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Quando o intangível se sobrepõe ao tangível


Nos últimos tempos assistimos a um aumento de abrangências na área do património por parte da UNESCO. Passámos de patrimónios móveis e imóveis, a patrimónios naturais e recentemente intangíveis, nutrindo o conceito de património de um conjunto de elementos complexos como: cultura, identidade e memória, por exemplo. Tornou-se evidente que não só a UNESCO, mas também as várias entidades de cada país que se dedicam à salvaguarda do património, estão agora preocupadas com a proteção e incorporação de elementos intangíveis.

(Fotografia da capa: Decalque de pintura rupestre, de CIART. Imagem retirada de: http://tejo-rupestre.com/?p=563)

Contudo, esta separação (patrocinada pela própria UNESCO, que separa o património em vários tipos) entre patrimónios – tangíveis e intangíveis – aparentemente, apenas serve para categorizar elementos, pois, na sua essência, o património é fundamentalmente intangível, uma vez que, na realidade, acabam por ser factores intangíveis os principais determinadores do interesse patrimonial sobre os elementos tangíveis. Como nos indica John Carman, o aspecto fundamental que subjaz sobre um objecto patrimonial é o valor que lhe é atribuído por uma cultura. O que nos faz considerar um objecto património, mais do que qualquer outra coisa, são as qualidades intangíveis que ele representa e que nós valorizamos. Poder-se-ia, assim, afirmar que algo só passa a ser considerado património se logra passar pelo “crivo sentimental” das pessoas. Segundo essa perspectiva, o património não tem necessariamente que ser algo grandioso: para uma família pode, por exemplo, ser muito mais importante o relógio que pertenceu a um antepassado do que o monumento que se encontra em frente da sua casa. Situações similares ocorrem quando o património passa do âmbito pessoal ou individual para o colectivo; neste caso, damo-nos também conta de que o património não é uma “entidade” lógica e neutra, podendo constatar-se que apenas é considerado património aquilo que um número importante de pessoas (entendendo-se tanto num âmbito de quantidade, como de importância das pessoas) considera, pelas mais diversas razões, valioso e que merece ser preservado. Recordemos, por exemplo, as palavras de José María Arguedas, no famoso debate que teve com Julio Cortázar sobre arte e beleza. O primeiro argumentava que para um peruano as poucas notas de uma quena (flauta andina) são mais melódicas e significativas do que uma composição de Bach. Não sentiríamos nós (portugueses) algo similar ao ouvir “Verdes Anos”, de Carlos Paredes?

Rocha F155 do Fratel antes de ser submersa pela barragem do mesmo nome. Fotografia CIART (Imagem retirada de: http://tejo-rupestre.com/?page_id=29)

Nos últimos tempos têm aumentado as análises críticas ao conceito de património, estudos que, de um modo geral, se têm preocupado em analisar os discursos e actuações por detrás da referida noção. A UNESCO desde os seus inícios que lançou as bases para a criação de um património mundial, um património que pertencia a todos e devia ser protegido por todos. No entanto, essa proposta não representava a visão de todos, era, fundamentalmente, uma percepção dos países do hemisfério Norte, particularmente dos países membros da NATO. Como é obvio, tendo em conta o contexto histórico das duas instituições, podemos compreender que essa perspectiva apresentava uma clara tendência pela valorização de elementos relacionados, essencialmente, com a cultura europeia: como se pode constatar, através do mapa do património mundial, a maior parte dos sítios apresenta uma concentração superior na Europa e, inclusivamente, nos outros continentes existe uma predominância de sítios relacionados com a presença europeia nesses países.

