"O Dia Internacional dos Museus, em tempos de aquinhoamento" Luís Raposo
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Luís Raposo
arqueólogo
Propõe-nos o Conselho Internacional dos Museus (ICOM) que celebremos este ano o Dia Internacional dos Museus (DIM) debaixo do mote “Os museus unem um mundo dividido” (na fig. 1 a versão portuguesa do cartaz, elaborada pela Comissão nacional do ICOM). A escolha, feita há dois anos, não teve directamente a ver com o tempo que se atravessa, de guerras e potencial desordem mundial, mas nada de mais oportuno, dir-se-á. Acresce que se celebra neste ano o octogésimo aniversário da criação do ICOM, Organização Não Governamental do sistema das Nações Unidas, considerado pela sua Agência Especializada para a Cultura, a UNESCO, como “a voz” dos profissionais dos museus e dos museus de todo o mundo, em todas matérias, conceptuais e práticas, nomeadamente na definição das políticas públicas e privadas do sector.

(fig. 1)
Informa o ICOM que “o tema destaca o papel fundamental que os museus desempenham como pontes entre as divisões culturais, sociais e geopolíticas, promovendo o diálogo, a compreensão, a inclusão e a paz dentro e entre comunidades de todo o mundo. Como espaços públicos fiáveis e locais de aprendizagem, os museus contribuem para a coexistência pacífica e para o respeito mútuo. Em tempos marcados pela fragmentação social, pela polarização e pelo acesso desigual ao conhecimento e à cultura, os museus ajudam a reconstruir as ligações entre gerações, comunidades e fronteiras. Criam ambientes onde histórias, objetos e pessoas se encontram, oferecendo oportunidades de reflexão, troca e compreensão partilhada.”. E acrescenta ainda que “Museus Unindo um Mundo Dividido sublinha o potencial dos museus para sustentar o diálogo respeitoso sem apagar as diferenças. Ao salvaguardar o património e a memória, ao proporcionar espaços de aprendizagem e reflexão e ao amplificar diversas vozes, os museus ajudam as sociedades a lidar com a complexidade de forma construtiva. Abertos e acessíveis a todos, os museus promovem a diversidade, a sustentabilidade e a coesão social.”
Mais se esclarece que em 2026 “o tema irá também orientar as comemorações do 80º aniversário do ICOM ao longo do ano, reafirmando o compromisso de longa data da organização em fortalecer a comunidade museológica global e promover o seu papel social.” E referem-se, como tem sido feito de 2020, os cruzamentos com os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas” (fig. 2), a saber:
ODS 10: Redução das Desigualdades – Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles
ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes – Promover sociedades justas, pacíficas e inclusivas
ODS 17: Parcerias para os Objectivos – Revitalizar as parcerias globais para o desenvolvimento sustentável

(fig. 2)
Como se disse antes, trata-se de um tema especialmente actual. Mas não nos iludamos, pensando que foi a primeira vez que o DIM foi dedicado e este tipo de enfoque. Em 2005 por exemplo, faz agora pouco mais de duas décadas, o mote do DIM foi “Museus, pontes entre culturas”, tendo sido celebrado com grande intensidade no nosso País, que tinha ainda de fresco as vagas das primeiras imigrações de povos eslavos, aos quais se juntavam comunidades de longa sedimentação, como a africana ou a brasileira. No Museu Nacional de Arqueologia, por exemplo, que então dirigíamos e onde promovemos actividades diversas de acolhimento desses imigrantes (desde sessões de informação até festas diversas, incluindo de casamento, quando solicitados), realizámos um programa festivo muito participado (fig. 3).

(fig. 3)
Vale, pois, a pena observar o DIM em toda a extensão, para nele procurar os temas mais recorrentes, que o mesmo e dizer, as principais objectivos e preocupações dos museus e dos profissionais dos museus que os adoptaram.
Recordemos antes do mais a história do DIM. Criado em 1977, apenas começou a ter um tema anual desde 1992. O sucesso alcançado foi tal que há precisamente uma década foi criado um instrumento que se tem revelado de grande interesse para o conhecimento e partilha desse sucesso: o chamado “Mapa Interactivo” (fig. 4), alojado na plataforma internética do ICOM, onde qualquer promotor de programas deste âmbito os pode registar. No ano passado, a participação global no traduziu-se nos seguintes expressivos números: mais de 1.700 actividades, em cerca de 90 países (em Portugal, cerca de 300 iniciativas registadas em 2025). Mas se tivermos em conta o acumulado histórico, pode dizer-se que o DIM já atingiu mais 37.000 museus em cerca de 158 países e territórios.

