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Complexo Industrial Romano de Salga e Conserva de Peixe em Tróia


A riqueza das paisagens nacionais alia o património natural ao património cultural e histórico que encontramos em cada pequena aldeia, vila ou cidade portuguesa: são inúmeros os vestígios que reflectem a riquíssima história do nosso país, testemunhos de civilizações e povos que em tempos remotos percorreram os mesmos caminhos que hoje trilhamos.

A Civilização Romana, imperiosa e imponente, povoa ainda hoje o imaginário colectivo através de histórias infames e construções majestosas, que deliciam os mais curiosos amantes de história e cultura, com vestígios a polvinharem os países que integraram o seu outrora vasto Império.

Na actual restinga de areia que separa o estuário do rio Sado do Oceano Atlântico, conhecida como península de Tróia, podemos encontrar Ruínas Romanas que foram, outrora, um grande centro de produção de peixe salgado e molhos de peixe, continuamente ocupado ao longo de cerca de seis séculos. Pensa-se que muito possivelmente, na época romana, esta restinga fosse ainda um cordão de ilhas, numa das quais se construiu a Tróia romana. Ácala, uma ilha situada a sul do Cabo Espichel que é referida pelo escritor latino Avieno na sua obra Orla Marítima, do século IV, pode ter sido a ilha em que se situava a Tróia romana.

De facto, Tróia aparece na literatura desde o século XVI como um sítio de época romana com tanques em que se salgava o peixe e é frequentemente visitada e referida por diversos autores nos séculos seguintes.

A primeira escavação de que há notícia teve lugar no século XVIII, por iniciativa da futura rainha D. Maria I, e em meados do século XIX têm lugar várias campanhas de escavação da Sociedade Arqueológica Lusitana, a primeira sociedade arqueológica do país, fundada em Setúbal, em 1849, com o propósito de escavar Tróia. A estes trabalhos se deve a descoberta de edifícios de habitação e de umas termas. No século XX, de 1948 até aos anos 70, o local foi alvo de escavações promovidas pelos directores do actual Museu Nacional de Arqueologia que puseram a descoberto, em particular, várias oficinas de salga de peixe, umas termas, cemitérios e uma basílica paleocristã.

Assim, na margem do estuário do Sado, inúmeras construções romanas foram sendo postas a descoberto, muitas delas fábricas de salga de peixe, de grande dimensão, numa extensão de 1,5 km, demonstrando que este local terá sido um povoado importante, possivelmente o maior centro de produção de salga de peixe e seus derivados conhecido na geografia do antigo império romano.

Trabalhos recentes da equipa de arqueologia de TróiaResort coordenada pela Dra. Inês Vaz Pinto, permitiram identificar 25 oficinas de salga, das quais se conservam vestígios de 182 tanques, parte deles ainda completos. Calculado o volume dos 80 tanques ainda mensuráveis, conclui-se que corresponde a uma capacidade de produção instalada de 1429 m3, ou seja, 1 429 000 litros (Pinto, Magalhães e Brum, 2010). Além das oficinas de salga, foram postas a descoberto umas termas com a sua planta completa, um núcleo habitacional com um edifício de primeiro andar, necrópoles, um columbarium também utilizado como mausoléu, poços e uma roda de água, e uma basílica paleocristã com pinturas murais a fresco.

O complexo industrial de Tróia romana terá sido continuamente ocupado desde os primeiros decénios do século I até ao século VI, ou mesmo VII, podendo-se destinguir duas fases de ocupação distintas durante este longo período.

Os séculos I e II foram o período de apogeu, em que grandes fábricas de salga com dezenas de tanques produziriam grandes quantidades de peixe salgado e molhos de peixe. Estes produtos, embalados em ânforas, eram vendidos nas cidades e campos da Lusitânia e exportados para outras zonas mais distantes, em particular para Roma, a capital do Império.

Após uma interrupção da produção na segunda metade do século II, as grandes fábricas foram divididas em unidades mais pequenas e começou um novo ciclo produtivo que durou do século III ao século V. Neste período as ânforas utilizadas diversificam-se, sugerindo uma maior variedade de produtos, e sabe-se que o principal peixe utilizado era a sardinha. Nas fábricas que foram escavadas, a produção cessou na primeira metade do século V, acompanhando o declínio do Império Romano do Ocidente, mas o sítio continuou a ser ocupado pelo menos por mais um século.

Tendo em conta os inúmeros vestígios de fábricas e tanques de salga, pode-se considerar que a Tróia romana foi o maior centro de produção de salgas de peixe que se conhece no mundo romano. Esta capacidade e dinamismo produtivo devem-se às condições naturais da região do Baixo Sado, junto ao Oceano Atlântico, com águas muito ricas em peixe e com salinas e olarias instaladas na margem norte do estuário.

No século V, com o encerramento das fábricas de salga conhecidas, inicia-se um longo processo de abandono e destruição da povoação, que pode ter durado até ao século VII, se se tiver em conta o achado de algumas raras loiças dessa época.

O sítio romano acabou por ser totalmente coberto por dunas de areia, e no século XVI apenas ali existia a Ermida de Nossa Senhora de Tróia, a casa do ermitão, uma hospedaria, e um moinho de maré na lagoa perto (Caldeira). A grande casa que se situa junto às Ruínas, conhecida como Palácio Sottomayor, foi construída pelo proprietário da Herdade de Tróia nos anos 20/30 do século XX sobre uma casa mais antiga. O armazém, telheiro e rampa para barcos hoje visíveis foram instalados pela Torralta, a primeira empresa turística que construiu apartamentos e hotéis em Tróia, na década de 70 do século XX.

As Ruínas foram classificadas, em 1910, como Monumento Nacional e, em 1968, foram dotadas de uma Zona Especial de Proteção e de uma área non aedificandi.

Actualmente a manutenção, conservação, investigação, valorização e visitação turística das Ruínas Romanas de Tróia são responsabilidade do troiaresort, proprietário dos terrenos em que se situam.

Fonte: CIMAL - Comunidade Intermunicipal Alentejo Litoral

Fonte imagens: Evasões

Tróia Resort

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