Assistimos também como, apesar da existência de uma normatização universal, as organizações que zelam pelo património apresentam distintas formas de actuação e, geralmente, se deixam influenciar por pressões e interesses externos, as mesmas que levaram à protecção de vários monumentos egípcios face à barragem de Assuão, mas que, muito possivelmente, impediram uma intervenção mais efectiva no caso dos budas Bamiyán e, no caso português, à dualidade de critérios aplicados à arte rupestre do Vale do Côa e à do Vale do Tejo. Factores que nos levam a concluir que o património não é um conceito neutro e que, tanto este como as tradições, podem ser facilmente manipulados e, inclusivamente, inventados – com vários exemplos nos Estados do ocidente – como nos comenta Eric Hobsbawm no seu famoso livro The Invention of Tradition. Tendo em conta este aspecto, faz todo o sentido considerar o património como um processo de intangíveis e tangíveis, não é um objecto, um monumento, um lugar ou algo especial. Poderíamos dizer que o património é composto por uma multiplicidade de processos de significação, onde os aspectos materiais e imateriais são identificados, definidos, geridos, expostos e visitados, ao fim e ao cabo, um acto de valorização individual ou colectivo, construído por sentimentos e vivências experienciadas e impostas, tanto no âmbito pessoal ou familiar, como no âmbito do Estado ou grupo no qual nos inserimos. A identidade sobressai dessa identificação com os elementos que valorizamos e consideramos património, elementos, esses, que estão assentes na memória do que nos foi ensinado e vivenciado, tudo isto num constante procedimento de negociação entre presente e passado.

Aspecto actual do restaurante panorâmico do Monsanto. Fotografia de Rui Gaiola (Imagem retirada de: http://www.ruigaiola.com/reportagem-restaurante-panoramico-de-monsanto/2013/12/23/reportagem-restaurante-panormico-de-monsanto)

O papel da memória é fundamental para o conceito actual de património. Recordar é, já por si, uma forma de preservar o passado e de guardar as vivências que nos constituem e que determinam quem somos. A nossa identidade está, assim, relacionada com a temporalidade que habita nas nossas memórias, que actua no presente e que se projecta em direcção ao futuro. Paul Ricoeur diz-nos que a transição da memória corporal à memória do lugar ocorre em actos essenciais e motores: orientar-se, deslocar-se, mas principalmente viver. Nesse sentido, os lugares permitem-nos recordar eventos e situações: uma espécie de relação fenomenológica que relaciona de forma vinculante as coordenadas do tempo e do espaço, ao ponto de proporcionarem tanto “sensações” de datação temporal, como de localização geográfica àquele que circula no seu entorno.

Contudo, dentro desta perspectiva mnemónica do espaço, devemos também deixar em evidência a extraordinária relação entre a mente e a matéria. Nem todas as construções têm o mesmo grau de importância neste processo de vivência e experimentação dos lugares. Algumas representam um maior significado do que outras, sendo aquelas que atingem um papel de relevância colectiva, as mais significativas para os respectivos países e culturas, aquelas que, geralmente, consideramos monumentos. Ora, um monumento tem, na sua essência, um sentido intencional que se materializa no espaço, transformando-o, muitas vezes, num espaço qualificado com um sentido de durabilidade. Erigimos monumentos, com frequência, para comemorar. Quando não queremos olvidar, buscamos materializar a recordação para que se converta naquilo que Pierre Nora denomina “Lugares de Memória”. Lugares ou marcas humanas criadas como símbolos que pretendem ser um nexo entre passado e futuro. Essa marca humana, por mais simples que seja – desde um conjunto de pedras sobrepostas, que marcam um caminho pelo meio de um bosque ou de uma montanha, a um castelo – cria uma paisagem artificial, mas constitui também um polo aglutinador de acontecimentos e memórias, transformando o território num dispositivo mnemónico à escala real, capaz de servir de suporte e enquadramento à acção orientada de toda uma comunidade. Por outras palavras, o comportamento monumental solidifica uma certa ideia de presente, construindo “identidade” e, consequentemente, projectando uma ideia de território para o futuro. A construção de monumentos corresponde a uma vontade de mudar a percepção e vivência do espaço, uma vez que, devido à sua durabilidade, acabam por se constituir num marcador do tempo: existe um antes e um depois da sua construção.