(fig. 4)
Faz por estes dias um ano, escrevi texto no jornal Público que intitulei “O futuro dos museus em face dos males do nosso tempo” (18 de Maio de 2025, https://www.publico.pt/2025/05/18/culturaipsilon/opiniao/futuro-museus-face-males-tempo-2133414.
Utilizava então o Dia Internacional dos Museus (DIM) como motivo próximo de reflexão e regresso agora ao assunto, seguindo de parto aquele testo, mas com com outra base documental e também cm os elementos novos que o último ano infelizmente nos trouxe.
Pretende-se pela via do estabelecimento de um tema anual focar as celebrações de modo a delas tirar maior proveito reflexivo sobre matérias especialmente candentes, em que se possam juntar as preocupações de todos os que se declaram interessados nos museus: os seus utilizadores, os seus amigos, os seus estudiosos e, enfim, os seus profissionais.
Mas nenhum destes segmentos é monolítico, bem pelo contrário. Os utilizadores incluem obviamente os visitantes, mas estão muito para além deles, abarcando investigadores das colecções, estudantes, educadores, editores e autores, divulgadores, etc., etc. quaisquer deles individualmente ou em grupos de natureza muito variável, desde associações recreativas e excursionistas, clubes de estudo ou centros culturais até… até comunidades de vizinhança ou de partilha identitária, povos e países inteiros. Os amigos, podem ser simples “amantes de museus” ou associações formalmente constituídas e mesmo reunidas em federações nacionais (como a FAMP, Federação de Amigos dos Museus de Portugal) ou internacionais (Federação Mundial dos Amigos dos Museus). Os estudiosos, podem ser investigadores que olham os museus “de fora”, frequentemente na esfera universitária e no âmbito daquilo que se podem designar por “estudos sobre museus” (chamando-se a si mesmos de “museólogos”), ou podem ser historiadores, sociólogos, antropólogos, geólogos, etc., etc., enfim, especialistas de quaisquer domínios que forneçam colecções ou que, nas suas competências próprias, se interessem pelo funcionamento e missão social dos museus. Os profissionais de museus, finalmente, são aqueles que vivem “por dentro” os museus, neles passando grande parte de suas vidas, dia após dia, ano após ano, de manhã ao sol pôr. Segundo o ICOM e para além dos professores e investigadores de “museologia”, podem ainda ser profissionais os que trabalham para museus em regimes de aquisições de serviços, desde que consigam demonstrar, curricular ou documentalmente, que deles retiram a maior parte do seu rendimento anual.
Como se compreende, uma tal diversidade de interesses torna por vezes difícil escolher o tema do DIM. E tanto neste caso como noutros (a definição de museu ou o Código Deontológico, actualmente em revisão) ocorrem tensões entre os mais seduzidos pelas agendas, por vezes obsessões, de cada tempo e os que entendem privilegiar aquilo que os públicos comuns querem dos museus e o que a sociedade e os povos deles esperam no longo prazo. A lista dos temas dos DIM constitui por si mesmo testemunho destas tensões e destas tentativas de equilíbrios.
Atente-se neste quadro (fig. 5):

(fig. 5)
Como se verifica é grande a diversidade. Nas intenções subjacentes, aproxima-se mais da repartição entre pessoas e grupos que se sentem ungidos ou legatários de diferentes herdanças, todas existentes nos museus, umas tidas por mais “passadistas” ou tradicionais (como se “tradere”, não seja tudo o que se entende trazer até ao presente, contendo por consequência tanto de passado como de presente), outras por “contemporâneas”, quiçá futuristas. Vista nesta óptica de combate, explicito ou surdo, entre heranças, a diversidade indicada aproxima-se mais do conceito de aquinhoamento, de repartição, de quinhão e de entrincheiramento.
Mesmo correndo o risco de contraditório, porque numerosos temas possuem semânticas e conotações plurais, podendo ser observado debaixo de diferentes ópticas e categorias de análise, ensaiemos, todavia, algum tipo de sistematização. O gráfico a seguir aponta nesse sentido, apresentado a leitura que fazemos dos ditos temas (fig. 6):

