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Que significados para as paisagens culturais?


Experiências de interpretação do património no Algarve

Faz sentido a procura de um significado único e original para os elementos patrimoniais? Quem é detentor de conhecimentos sobre o passado e os seus vestígios materiais? Existe uma só leitura para determinada paisagem? Qual o papel da interpretação das paisagens culturais e do património na sociedade actual?

Quando se questionam os testemunhos do passado – objectos, monumentos, paisagens – não procuramos a ideia por detrás da sua criação ou significado original, mas antes compreender as leituras que estimulam ao longo do tempo. Descontextualizados do momento da sua criação, retirados da esfera do quotidiano, abrem-se a múltiplos significados e usos. Nesta atribuição de sentidos, podem intervir comunidades locais, investigadores e visitantes.

Imaginemos uma paisagem rural e nela um caminho. O conhecimento, as memórias, as vivências que se associam aos elementos que a constituem (plantas, animais, cursos de água, caminhos, casas, fontes, ruínas...) vão depender de quem o percorre. Um habitante da aldeia ou um pastor reconhece ainda os caminhos antigos, as ervas e os seus usos, o canto das aves, lembra a lenda que o avô contava sobre um tesouro escondido na fonte... Um arqueólogo saberá ler a sobreposição dos tempos históricos, localizará cartograficamente os sítios arqueológicos, conseguirá arrumar os artefactos que vai encontrando numa grelha cronológica bem como atribuir-lhes nome e função, e suspeitará ainda, pela configuração do terreno, da eventual existência de outros testemunhos passados. Saberá que o que agora observa resulta de um longo processo de selecção em que intervieram elementos naturais e humanos. E um visitante mais curioso? Apreciará a beleza das paisagens, procurará identificar as plantas ou as aves consultando guias de natureza, imaginará, a partir do seu percurso educativo, a quem e a que período histórico atribuir a ruína, e sentir-se-á confortado ao recordar as suais raízes rurais.

Da relação com os lugares históricos, monumentos e ruínas, os indivíduos retiram hoje elementos para construírem a sua identidade e se situarem no mundo actual. Capazes de estimular e seduzir sentidos, mediando universos do imaginário individual e colectivo, permitem a uma pluralidade de formas de percepção e de apropriação e estimulam a construção de novas narrativas sobre o passado e os lugares.

Tornar o património inteligível, questionar, tecer ligações, abri-lo a diferentes leituras, estabelecer uma mediação entre os vestígios materiais e a curiosidade e expectativas do presente são desafios que se colocam hoje à interpretação do património.

Novas experiências de interpretação do património

No mundo rural, mudanças sociais recentes e transformações na paisagem (consequência da diminuição da actividade agrícola, desertificação dos campos, decréscimo demográfico e envelhecimento das populações) abriram espaço à procura de novos usos para as paisagens culturais com vista à sua preservação e valorização. Têm surgido neste contexto novas estratégias de comunicação e interpretação dos valores patrimoniais, envolvendo comunidade local e visitantes na sua descodificação: sinalização e interpretação de trilhos, centros de interpretação de sítios patrimoniais, percursos temáticos, entre outras.

Numa altura em que se reconhece a importância do património e das paisagens culturais na diferenciação e no desenvolvimento dos territórios, a interpretação enquanto “processo de comunicação desenhado para revelar ao público significados e inter-relações do nosso património natural e cultural através da sua participação em experiências de primeira-mão com um objecto, artefacto, paisagem ou sítio” (Bob Peart 1977) é uma ferramenta fundamental na vinculação entre património e sociedade, especialmente quando às comunidades e cidadãos se exige responsabilização e participação activa nas políticas de salvaguarda e valorização patrimonial. A utilização do termo interpretação tem origem em finais do séc. XIX no contexto da organização dos Parques Nacionais Norte Americanos e de preocupações com a conservação da natureza e usufruto público. As primeiras definições e teorização começaram a desenvolver-se em meados do séc. XX. Actualmente, o conceito descreve actividades de comunicação com o objectivo de sensibilizar os públicos para a conservação do seu património. Caracterizam-na a comunicação activa, informação concisa, preferencialmente na presença do elemento patrimonial, com a finalidade de revelar / estimular significados.

A investigação científica e a incorporação dos discursos das comunidades

Na concepção de novas propostas de interpretação – e as possibilidades abriram-se consideravelmente nos últimos anos – dever-se-á partir das leituras e interpretações anteriores. Se a investigação, especialmente na área da história, arqueologia e antropologia, dá mais garantias a uma intervenção qualificada e autêntica, as leituras e vivências das comunidades próximas não podem ser ignoradas mas antes reconhecidas e valorizadas. A interpretação do património é uma ferramenta recente, no entanto, interpretar, enquanto acto de produção de significados, é inerente à condição humana.

