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Livro "Viagem ao Património Português"



«O património é aquilo que herdamos dos nossos antepassados, que é transmitido entre gerações e que as pessoas reconhecem como parte da sua história e da sua cultura.»

Da arte chocalheira de Alcáçovas à arte rupestre de Foz Côa, da dieta mediterrânica ao fado, o património português distinguido pela UNESCO é retratado num livro ilustrado dirigido a crianças.


“Viagem ao Património Português”, da autoria de Rita Jerónimo (texto) e Alberto Faria (ilustrações), foi originalmente publicado em Setembro de 2018 - Ano Europeu do Património Cultural e terá em breve uma segunda edição.


A patrimonio.pt conversou com Rita Jerónimo para saber mais sobre este trabalho.


A sua carreira profissional tem passado por várias experiências na área do património. O interesse pelo património surgiu durante a infância?

Quando eu era criança, durante as viagens em família, o meu pai fazia questão de nos dar a conhecer os monumentos, igrejas, sítios arqueológicos… e de nos contar a sua história (ele foi, aliás, a minha inspiração para a construção do “avô Zé”, uma das personagens do livro), mas, na verdade, não sei se o meu interesse terá começado aí…


A “Viagem ao Património Português” é o primeiro livro destinado ao público mais jovem. Como surgiu esta ideia?

Este livro surge de um desafio que me é lançado pela editora 20│20, uma vez que pretendia assinalar o “ano europeu do património cultural” com uma edição para crianças sobre esta temática. Como sabia que eu aliava o interesse profissional pelo património ao gosto por escrever para crianças, era a conjugação ideal. A verdade é que há muito poucas edições para crianças e jovens sobre património cultural, a nossa opção nesta obra foi destacar o património cultural (monumental, natural e imaterial) integrado nas listas da UNESCO.


Quer falar-nos um pouco sobre a obra e o processo criativo?

A ideia que subjaz a este livro é dar a conhecer aos mais novos o património português, chamar a atenção para algumas questões levantadas pelo tema do património e fomentar a descoberta do património em família. Mas para o fazer, foi preciso estabelecer critérios claros pois, como sabemos, o património, por dizer respeito elementos que têm significado para os grupos, é um tema sensível. A opção por centrarmos a história nos vários “patrimónios” portugueses inscritos nas três listas da UNESCO pareceu-nos a mais cordata.

Com este ponto de partida foi construída a história da viagem dos avós Alice e Zé e dos seus netos Sara e Tomás.


As personagens, avós e netos, não terão surgido por acaso…

Como já referi, há nas personagens alguma inspiração no meu contexto familiar. Por outro lado, pareceu-me interessante que, uma vez que o património se caracteriza por ser «aquilo que herdamos dos nossos antepassados, que é transmitido entre gerações e que as pessoas reconhecem como parte da sua história e da sua cultura», a história se centrasse num momento de transmissão de memória entre gerações.


Através da sua obra, os mais novos também conseguem compreender que o património não se resume a monumentos - que nem sempre cativam o público infantil…

O livro vale pelo conjunto, e um dos seus méritos é, a meu ver, juntar diferentes tipos de património, o que habitualmente não acontece. Os monumentos mais emblemáticos, como os Mosteiros dos Jerónimos ou a Torre de Belém são imediatamente identificados, mas é muito interessante perceber a curiosidade relativamente a outros elementos patrimoniais menos conhecidos, nomeadamente as paisagens culturais do Douro vinhateiro e de Sintra, a dieta mediterrânica ou a falcoaria. Tratam-se de formas originais do Homem se relacionar e domesticar a natureza que, pelos conhecimentos que envolvem, são reconhecidas internacionalmente enquanto património cultural.


