BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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A actualidade do património cultural em Portugal

Um projecto

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NEMO e os peixes fora de água?

Atualizado: 6 de Set de 2019


Terminado oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, iniciativa sobre a qual já escrevi neste espaço, há que prosseguir todo o esforço de preservação, valorização e divulgação do património cultural e das suas potencialidades. O Ano Europeu do Património Cultural é quando o Homem quiser. Ou melhor, para que não reste margem para outras interpretações, deve ser mesmo todos os dias, de todos os anos que se seguem. “Onde o passado encontra o futuro” foi o mote e deve ser uma prática perene.

Na sequência do conjunto de actividades particularmente intenso do Ano Europeu que mencionei, o Creative Europe, programa da União Europeia para apoio ao sector cultural e criativo, destacou uma iniciativa lançada o ano passado pela NEMO - Network of European Museum Organisations - fundada em 1992, conta com mais de trinta mil museus agregados, designada “Political Interships in Museums in Europe”. Consiste (espero que continue a consistir) na realização de estágios por parte de responsáveis políticos, extensíveis a funcionários públicos em geral, em museus.

Inspirado num programa similar da Associação Holandesa de Museus, neste caso concreto trata-se de membros do Parlamento Europeu, ou eurodeputados se preferirem (mas não só), integrarem temporariamente equipas de museus e experimentarem, com a orientação e a atitude necessárias, o desempenho de várias funções museológicas, desde lidar com as coleções, o serviço educativo e os públicos ou a loja. O objectivo é claro, transmitir aos políticos um conhecimento mais aprofundado do que é o trabalho museológico e da relevância cultural, social e económica de um museu.

Fora do ambiente a que estão habituados, fora da sua zona de conforto, como peixes fora de água, ou antes pelo contrário, como corte na sua rotina, poderão (e deverão) encará-lo como uma experiência aliciante e atractiva, poderão ter a oportunidade de vivenciar o trabalho museológico, tão exigente quanto diverso e enriquecedor, bem como as dificuldades e problemas que existem e que vão surgindo. Poderão vir a sentir-se, inclusivamente, como peixe na água, pudesse o estágio ser um pouco mais prolongado! E porque não?

O que está previsto neste momento são estágios de meio dia e cada político que seja convidado a integrar este programa poderá fazê-lo individualmente ou com alguns elementos da sua equipa. A escolha de cada participante para determinada instituição museológica não deve ser aleatória, deve ter em conta os interesses e o campo de intervenção do próprio deputado, autarca, ou outro decisor político.

Esperemos que as necessidades agucem o engenho e cresça a bom ritmo, com uma maior intensidade, a sensibilização dos responsáveis políticos para a importância dos museus e do património cultural em geral. Desde logo, ao ser introduzido o tema na agenda por ocasião das eleições europeias deste ano, mas também em muitos outros momentos da vida europeia e nacional, sejam eles eleitorais ou não.

A NEMO recomenda a sua generalização pelos museus e redes de museus pela Europa e criou um manual breve de planeamento de estágio de um político em museus, bem como um conjunto de perguntas frequentes. Ambos podem ser consultados em https://www.ne-mo.org/our-actions/advocacy/politicalinternships. A NEMO disponibiliza-se publicamente para mais informações e esclarecimentos através do office@ne-mo.org.

Posto isto, nos princípios e nos moldes creio ser uma iniciativa a divulgar e a aplicar com a regularidade possível a nível nacional, com a ressalva do tempo de estágio poder vir a ser, porventura, superior ao meio dia agora praticado nos museus que já acolheram estes estagiários políticos. Será, à partida, vantajoso para todos os envolvidos, desde os profissionais de museus e respectivas instituições, que passam melhor a sua mensagem, a sua relevância e as suas necessidades, até aos próprios titulares de funções políticas, que além de um dia diferente nas suas rotinas de trabalho, adquirem uma experiência enriquecedora, verão esta sua colaboração divulgada na comunicação e redes sociais, e conseguirão chegar à comunidade de uma forma mais aprofundada, mais abrangente e tomar as suas decisões, exercer a sua capacidade de influência com um pouco mais de conhecimento e informação.

Os museus devem ser uma causa nacional, europeia e mundial, são vitais para o desenvolvimento da sociedade, do cidadão, do indivíduo e merecem atenção equiparada a esse mesmo nível de importância, por parte de quem tem responsabilidades acrescidas e maior capacidade de mudar o curso, tantas vezes insatisfatório, das coisas bem como o estado da arte.

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