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Um roteiro



Quando a floresta arde, é necessário apagar o fogo. Quando a pandemia se espalha, é preciso encontrar medicamentos e comportamentos que a controlem. Quando o desemprego cresce, é preciso subsídios que evitem a miséria. Quando o património é negligenciado ou atacado, é necessário mobilizações e medidas que o protejam. Porém… a sustentabilidade é algo mais do que soluções de curto prazo, por mais urgentes que elas possam ser.


Muito do debate em torno ao património cultural, ou, de forma mais ampla, à diversidade das expressões culturais no tempo e no espaço, bem como das áreas de conhecimento que as estudam, tende a centrar-se na defesa do “setor”, afirmando a sua importância “incontornável”, argumentando por vezes com a relação que existe entre esse conhecimento e a democracia, ou reivindicando mais verbas e postos de trabalho.


Todas essas preocupações e propostas são relevantes e têm a sua justificação, mas ficam na esfera dos incêndios que é preciso apagar ou das vidas ameaçadas pela pandemia que é preciso salvar. Não são suficientes para mudar o quadro de reflexão em sociedade, que é ele próprio uma expressão da diversidade e da transformação cultural, que não se opera (contrariamente a algumas ilusões) essencialmente por influência de narrativas construídas pelas lideranças (culturais, artísticas, sociais, políticas,…) mas antes pela evolução do cruzamento, tantas vezes caótico, de processos sociais, mobilidades, reposicionamento dos cidadãos em relação às redes socioculturais, reorganizações económico-logísticas, equilibração de expectativas, etc.


A questão da importância e viabilidade do património tem menos a ver com os recursos do presente, do que com as suas expectativas de futuro e, mais ainda, o quadro mental de organização dos debates reflexões. No momento em que o património, cuja existência só tem sentido como afirmação cultural no tempo longo, é defendido e argumentado essencialmente na base dos constrangimentos do presente…a estratégia para o defender já nasce derrotada.


A questão patrimonial, nas suas múltiplas articulações identitária, social, económica, e outras, foi central nos debates da Conferência Europeia das Humanidades, através das suas 21 sessões e debates, que envolveram 112 palestrantes de 23 países europeus e todas as principais áreas de conhecimento. O objetivo da conferência, organizada pelo Conselho Internacional para a Filosofia e as Ciências Humanas, foi o de identificar um conjunto de campos prioritários de intervenção multidisciplinar, ancorados nas Humanidades, que evidenciassem a autonomia e relevância destas áreas de conhecimento, construindo uma convergência entre a comunidade académica e as mais diferentes instituições e temáticas na sociedade.


A Conferência não partiu das temáticas disciplinares, mas sim de problemáticas sociais atuais (mobilidade, identidade, saúde, digitalização, etc.), evidenciando como elas não podem ser enfrentadas, para além dos ciclos que saltam de crise em crise até ao desespero final, sem o contributo das disciplinas das humanidades, em estreita ligação com as ciências mas ajudando a sociedade a construir projetos de média e longa duração, apoiados na compreensão histórica e antropológica do comportamento humano, e nas metodologias de análise textual e simbólica das suas formas de expressão.


Esta compreensão, que colocou o conhecimento no centro dos processos de transformação, conduziu a um diagnóstico claro, sobre as raízes das dificuldades conjunturais do campo da Humanidades e do entendimento cultural do património: a cisão introduzida na formação escolar e, sobretudo, no ensino superior, isolando as áreas de conhecimento em ghettos disciplinares e monolinguísticos.


Esta cisão tem consequências práticas que se podem facilmente reconhecer e descrever:


1. A cisão entre teoria e prática e entre objetivos e processos;

2. A frustração de expectativas e divórcio entre indicadores econométricos e variáveis sociais, económicas e ambientais;

3. A reprodução escolar da cisão operada na formação: saber cada vez mais de quase nada, sabendo quase nada sobre tudo o resto e…opinando de forma inconsistente;

4. A segmentação do património (vertentes histórica e cognitivo vs comercial e financeira), com o esmagamento progressivo da sua dimensão cognitiva e a sua erosão acelerada, seja por via esquecimento do património não experimentado ou vivenciado (arquivos, bibliotecas, alguns museus) seja pela erosão material dos sítios, museus e paisagens que são hiper-frequentados.


A Conferência aprovou dois documentos, consultáveis em https://europeanhumanities2021.pt/lisbon-declaration-and-outcome-document/.


O primeiro, a “Declaração de Lisboa sobre Humanidades, Pesquisa aberta e Inovação”, para além de destacar a importância do acesso aberto aos dados de conhecimento e da livre mobilidade de investigadores e estudantes, propõe uma solução fácil de implementar e com um profundo efeito transformador: que em todos os níveis de ensino, do básico ao doutoramento, seja incluída uma dimensão formativa sobre a articulação entre as Humanidades e as Ciências. O objetivo desta medida é o de, em 10 a 15 anos, alterar de forma radical a compreensão na sociedade sobre o que são estes campos de conhecimento, e como cada um deles contribui para qualquer área específica de estudo ou de atividade em sociedade.


Proposta pelo CIPSH, pela UNESCO e pela FCT, com o envolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, esta declaração inscreve-se nos resultados da Presidência Portuguesa do Conselho Europeu, e encontra-se aberta à adesão de instituições (de ensino e não só), bem como de cidadãos.


O segundo, o “Documento Final” da Conferência, inclui um conjunto de recomendações, para governos, instituições de ensino superior e pesquisa, fundações e outras organizações sociais e investigadores. O documento reitera a autonomia das Humanidades e a importância de preservar o ensino de todas as suas áreas, incluindo propostas específicas, de que destaco duas:


1. A responsabilidade dos governos na preservação material, textual e performativa das formas de expressão de conhecimento herdadas do passado, incluindo museus, bibliotecas, arquivos, sítios e monumentos, promovendo a sua integração com a pesquisa e o ensino;


2. A aplicação de uma medida simples para a defesa do multilinguismo e da diversidade linguística: qu a publicação de resultados académicos em duas línguas seja considerada como um critério de maior qualidade na avaliação de projetos;


Estas duas medidas afastam-se, assim, da lógica de preservar o património num “silo”, separado do ensino e da investigação (propondo um paradigma diferente de articulação prioritária da esfera da cultura com a educação) e de uma defesa vaga da importância de publicar em línguas diferentes do inglês, assumindo que a publicação apenas em inglês, ou outra língua, é uma forma empobrecida de comunicar conhecimento novo (sem contrariar os benefícios de usar uma língua franca e destacando a importância de reconhecer que a diversidade linguística não é apenas uma questão formal ou identitária, mas uma questão conceptual).


O Património é o coração de tudo isto: mas o primeiro património é o conhecimento, consubstanciado em paisagens, lugares e objetos, e nos processos de experimentação.


Convido os leitores desta publicação a que leiam e, espero, subscrevam, a Declaração de Lisboa, bem como a que usem o documento final, subscrito pelo CIPSH, UNESCO e FCT, como um roteiro de ação para a transformação da realidade em que vivemos.


O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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