O “património cultural imaterial” - como o fado e o cante alentejano - e os conhecimentos relativos às actividades artesanais - como o fabrico de chocalhos em Alcáçovas, dos bonecos de Estremoz ou da louça preta em Bisalhães - nem sempre são entendidos como elementos do património, e são os que mais necessitam de atenção pois, muitas vezes, resistem apenas nas mãos de poucos e idosos artesãos, cujo saber poderá ser perdido depois destes desaparecerem. Realmente, hoje em dia, é preciso cativar os mais pequenos para estes temas através, nomeadamente da tecnologia. Vivemos numa época em que as crianças têm acesso ao conhecimento de forma imediata e fácil e que, por vezes, é necessário fazê-las parar, observar e fruir com tempo, o que para elas não é fácil.

No entanto, os monumentos “clássicos”, apesar de serem construídos em pedra, também contam histórias que podem ser muito interessantes para as crianças, desde que estejam despertas para elas. São exemplo disso a história dos soldados traidores que utilizavam uma porta secreta (Castelo dos Mouros em Sintra) ou a lenda da «Abóbada» registada por Alexandre Herculano e surgida no contexto da construção do Mosteiro da Batalha, só para citar alguns. A propósito dos monumentos é muito interessante tentar imaginar, com as crianças, as pessoas que ali viveram noutros tempos, como era a sua vida naquele mesmo local, sejam monges ou populações pré-históricas.


Nesta obra, trabalhou-se não apenas tema do património cultural em si, mas também a importância do papel activo da família na descoberta e valorização desse património. Que conselhos costuma dar aos seus filhos?

É verdade, a transmissão familiar e de valores, nomeadamente da importância da preservação do património, a promoção da descoberta do património em família, dos afectos e das relações inter-pessoais, a valorização dos mais velhos e do seu conhecimento, a divulgação da diversidade do território português e a importância história do país, estão subjacentes à obra e são algumas das ideias que procuro transmitir aos meus filhos.


Um livro destinado a crianças, para além de uma escrita apelativa, tem de ter um outro lado cativante: o das imagens. Como foi trabalhar com Alberto Faria?

Foi muito bom e fácil. O Alberto é um artista que captou, desde o primeiro momento, o espírito do texto, é, além disso, uma pessoa muito ponderada e aberta às ideias dos outros… e não digo isto por ser meu amigo.


O que gostaria de dizer às crianças que leram o seu livro?

Diria que tentassem ver este livro como um “três em um”. Que se divertissem com a história da viagem que os avós Alice e Zé fizeram com os seus netos, Sara e Tomás, pelo país, através do património cultural. Que aprendessem com as informações que o livro dá sobre os vários “patrimónios” portugueses inscritos nas três listas da UNESCO e com as questões levantadas pelo tema do património. E, uma vez que esta obra aponta um itinerário que pode ser replicado, diria para desafiarem os pais ou os avós a descobrir estes interessantes e originais elementos patrimoniais in loco, em família. E desejaria a todos uma excelente viagem!



Rita Jerónimo

Licenciada em Antropologia Social, com Mestrado em Antropologia: Património e Identidades pelo ISCTE.

Integrou as equipas das Exposições Fado, Vozes e Sombras no Museu Nacional de Etnologia e Pelos Campos de Idanha no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova.

Enquanto técnica no Sector de Património Cultural da Divisão de Cultura, da Câmara Municipal de Odivelas, actividade que desenvolveu desde 2000, elaborou o projecto do Núcleo Museológico da Escola Profissional Agrícola D. Dinis; desenvolveu a investigação que conduziu à publicação Escola Agrícola da Paiã. 1917 – 2017: 100 anos de história e memórias, lançada em 2017, e coordenou o projecto Museológico do Mosteiro de Odivelas.

Entre 2008 e 2010 esteve destacada na Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, onde integrou a equipa de levantamento do património imaterial da região de Lisboa e Vale do Tejo.

Encontra-se a desenvolver a tese de doutoramento em Antropologia, O Património Reinventado: processos de patrimonialização do imaterial em Portugal, cujo estudo de caso é a integração do Fado na Lista Representativa de Património Imaterial da UNESCO.

Escreveu o livro Viagem ao Património Português, uma obra dirigida ao publico infanto-juvenil sobre os elementos patrimoniais integrados nas três listas da UNESCO.

Actualmente, é assessora da Ministra da Cultura para os museus e o património imaterial.


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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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