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PorquĂȘ Desenhar?

  • 17 de mai. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 18 de mai. de 2022



MĂĄrio Linhares*


Desvendo desde jĂĄ a conclusĂŁo deste texto. Desenha-se porque sim, mas tambĂ©m se desenha porque nĂŁo. É isso mesmo, um aparente paradoxo
Por vezes Ă© o impulso que nos faz tirar a caneta, ou outro riscador qualquer, e desenhar compulsivamente como se de uma sede insaciĂĄvel se tratasse. O americano Alan E. Cober falava desta compulsĂŁo como algo impossĂ­vel de conter. NĂŁo por se tratar de uma força descontrolada, mas porque desenhar desempenhava um papel importante demais na sua vida para ser suprimido. Mas nem sĂł de impulso vive o desenho. Dos textos que chegaram atĂ© nĂłs, e que referem a sua origem, pode depreender-se que ele tem uma utilidade. Conta PlĂ­nio, o historiador romano, no seu texto “HistĂłria natural”, que a filha de um oleiro traçou uma linha em redor da sombra projetada do rosto do jovem por quem estava apaixonada. Isto com o auxĂ­lio de uma lanterna para projetar a luze antes dele partir para o estrangeiro, supostamente para a guerra. Do tanto que se pode retirar deste brevĂ­ssimo texto de PlĂ­nio, ocorrem-me duas situaçÔes. A primeira Ă© referida, e muito bem, por MĂĄrio Bismarck no seu texto “Contornando a origem do Desenho”, quando lembra que nĂŁo hĂĄ referĂȘncia aos instrumentos utilizados. Parece ser mais importante o ato de desenhar e a utilidade de preservar o perfil daquele jovem amado do que propriamente fazĂȘ-lo com um material particular. A segunda Ă© a relação direta desta histĂłria de PlĂ­nio com o trabalho da Lourdes Castro. Os desenhos em sombra que ela nos deixou alcançam um outro territĂłrio interpretativo. AlĂ©m de preservarem, evocam. Despertam memĂłrias. Ao sintetizarem, permitem a multiplicação de imaginĂĄrios. SĂŁo bidimensionais, mas sugerem-nos volume. SĂŁo e nĂŁo sĂŁo. E, por isso, sĂŁo mesmo. Se o texto de PlĂ­nio, datado do sĂ©culo I, nĂŁo nos dĂĄ respostas que clarifiquem o possĂ­vel paradoxo do desenho, podemos sempre recuar mais atrĂĄs no tempo e olhar os sulcos gravados nas rochas do vale do CĂŽa hĂĄ mais de vinte mil anos. A razĂŁo pela qual foram feitos continuarĂĄ a ser motivo de interpretação insolĂșvel e, mais uma vez, o que se discute nĂŁo Ă© como foram feitos, mas por que razĂŁo aquele lugar reĂșne tantas gravuras rupestres. NĂŁo sĂŁo desenhos numa folha de papel, mas em pedra. Porque vamos lĂĄ vĂȘ-los hoje? Diria que pelo espanto. O pasmar de olhar de frente para um ato feito hĂĄ vinte milĂ©nios atrĂĄs. O silĂȘncio que se impĂ”e ao olhar uma rocha lisa sem um Ășnico traço e, mesmo ao lado, uma outra com vĂĄrios desenhos sobrepostos. A consternação de nĂŁo termos uma ciĂȘncia que nos dĂȘ uma resposta exata para aqueles desenhos. A maravilha de sairmos de lĂĄ com mais perguntas que respostas.

NĂŁo serĂĄ insensatez dizer que se desenha com um propĂłsito, mas tambĂ©m nĂŁo Ă© ousado dizer que se desenha sem nenhuma razĂŁo em particular. O JosĂ© Tolentino Mendonça, quando ainda nĂŁo era cardeal, escreveu um texto muito bonito sobre o Elogio da Inutilidade. Refere que sĂł numa entrega silenciosa e sem porquĂȘs, tal como acontece com uma criança entretida com um brinquedo (ele usa uma expressĂŁo mais bonita: “a entrega que uma criança oferece a um brinquedo”), Ă© que se consegue entender a importĂąncia do inĂștil, jĂĄ que Ă© aĂ­, diz ele, “que a polifonia da vida se liberta”. Desenha-se por muitas razĂ”es, mas talvez as mais interessantes sejam as do tempo que dura o ato de desenhar. No momento em que o papel começa a ser tapado com riscos e manchas, Ă© todo o nosso ser que o trabalha. NĂŁo apenas as mĂŁos e o olhar, mas tambĂ©m os filmes que vimos, os artistas que nos impressionaram, a mĂșsica que ouvimos, a Ășltima conversa entusiasmante, as notĂ­cias que revoltam, as referĂȘncias visuais contemporĂąneas em conjunto com as antigas. Para uns Ă© uma luta contra o papel na primeira meia hora, para outros Ă© exaustĂŁo depois desse momento. Termino como se calhar deveria ter começado, com uma breve e pacĂ­fica introdução ao desenho do patrimĂłnio. Desenhar para preservar e fazer memĂłria. Assim fez John Ruskin em Veneza. Assim fez Adela Breton no MĂ©xico. Assim fez o Lapin no bairro Pobleneu, em Barcelona. Assim fez a Simonetta Capecchi um pouco por toda a ItĂĄlia, Assim fez um grupo dos Urban Sketchers da China ao desenhar patrimĂłnio industrial abandonado. Assim faz todos os anos, e muito bem, a Direção-Geral do PatrimĂłnio Cultural, em parceria com os Urban Sketchers Portugal, possibilitando que o desenho aconteça democratizado na sociedade, incentivado para todos, sem galerias de arte ou pretensiosismos, mas com uma intencionalidade: desenhar. No limite, ao desenhar “aumentamos o mundo”, como refere Pedro Janeiro. Oferecermos-lhe algo novo a partir do nosso olhar. E isso basta. NĂŁo necessariamente para alguĂ©m ver, mas para entendermos melhor o mundo em que vivemos.


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MĂĄrio Linhares estudou na AntĂłnio Arroio, licenciou-se em Design PaisagĂ­stico (IPVC) e depois em Design de Equipamento (FBAUL). Trabalhou nessas ĂĄreas, mas rapidamente a sua paixĂŁo de infĂąncia falou mais alto e dedicou-se ao Desenho. Mestre em Ensino das Artes Visuais (IE-UL), estĂĄ a terminar o Doutoramento em Desenho na FBAUL. Desenha compulsivamente e idealiza, sem parar, projetos artĂ­sticos e humanitĂĄrios. É casado, tem um filho, gosta de andar a pĂ© e de bicicleta e de conversar com os amigos. Professor, co-fundador dos Urban Sketchers Portugal, foi diretor de educação dos USk e lidera atualmente vĂĄrios projetos artĂ­sticos e sociais como os 5 Minutos de Desenho, as USkTalks, a Sketch Tour Portugal Reload, ou o Zambujal 360.


Co-autor do livro DiĂĄrio de Viagem | Costa do Marfim, premiado em França, contribui com desenhos para diferentes livros, exposiçÔes, palestras ou conferĂȘncias em Portugal e no estrangeiro. Viajar, sonhar e desenhar Ă© o que mais gosta de fazer.


O autor utiliza o Acordo OrtogrĂĄfico.


 
 
 
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