligenciar a sua componente social e as principais figuras da fábrica.

Nas exposições temporárias, há sempre um tema interessante para conhecer. Por exemplo, e até ao final de Março, está patente a exposição “O fascínio da matéria – como se faz a porcelana”. Quando visitei o museu, em Novembro de 2017, tive o privilégio de ver a exposição “Fazer Sentido” com curadoria de Madina Ziganshina que tinha ali um dos seus 5 núcleos onde se apresentavam trabalhos de Alberto Vieira, Angela Beth Conte, Marion Jones, Sílvia Vale.

Além disso, as actividades educativas fazem as delícias de pequenos e graúdos. O difícil será escolher entre a oficina “Feito por si”, de pintura e de olaria. Os participantes têm que pôr a mão na pasta e depois podem levar para casa a sua obra de arte (nalguns casos têm que esperar alguns dias para que a sua peça seja cozida). Para além destas actividades, há também várias visitas guiadas como por exemplo “O Bairro Operário, Onde eu Nasci”, viagem ao passado contada na primeira pessoa que como podem imaginar é uma experiência única que nos leva a viajar no tempo.

É importante destacar o espírito inovador do fundador da Vista Alegre que muitos consideraram bastante arrojado para a época e que teve implicações profundas no desenvolvimento da fábrica com vista à valorização dos seus recursos humanos. Já referi aqui a formação especializada mas é importante contextualizar que, ao mesmo tempo que se inicia a construção da unidade fabril, começa também a ser construído o Bairro Operário que para além das habitações dos trabalhadores incluía uma creche, um refeitório, um teatro e até uma corporação de bombeiros.

O nosso olhar contemporâneo poderá tender a desvalorizar este carácter de inovação social mas convém lembrar o contexto de 1824: o mundo vivia a primeira fase da Revolução Industrial e em Portugal estávamos numa Monarquia Constitucional. Além disso, o 1º de Maio tal como o conhecemos não só não existia como os acontecimentos que lhe tinham dado origem ainda não tinham acontecido (refiro-me à revolta de Haymarket em Chicago, 1886).

Por todas estas razões, se ainda não visitaram o Museu da Vista Alegre, façam-no. Se já o fizeram, repitam a visita! Há sempre algo novo para descobrir. É um excelente programa para um fim-de-semana em família. Para além da Fábrica e Museu da Vista Alegre poderão visitar também o Museu Marítimo de Ílhavo (edifício premiado da autoria dos ARX, atelier dos irmãos Aires Mateus), usufruir das inúmeras actividades da ria (windsurf, kitesurf, passeios de barco) ou, simplesmente, passear pelas praias e gafanhas da região – isto para não referir as iguarias gastronómicas locais ou a vizinha cidade de Aveiro. De que estão à espera? 😊

Exposição "Fazer Sentido". Imagem de Patrícia Valinho.

Exposição "Fazer Sentido". Imagem de Patrícia Valinho.

Exposição "Fazer Sentido". Imagem de Patrícia Valinho.

Museu Vista Alegre.

Museu Vista Alegre.

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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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