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Aldeias, antes e depois do Covid: realidade ou ficção?



Durante os tempos dos recentes confinamentos, ouvimos muitas pessoas dizerem que foram fazê-los para a aldeia. Uns para casas, segundas habitações próprias, herdadas ou de familiares, outros para sítios alugados temporariamente nas terras recônditas. Os turismos rurais tiveram clientes, permanências longas. As famílias tornaram-se aldeãs… As crianças, e os adultos, viram ovelhas autênticas e ouviram os pássaros todos os dias, ao mesmo tempo que falavam e viam os amigos, embora estivessem dispersos, e ouviam os professores à distância nos seus computadores.


O teletrabalho, as aulas não presenciais, desde a infância até ao ensino superior, as reuniões realizadas nas plataformas que ligaram todo o mundo, transformaram a dimensão da geografia e reajustaram o tempo, muito dele antes consumido nas viagens e deslocações.


As aldeias tornaram-se sítios interessantes em 2020 e 2021. Foram redescobertas….


Há décadas, com o envelhecimento da população, aliado à ausência do estrato populacional ativo para gerar capital social, a urbanidade perdeu vitalidade nas aldeias portuguesas.


Encontramos justificações evidentes desde as décadas de 1960 e de 1970, quando a generalização do uso de petróleo vulgarizou o automóvel, o trator, a hidroeletricidade tornou-se prioritária, com consequentes crises de mão de obra nos campos por emigração e por oferta de trabalho nas obras de construção civil na cidade. Nessa altura, também a iluminação pública e a rede telefónica foram descuidadamente montadas nas aldeias, proliferando postes, fios e cabos aéreos. Pouca qualidade do serviço. O eucalipto, também apelidado como “petróleo verde”, cresceu na paisagem até à porta do aldeão. A melhoria de portas e janelas das habitações foi incentivada pela metalurgia do alumínio.


Nas décadas de 1980 e de 1990, foram surgindo intervenções desregradas de construção nas aldeias, apesar de terem surgido algumas infraestruturas de água e saneamento construídas pelos municípios, e generalizou-se a recolha regular de lixos domésticos.


Nas décadas de 2000 foi sentida alguma recuperação de casas nas aldeias, obras mínimas porque para uso temporário, por vezes só no verão, o que induziu, em alguns sítios, como moda, a construção de piscina privada, coberta com estrutura de alumínio durante o resto do ano, em muitos sítios só confundidas na paisagem com as resilientes estufas agrícolas.


Mas, neste início do século XXI, também se assistiu à aplicação de algumas medidas terapêuticas nas infraestruturas existentes, águas e saneamento, melhorando as condições para todos, mesmo para os que só tinham permanência temporária na aldeia, residentes de 2ª habitação.


Mas o Covid tornou-as refúgios, salientando o Índice de resiliência do território.


Aldeias de distintas geografias; aldeia com valores intrínsecos; com valores circunstanciais; com valores tangíveis; com valores intangíveis; aldeias em uso e em reuso.


Agora também foram úteis estas aldeias vulgares, aquelas que não mereceram programas especiais de intervenção, quantas vezes mera visão bucólica de aldeia e da sua paisagem…



As aldeias, depois do Covid, porque mais gente reconhece a importância da sua requalificação social e vulgariza a sua reutilização, podem merecer cuidados oportunos.


É indispensável alterar o suporte energético com aposta na energia eólica e fotovoltaica, fazendo-o de modo cuidado. É indispensável garantir os sistemas bluetooth, wireless, entre outros, que capacitem a permanência duradoura de nova população e de retorno de outros, mantendo-os ligados ao mundo. Parece possível garantir equilíbrio na recuperação do construído para habitação duradoura com aposta em projetos inteligentes, a custos controlados, com manifesta redução do consumo de água e de energia elétrica, apesar de garantir iluminação pública com qualidade.


Paralelamente à reabilitação inteligente, feita sem afirmações de “novo rico”, mas com harmonia ambiental e patrimonial, deverão ser desenvolvidas estratégias de programação de demolições, de curto e médio prazo, por forma a corrigir os malefícios que levaram à degradação das nossas aldeias.


Programas que privilegiem a relação entre o que se passa na aldeia e o que se passa fora e em torno dela.

O objetivo é conciliar o futuro com um passado, sempre com pessoas. Ao longo de décadas, quase não houve recuperação de aldeias para as pessoas, habitantes, autóctones.


Alexandre O’ Neill escreveu em 10 de abril de 1974:


Está tudo conformado

ao triste proprietário.

Mecânicas ovelhas,

na erva de plástico,

têm pastor de pilhas

e cão pré-fabricado.

Flores marginam esse

às peças-soltas prado.

Eléctricas abelhas,

obreiros sem contrato,

daquele herbário extraem

um mel supermercado.

A malhada, no estábulo,

quase manga de alpaca

(é a VACA sabias?),

dá leite engarrafado.

No céu (para colorir)

a nuvem. Pontual, aguarda a vez de ser

chovida no nabal,

enquanto o Sol dardeja

na eira proverbial.

Já tudo afeiçoado

ao bom proprietário

(ervas, bichos, moral),

ele conta com os seus

E espera sempre em Deus.


(...Deste corda ao pardal?)


Depois do Covid, a oportunidade está no investimento. As aldeias não servem só para o turismo, mas antes para o desenvolvimento de um sistema económico paralelo de génese não metropolitana, capaz de as rentabilizar inteligentemente. E, não há aldeias sem aldeões…


Impõe-se resgatar com autenticidade o passado, no que ele tem de qualidade, prova de maturidade, também o uso e reuso moderno das aldeias, construindo, em simultâneo, harmoniosamente, a Paisagem Cultural do século XXI.

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.

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