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Costa Sudoeste


Das praias com extenso areal às mais pequenas aninhadas entre arribas e rochas, algumas em estado quase selvagem, das falésias abruptas e muito recortadas, a que a erosão ao longo dos tempos deu várias formas e colorações, aos troços de arriba baixa, dos cordões dunares, dos cursos de água, das lagoas temporárias, às ilhotas e recifes, à ilha do Pessegueiro, ao estuário do Mira, ao cabo Sardão e ao promontório de Sagres... Dos xistos de Arrifana e Odeceixe aos calcários de Sagres... A inegável riqueza paisagística da Costa Sudoeste Alentejana conjuga valores naturais, geológicos e patrimoniais com uma elevada biodiversidade florística e faunística.

Com uma extensão na costa portuguesa de cerca de 110km, que engloba a zona entre o Alentejo e o Algarve, de São Torpes até ao Burgau, bem como o espaço marítimo paralelo de 2km a partir da linha de costa, o Sudoeste português corresponde sensivelmente à área do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, abrangendo territórios nos concelhos de Aljezur, de Odemira, de Sines e de Vila do Bispo, numa zona de interface mar-terra cujas características importa destacar.

Na geologia do local distinguem-se dois conjuntos de rochas, tendo as mais antigas, mais de 300 MA, e aflorando desde o extremo norte do Parque até próximo de Vila do Bispo, enquanto os arenitos e diversas variedades de calcário, datam de há 120-200 MA, aflorando na parte sul do Algarve, resultantes de sedimentos que se depositaram na bacia marinha outrora existente no barrocal algarvio. A variedade das rochas contrasta com uma certa monotonia no respeitante às formas de relevo. Toda a linha de costa, na parte terrestre, é acompanhada por áreas planas cuja altitude vai aumentando para sul à medida e que o encaixe dos rios é mais profundo.

© ​Maria Barbosa Viana

A rede hidrográfica da Costa Sudoeste é constituída por cursos de água pertencentes às bacias hidrográficas do rio Mira e do Barlavento Algarvio constituída, por alguns sistemas atípicos temporários, importante para a sustentação de elevado número de espécies da flora e da fauna, incluindo algumas espécies de peixes prioritárias e endémicas.

© Viajar entre Viagens

Num qualquer passeio pelos lugares da Costa Sudoeste portuguesa, prende-nos de imediato a atenção os grandes ninhos de cegonha que encontramos a polvilhar a paisagem. É este o único local do mundo onde as cegonhas-brancas nidificam nos rochedos marítimos. Outra ave residente, que utiliza as concavidades das arribas e ninhos antigos de outras espécies para nidificar, é o falcão-peregrino, uma ave grande e robusta que é possível observar junto às escarpas, e cujo voo atinge velocidades de 300 a 600 km/h quando pica sobre uma presa. Mas são várias as aves residentes nas arribas marítimas entre as quais o peneireiro-comum (Falco tinnunculus) que se distingue pelo seu comportamento em voo em que permanece no mesmo local batendo as asas rapidamente antes de picar sobre as suas presas, e também o peneireiro-das-torres (francelho Falco naumanni) que nidifica em colónias nas arribas. Entre os corvídeos destaque para a gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) e a gralha-de-nuca-cinzenta (Corvus monedula). O corvo-marinho-de-crista (Phalacrocorax aristotelis) distingue-se no seu voo com o pescoço esticado e um rápido batimento de asas.

© Dicas de Lisboa

Podemos ainda destacar o guincho ou águia-pesqueira (Pandion haliaetus) que utiliza esta costa rochosa como local de nidificação assim como a A águia-de-bonelli Aquila fasciata (syn Hieraaetus fasciatus).

No início do outono, junto ao cabo de S. Vicente, é possível assistir à chegada pela aurora de milhares de aves migradoras (passeriformes - aves a que vulgarmente chamamos pássaros) recortadas no céu, vindas do norte da Europa e que daqui rumo às longínquas terras do sul de África. Elas são, entre tantas outras, o pisco-de-peito-azul Luscinia svecica, o papa-moscas-preto Ficedula hypoleuca e o papa-amoras-comum Sylvia communis. Também podemos encontrar aves marinhas e costeiras, em trânsito migratório como o alcatraz Sula bassana e a andorinha-do-mar Sterna hirundo ou aves de rapina como a águia-calçada Hieraaetus pennatus que, contrariamente aos passeriformes, são migradores diurnos e, esporadicamente, mesmo o falcão-da-rainha Falco eleonorae ou o búteo-mourisco Buteo rufinus.

A elevada biodiversidade da Costa Sudoeste integra um total de 35 habitats naturais, sendo, muitos deles, exclusivos desta área. Trata-se do Sítio com maior número de espécies vegetais prioritárias e maior número de endemismos portugueses e locais.

Em termos de vegetação, é possível encontrar uma mistura de vegetação mediterrânica, atlântica e do norte de África, existindo cerca de 750 espécies, das quais mais de 100 são endémicas, raras ou localizadas, sendo que 12 não existem em mais nenhum local do mundo. É possível ainda encontrar espécies consideradas vulneráveis em Portugal, assim como também diversas espécies protegidas na Europa. Entre os endemismos há, por exemplo, plantas como a Biscutella vicentina, Centaurea vicentina, Cistus palhinhae, Diplotaxis vicentina, Hyacinthoides vicentina, Plantago almogravensis, Scilla vicentina. Outras espécies são consideradas raras, como o samouco Myrica faya - considerada sobrevivente da laurissilva, a sorveira Sorbus domestica ou a Silene rothmaleri.

Em termos históricos, as populações humanas tiverem desde cedo dificuldades para se fixarem nesta longa faixa litoral, justificado por factores naturais e geo-estratégicos, aliando terras avessas à agricultura, aos diversos perigos marítimos que afastavam populações de orlas costeiras mais expostas. Apesar disso, pequenas comunidades foram-se estabelecendo ao longo da costa, umas na frente oceânica, outras abrigadas num interior próximo, mais fértil e seguro: mariscadores do epipaleolítico/mesolítico, com os seus utensílios de pedra; homens e mulheres do neolítico que ergueram megalitos no Promontório Sacro; marinheiros-mercadores do Mediterrâneo, que aqui aportavam; povos vindos do interior que se fixavam em povoados fortificados; industriosos romanos que exploraram os recursos naturais e criaram estruturas portuárias ou pescadores do atum e da sardinha que por aqui montaram as suas armações.

Da riqueza natural chegamos ao património edificado, do qual podermos destacar os vestígios de ocupação que datam da época romana na Ilha do Pessegueiro, cujo forte da costa e o fortim da ilha foram edificados em finais do séc. XVI, em plena época filipina, estando associados ao projeto, não realizado, de construção de um porto oceânico.

© VisitPortugal

Erguido sobre arriba instável, o forte de Belixe foi, durante séculos, atalaia defensiva contra piratas e corsários e apoio de rendosa armação de pesca. A muralha abaluartada de Sagres, por sua vez, é o culminar de sucessivas reconstruções e alterações que se estendem desde a época henriquina atá ao séc. XVIII.

Edificado no início do séc. XX, o Farol do Cabo Sardão deve ser, curiosamente, o único edifício português que, por engano, o construtor inverteu 180º.

Fonte: ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas

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