BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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A actualidade do património cultural em Portugal

Um projecto

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À “luz” do Passado


Em 1899, a Rainha D. Amélia mandou iniciar as escavações arqueológicas no sítio de Conimbriga, mas foi a partir de 1930 que essas escavações foram complementadas e aprofundadas, de tal modo que acabaram por revelar vestígios de uma cidade do período Romano. Daqui resultaram as famosas, mesmo além-fronteiras, Ruínas de Conimbriga.

Um qualquer visitante deste espaço ao deparar-se com todo o cenário de edifícios em ruínas, pavimentos degradados ou colunas danificadas, acaba por inevitavelmente ser transportado numa viagem no tempo, onde tenta recriar todo o ambiente urbanístico, social e arquitetónico daquela época. Dada a distinta capacidade de abstração de cada ser humano, ainda que fundamentada com desenhos e maquetas, essa tarefa de recriação imaginária estará sempre repleta de imprecisões próprias da interpretação individual de cada um.

Este trabalho de reconstrução virtual teve por finalidade possibilitar a qualquer pessoa visualizar os frescos e mosaicos outrora existentes num dos locais mais emblemáticos destas fantásticas ruínas, a Casa dos Repuxos (figura1), e mais em particular na “Sala da Caçada”, pois era a única que, além de um mosaico intacto e em excelente estado de conservação, ainda apresenta vestígios de alguns dos frescos pintados nas paredes (www.conimbriga.pt/portugues/ruinas10.html).

Figura 1

Neste tipo de tipo de recriações virtuais o rigor histórico e científico é, por vezes, negligenciado em favor da geração de imagens mais apelativas visualmente. Tal acontece porque nem sempre são tidas em consideração as condições de iluminação existentes na época a retratar.

Nesse sentido, foi reconstruída com a ajuda dos especialistas, uma lucerna Romana o mais fidedigna possível em termos de materiais usados na época, nomeadamente, lucernas em argila, azeite puro sem aditivos como combustível, pavios em linho e algodão e sal igualmente puro (dado que as referências bibliográficas nos indicavam que os Romanos adicionavam sal ao combustível). Posteriormente, e com vista a simular virtualmente a iluminação Romana no cenário recriado, foi medida a sua intensidade luminosa (radiância) usando um espetro-radiómetro (figura 2).

Figura 2

Das várias experiências com diferentes configurações efetuadas, o gráfico apresentado na figura 3 ilustra duas dessas configurações, amostra de azeite simples como combustível (S1) e uma outra onde o combustível usado provinha da mesma amostra de azeite, mas com adição de sal, tal como os Romanos faziam (S1-S).

Figura 3

Como é facilmente percetível, o simples ato de adicionar sal ao combustível (azeite), potenciou (em determinadas zonas do espetro eletromagnético) um aumento na intensidade luminosa na ordem dos 60%, o que comprova a astúcia desta civilização, que é uma das bases da nossa sociedade.

Com esta informação, associada ao detalhado modelo geométrico da sala e tratamento digital das texturas a usar (mosaico e frescos), estão finalmente reunidas as condições para gerar os modelos virtuais. Para este fim, foi usado um novo paradigma da visualização, o High Dynamic Range (HDR), que visa a geração de imagens cujo conteúdo visual seja o mais próximo possível do captado pelo sistema visual humano. Desse modo, a fidelidade visual apresentada pelo HDR permite-nos ter uma real perceção de como, aos olhos de um qualquer habitante daquela casa de elevado estrato social, aqueles frescos e mosaico seriam contemplados, algo impossível de aquilatar nos dias de hoje.

As figuras seguintes, geradas por um software que simula o processo físico da propagação da luz, são ilustrativas de todo o processo descrito anteriormente, onde é possível contemplar as imagens virtuais da “Sala da Caçada” da Casa dos Repuxos de Conimbriga, com diferentes configurações de colocação das lucernas Romanas em candelabros ou diretamente no chão, tal como sugerido pelos especialistas.

Um dos aspetos mais interessantes neste tipo de trabalho é a possibilidade de efetuar comparações diretas entre o espaço em ruínas e a sua réplica virtualmente reconstruída. Alguns exemplos são apresentados nas figuras seguintes.

Por fim, foi igualmente explorada a possibilidade da perceção que temos nos dias de hoje dos artefactos em questão, nomeadamente a perceção dos frescos e do mosaico ser diferente daquela existente à época. Para tal, foram efetuadas novas simulações virtuais do mesmo cenário, mas neste caso, usando uma luz clara como método de iluminação.

Como é claramente percetível a envolvência visual é consideravelmente diferente, proporcionando inclusive resultados surpreendentes. Nas figuras seguintes, é claramente percetível que quando houve uma alteração do método de iluminação, a tonalidade cromática das circunferências do mosaico é diferente.

São resultados como este que motivam e legitimam a realização deste tipo de trabalhos, pois a interpretação, seja religiosa, cultural ou arquitetónica do cenário recriado, pode ser consideravelmente diferente daquela que temos ao visitar um qualquer espaço do nosso rico legado cultural.

Alexandrino Gonçalves é Professor Adjunto e Investigador em Engenharia Informática no Instituto Politécnico de Leiria. Grande parte da sua investigação incide na área da Herança Cultural, na qual realizou o Doutoramento, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro em parceria com a Universidade de Warwick (Reino Unido), e Mestrado na Universidade de Coimbra. Em resultado desses trabalhos de investigação tem obtido enorme reconhecimento nacional e internacional na área, nomeadamente: um dos seus trabalhos foi apresentado na revista New Scientist; é co-autor, com outros cinco reputados investigadores internacionais, de um State of the Art Report em “Illuminating the Past”; já foi galardoado com alguns prémios; já proferiu, por convite, diversas comunicações orais em conferências nacionais e internacionais; possui cerca de duas dezenas de artigos em conferências e revistas.

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