Templo de Ise Jingu (Imagem retirada de: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Naiku_01.JPG)

A utilização desta perspectiva de tempo sem barreiras ou períodos imutáveis é extremamente interessante para compreender o património, pois o seu tempo não se encerra em presente ou passado e em períodos históricos. Os elementos do património são alterados, restaurados, resignificados constantemente ao largo do tempo, alguns inclusivamente deixam de ser valorizados e considerados património, para depois voltarem a sê-lo: como ocorre, por exemplo, com o famoso restaurante panorâmico do Monsanto (Lisboa). Como nos diz Laurajane Smith, em Uses of Heritage o património não está apenas relacionado com passado e com as coisas materiais, é fundamentalmente uma espécie de acordo entre os tempos, uma forma de criar um sentido para as coisas do passado no presente e para o presente.

Para terminar, podemos então concluir que o património não é apenas um sinónimo de preservação de elementos antigos, objectos, edifícios ou tradições, é mais do que isso, é também um discurso de poder, uma experiência e um sentimento, de tal modo que, para ser compreendido, deve existir uma abertura multidisciplinar, um abandono das fronteiras imutáveis da disciplina, pois na sua essência os estudos de património actuais representam uma diversidade de conceitos e estruturas que só podem ser entendidos e desenvolvidos a partir de uma base interdisciplinar.

Paisagem cutural e vestigios arqueológicos do vale Bamiyan. Podemos ver perfeitamente os negativos originados pela destruição dos Budas pelos talibãs. Fotografia de UNESCO (Imagem retirada de: http://whc.unesco.org/es/list/208)

Nos dias que correm o especialista em património já não é apenas aquele que conhece os materiais, que é capaz de restaurar, valorizar e catalogar um monumento. A chamada de atenção dos colegas japoneses para o que se passava com os templos de Ise Jingu – considerado pelos próprios o principal sítio patrimonial do país – ausentes da lista da UNESCO, precisamente porque não se enquadra nos conceitos ocidentais de autenticidade, uma vez que os templos são reconstituídos cada 20 anos (procedimento repetido 61 vezes desde a sua fundação no ano de 690 da nossa era). O “novo” especialista em património é aquele que é capaz de conjugar a mente com a matéria, os tangíveis com os intangíveis, os objectos com as pessoas.

Gonçalo de Carvalho Amaro, Centro del Patrimonio Cultural- Pontificia Universidad Católica de Chile Santiago do Chile, Janeiro de 2014.

Bibliografia recomendada:

CARMAN, J. (2009). Where the value lies. The importance of materiality to immateriality aspects of Heritage In Marie Sorensen and John Carman (eds). Heritage Studies Methods and Approches, pp. 192-208.

DAUGBJERG, M. e FIBIGER, T. (2011). Introduction: heritage Gone Global. investigating the production and problematics of Globalized pasts. History and Anthropology 22, nº 2, pp. 135-147.

HARVEY, D. (2001). Heritage pasts and heritage presents: temporality, meaning and the scope of heritage studies, International Journal of Heritage Studies, 7 (4), pp. 319-338.

HOBSBAWM, E. (2009) Introduction: Inventing traditions In Eric Hobsbawm and Terrence Ranger (eds.) The invention of tradition. 17 edition. pp. 1-14. Cambridge: Cambridge University Press

NORA, P. (1989). Between Memory and History: Les Lieux de Mémoire. Representations, 26, pp. 7-24.

RICOUER, P. La mémoire, l'histoire, l'oubli. Paris: Seuil, 2000.

SMITH, L. (2006). Uses of heritage, London & New York: Routlege. ────── (2010). El ‘espejo patrimonial’ ¿Ilusión narcisista o reflexiones múltiples? Antípoda, vol. 12 , p. 39-63

YOSHIDA, K. (2004). The Museum and the intangible cultural heritage. Museum International 56 (1-2), pp 108-112.

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