(fig. 6)
Segue-se aqui a seguinte categorização, certamente discutível, como se disse:
1. Funções e problemáticas tradicionais, incluindo aqui:
a. Funções museológicas tradicionais
b. Serviço das colecções (conservação e restauro)
c. Problemática e centralidade da Investigação
d. Combate ao tráfico de antiguidades
2. Acção social dos museus, incluindo aqui:
a. Acção social em sentido estrito, nomeadamente juntos públicos ou audiências em geral
b. Acção política, nomeadamente em matéria influência das políticas de museus e de cultura
c. Acção estritamente comunitária
d. Acção “decolonial”
3. Projecções de futuro
4. Crise climática
As votações ocorridas para os temas dos dois anos próximos, que já estão fixados, confirmam-no eloquentemente. Assim, para 2026, os três temas alternativos propostos e as respectivas votações foram as seguintes: Museus unem um mundo dividido (59%, tema adoptado), Amplificando o património indígena (17%), O poder da juventude na ‘década da acção’ (20%). Para 2027: Desbloqueando os terceiros espaços (8%), Comunidades e co-criação (38%), Museus como fonte de inovação e mudança (50%, tema adoptado).
Como se vê os temas mais “activistas” foram preteridos. Não porque não tivessem mérito em si mesmos (alguns já foram de certo modo adoptados muito antes, por exemplo, "Museus e povos indígenas", em 1993). Mas por duas razões muito simples, que por serem simples são por vezes difíceis de entender por gente complicada, dita intelectual amiúde – alguns desenvolvendo a tese patusca de se dizerem “anti-poder” e “anti-museus” para afinal aceitarem ser capturados por programas de financiamento do poder e insistirem em usar o termo museu. A primeira porque aquilo que verdadeiramente constitui a plataforma de agregação de todo o universo de pessoas que olham os museus ou neles trabalham são as suas funções sociais mais básicas, desde logo a da conservação das colecções: daqui a 50 ou 100 anos, os nossos vindouros irão sobretudo avaliar o nosso desempenho pela capacidade que tenhamos de lhes permitir desfrutar daquilo que também hoje usufruímos e que, pelo nosso lado, recebemos de nossos avoengos.
A segunda e mais decisiva tem a ver com a confiança nos museus. Um inquérito feito pela Aliança Americana de Museus (AAM) há quatro anos revela o elevado apreço pelos museus, antes dos actuais desmandos cripto-fascistas do trumpismo (sobre estes demandos veja-se a tomada de posição conjunta dos presidentes da AAM, da EveryLibrary e da Liga dos Mulheres Votantes dos EUA, na Newsweek de 18 de Abril passado). Eles constituem, a seguir à família, a instituição social que merece maior confiança. Seguem-se os cientistas, as ONG em geral, os órgãos de informação locais, depois os nacionais e só no fim da tabela o governo federal, as empresas e as redes sociais. Mas quando perguntados pela razão de tal confiança as respostas podem a alguns parecer desconcertantes: “orientados por factos”, “baseados em objectos reais”, “guiados pela investigação”, “transmissores de informação objectiva”, “neutros, não partidários” são as qualidades mais apreciadas. Partilharem “pontos de vista múltiplos”, por exemplo, surge no fim da tabela. Mais: a “neutralidade” é apreciada por todos os segmentos de público, sejam conservadores ou “liberais”, jovens ou velhos, homens ou mulheres – o que nos deve fazer reflectir sobre como chegámos onde chegámos.
O “onde chegámos” é a proliferação de populismos tão primários que julgaríamos definitivamente enterrados, mas redivivem talvez em parte como reacção a desligamentos da realidade como tipicamente são a maior parte das agendas do “estar acordado”, ou “wokismo”, à maneira americana. Ora, o combate ao populismo reaccionário tem de ser feito a partir da realidade e não contra ela. No caso dos museus, tal significa defender a manutenção, e até reforço, das suas funções de guardiões de memórias, através de colecções, promovendo visões racionais do mundo, que tenderão a ser tão “neutrais” ou “objectivas” quanto a ciência e a informação factual o podem ser. Não tem aqui cabimento repetir em assomos pueris que a “neutralidade” não existe, porque não vivemos de absolutos e ela de facto não existe (assim nos construímos em Portugal, por exemplo, clamando que “tudo é político”, mesmo quando se afirma o contrário)… como, veja-se lá a “contradição”, existe também, porque entre “verdadeiro” e “falso” nem tudo são “pontos de vista”: a chuva molha, mesmo os tolos, a pedra cai e magoa, mesmo os néscios, e o bom-senso filtrado pela racionalidade cartesiana existe e dá sentido prático à vida, mesmo aos mais “acordados”.
Esta postura simples e anti-dogmática afasta-nos, e afasta os museus, tanto dos populismos reaccionários como dos “activismos” epidérmicos. Pois. Mas vai ao encontro das pessoas comuns, povos e comunidades, que são quem afinal garantirá o futuro desses pontos de encontro em que confiamos, porque neles objectos, ideias e espaço público convergem, aprendemos “factos” e tudo isso nos faz ficarmos verdadeiramente mais acordados e sobretudo nos dá maior qualidade de vida.
_______ 18 Maio 2026











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