Os discursos sobre os sítios antigos produzidos pelas populações permitem compreender como se confere memória aos lugares, se constróem representações do passado e se define a identidade. A incorporação destes discursos e práticas permitirá divulgar e dinamizar o património regional, apresentando-o a públicos diversos e estimulando novos usos pedagógicos, recreativos e turísticos. Permitirá ainda tratar o património de forma a que este não se isole das comunidades que o apreendem e nele reconfiguram a memória. A autenticidade dos testemunhos passados residirá na experiência de um todo integrado na paisagem e seu contexto histórico actual e não apenas na conservação e preservação dos elementos físicos originais, contrariando desta forma o divórcio a que por vezes assistimos nos projectos de valorização patrimonial assentes apenas na produção do conhecimento científico sem incorporação das leituras da população local.

Experiências e potencialidades no Algarve

São diversas as experiências de interpretação do património e paisagens no Algarve. Encontram-se abertos ao público Centros de Interpretação nas Ruínas de Milreu, Villa romana do Cerro da Vila e Monumentos megalíticos de Alcalar, integrados nos Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve. Asseguram ao visitante componentes expositivas, publicações, apresentações multimédia, frequentemente complementadas com oficinas e actividades dinamizadas pelos serviços educativos, como em Alcalar a iniciativa “Um dia na pré-história”. Em S. Brás de Alportel abriu ao público o Centro Explicativo de Acolhimento da Calçadinha, uma antiga via romana, e em Silves o Centro de Interpretação do Património Islâmico, com espaço de acolhimento ao visitante, componentes expositivas e publicações associadas.

Em Alcoutim, foi pioneira a proposta de um roteiro de núcleos museológicos no território concelhio incluindo núcleo de arqueologia, arte sacra, rio, vida no campo, entre outros, bem como sítios arqueológicos visitáveis com componentes interpretativas como as ruínas da Villa do Montinho das Laranjeiras e o Menir do Lavajo.

Ao visitante oferecem-se um pouco por todo o Algarve, itinerários, rotas e percursos sinalizados no terreno, alguns com componentes interpretativas e por vezes com publicações sobre os valores patrimoniais e naturais associados como os “Roteiros Baixo Guadiana”. Recentemente a Região de Turismo do Algarve lançou as publicações "Guias de percursos pedestres do Algarve” e “Rotas e caminhos do Algarve”, ambos com informação sobre os valores patrimoniais e naturais, conferindo ao visitante elementos para a sua descodificação ao longo dos percursos. Mais interessantes ainda do ponto de vista da interpretação do património, são as rotas temáticas. À escala da região existem os Caminhos do Algarve Romano e os Caminhos do Gharb (com itinerários, vídeos temáticos e edições), e estão previstas no PROTAlgarve a organização de redes regionais de valorização do património em torno dos centros históricos islâmicos; arquitectura na época dos descobrimentos; sistemas defensivos do litoral; património em espaço rural; e barroco no Algarve. Um potencial a explorar em paralelo com a formação de guias especializados para orientação das visitas.

De realçar ainda a realização de exposições temáticas um pouco por toda a região, especialmente quando propõem actividades paralelas para públicos diversos (lúdico-pedagógicas, oficinas, saídas de campo), bem como produção de materiais pedagógicos e de divulgação para o público em geral.

Outra proposta relativamente recente e inovadora no Algarve são os percursos pedestres de interpretação da paisagem, que começaram a ser dinamizados pelo Centro de Investigação do Património de Cacela /Câmara Municipal de Vila Real de Santo António. Já na sua sexta edição, os passeios temáticos “Passos Contados”, orientados por guias especializados (cientistas ou detentores de saberes particulares da comunidade local), têm explorado novas formas de interpretação e usufruto das paisagens, dos seus valores naturais e culturais.

Os percursos são uma experiência participada de descodificação das paisagens (onde se sobrepõem heranças históricas) e dos seus elementos patrimoniais (património hidráulico, testemunhos megalíticos, vestígios arqueológicos, romanos e islâmicos, arquitectura tradicional, património geológico, fauna e flora), uma interpretação que se faz em movimento, ao longo dos caminhos, mediada por arqueólogos, historiadores, geólogos, zoólogos, botânicos, artesãos,... Pela riqueza e diversidade de experiências que proporcionam, interrogações e diálogo entre participantes e guias, pela descodificação activa do património e contacto directo com os valores culturais e paisagísticos, os percursos temáticos são uma forma válida e estimulante de interpretação patrimonial.

Estas experiências e o leque de potencialidades que a região oferece, quando associadas numa boa articulação entre agentes regionais e num diálogo interdisciplinar, contribuirão certamente para a promoção de alternativas criativas para o desenvolvimento dos territórios e para a diversificação e diferenciação da oferta turística no Algarve.

Versão revista de artigo publicado no Suplemento S – Caderno de Artes, nº15 do Jornal Postal do Algarve, 29 Outubro 2009.

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OPINIÃO

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