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Ver 1502 como se fosse hoje


Assistir ao baptizado de D. João III, em Junho de 1502, é o que o projecto Narrativas Interactivas nos Monumentos Nacionais tem o objectivo de reproduzir. Não falamos de uma viagem no tempo, porque a tecnologia ainda não o permite, mas sim de uma recriação histórica virtual tão fiel ao passado que o visitante sente que está mesmo a experienciar o século XVI. O projecto nasceu da mente de Rui Avelans Coelho, doutorando em Media Digital, curso resultante de uma parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade do Texas, em Austin - onde investiga na área dos vídeos interactivos com imagens reais. A patrimonio.pt sentou-se à conversa com o realizador para entrar neste mundo que associa novas tecnologias a "velhas" histórias.

"A ideia surgiu como projecto de doutoramento. Já tinha feito um projecto interactivo com a banda da GNR e este é mais para testar questões de narrativa - como é que se consegue construir uma narrativa interactiva num local como este", começa por revelar Rui Avelans Coelho. O primeiro local escolhido para palco do projecto foi o Castelo de São Jorge, sendo que a Torre de Belém será o próximo cenário. "Na altura, uma recriação histórica pareceu-me interessante e queria que fosse algo na área de Lisboa. Surgiram estas duas oportunidades - Castelo de São Jorge e Torre de Belém". Com um ano de existência, estas narrativas interactivas arrancaram com o apoio financeiro da DGArtes e da Universidade Nova de Lisboa e contaram com a ajuda da equipa do próprio Castelo para um tratamento histórico rigoroso.

Mas no que consiste afinal este projecto? De forma sumária, o seu objectivo é a criação de uma aplicação de realidade aumentada executada num dispositivo móvel (tablet) como forma de compilar micro-narrativas espalhadas pelos espaços de um monumento nacional. "A aplicação instalada no tablet vai ter um mapa e através de GPS, conforme o visitante vai circulando e passando por determinados sítios, é avisado que está ali a acontecer alguma coisa. O utilizador levanta o tablet, começa a olhar à volta através do mesmo e vê o que se passou há mais de 500 anos atrás", explica o realizador. Estão contidas na aplicação seis narrativas pré-filmadas que contam os acontecimentos do dia do baptizado do filho de D. Manuel I - narrativas que estarão espalhadas por vários pontos do Castelo de São Jorge. Os tablets, patrocinados pela Samsung, serão cedidos aos visitantes e numa fase inicial o projecto focar-se-á mais nas visitas guiadas e os conteúdos estarão direccionados para o 3º ciclo escolar. Para colmatar a lacuna de conhecimento dos visitantes comuns relativamente aos especialistas, diz-nos Rui Avelans Coelho, este trabalho tenta trazer ao visitante conhecimento de forma mais lúdica. Na sua opinião as novas tecnologias têm um grande potencial na divulgação do património. "Tento usar truques das novelas e filmes para que a pessoa continue a seguir a história e a minha esperança é de que o aluno, quando estiver a fazer um teste, se lembre da importância do evento histórico porque leu no texto da escola, mas também porque se lembra da experiência no Castelo", revela.

Tocando assim em várias áreas - da tecnologia, à educação e ao turismo também - o Narrativas Interactivas nos Monumentos Nacionais contribui para a divulgação da memória histórica através de novos formatos - sendo um projecto inédito em Portugal. Com o intuito de despertar interesse nos jovens em relação à história do nosso país, a passagem de conhecimento é feita aqui através de um mundo virtual, em tempo real e associada a uma pequena ficção: "Há a componente histórica - interessa ao Castelo que os alunos aprendam a história de forma rigorosa -, portanto há uma série de factos que, independentemente do percurso que a pessoa faça, são inalterados. Mas com isto há um elemento ficcional: há um personagem que será morto (um pajem) e há três suspeitos. O visitante vai ficando com mais suspeitas sobre o assassino, conforme o percurso que for fazendo. No final do percurso, o rei pergunta quem foi o assassino". Não havendo um caminho marcado para o visitante, é por causa disso que a narrativa se torna assim interactiva. "Gravámos várias alternativas dentro da narrativa base, devido à liberdade de escolha do utilizador. Se eu fizesse o projecto com um trajecto fixo ficava com um filme e eu queria fazer uma coisa que não tivesse sido feita ainda", explicou o doutorando cuja premissa de tese é tentar entender se é possível construir estas narrativas interactivas e se elas fazem sentido independentemente do percurso.

Ainda em montagem final, depois de uma semana de gravações que contaram com a ajuda da associação Danças com História, da Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN), do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e do Ministério da Educação, o realizador revela que o seu objectivo é o de "alargar este projecto até onde conseguir". Seja em termos de conteúdos - históricos ou ficcionais -, seja em termos de espaços - a seguir à Torre de Belém, o objectivo é levar o projecto a vários monumentos nacionais -, seja em termos tecnológicos já que a aplicação será mais tarde disponibilizada para outros aparelhos (smartphones). Em jeito de conclusão, Rui Avelans Coelho, que faz também parte do mundo académico, afirma: "Eu entendo que um historiador se arrepie por ver a coisa simplificada assim, mas o visitante não tem tempo para que lhe seja passada toda a informação - há uma simplificação que tem necessariamente de ser feita". Será assim, com 20 a 25 minutos de vídeo interactivo, que o criador do projecto Narrativas Interactivas nos Monumentos Nacionais espera passar a informação necessária a uma aprendizagem completa e ao mesmo tempo divertida, da história de Portugal.

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