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“Storytelling” como feitiçaria e a responsabilidade do feiticeiro


João Paulo Pedro*


Nos primeiros dias de novembro de 1956, tanques soviéticos da série T-54/55 ocuparam as ruas de Budapeste para pôr um travão à revolta popular que começara no mês anterior. 64 anos depois, um desses tanques ocupa o claustro coberto do museu da Casa do Terror. Na sua leitura crítica, o historiador Péter Apor [1] nota que os objetos em exposição na Casa do Terror adquirem o seu valor não pela reivindicação de autenticidade ou por algum valor intrínseco do objeto, mas pela sua capacidade de criar uma narrativa. Attila Ferenczffy-Kovács, o arquiteto principal da exposição, apresenta ao público um tanque coberto com uma camada de pó, no topo de uma plataforma elevada no centro do que parece ser um espelho de água, mas que se revela ser um espelho de óleo negro, e que, pelo seu tamanho, constringe o espaço de movimento ao visitante.


Imagem retirada de Sodaro, A.: "Exhibiting Atrocity - Memorial Museums and the Politics of Past Violence".

Como contador de histórias (Storyteller), Attila Ferenczffy-Kovács entende que a perceção da realidade que o tanque invoca no visitante não é mais importante do que a realidade física do objeto, mas é sim tudo o que importa.


Pode ser útil entender o contador de histórias – sejam os arquitetos da exposição ou os guias intérpretes, que orientam o olhar dos visitantes pelas representações da Guerra Fria e do regime soviético – da mesma maneira que o autor de ficção Alan Moore se autodescreve: um feiticeiro. A perspetiva hermetista de Moore [2] equipara linguagem, ou o seu encadeamento através de histórias, com feitiçaria. As palavras do feiticeiro, por exemplo os processos de interpretação-apresentação do património, moldam a perceção do interlocutor, efetivamente alterando a realidade que é percebida pelo visitante. Mesmo se deixarmos o aprofundamento desta discussão para a hermenêutica ou para a ontologia, encontramos a ligação entre linguagem e perceção da realidade num grande corpo de literatura académica, incluindo no estudo do património e turismo.


Laurajane Smith [3]e Barbara Kirshenblatt-Gimblett [4] argumentaram que o verdadeiro assento do património se encontra não nos vestígios materiais, mas nas histórias e significados que são construídos pelas comunidades. Igualmente Geoffrey Cubitt [5] observou que o passado é construído pela forma como este é falado e apresentado. E nos estudos de turismo, autores como Keith Hollingshead [6] descreveu turismo como um “meio de construção do mundo”, isto é, um sistema dentro do qual, pelas práticas discursivas, a realidade apresentada ao turista é dada forma. Assim sendo, o tanque T-54/55, bem como todos os objetos da Casa do Terror são gatos de Schrödinger, ganhando apenas forma quando observadas por mediação do contador de histórias.

A analogia do contador de histórias como feiticeiro serve não pela precisão científica, mas serve como um exercício de pensamento útil para compreender o funcionamento do storytelling. No entanto, quando extrapolada para a prática no mundo real, a analogia do feiticeiro não parece cair como uma luva. Consideremos que o ato de contar histórias não é tão claro e inequívoco como o recitar de palavras mágicas, mas que o contador de histórias extrai de um conjunto de recursos linguísticos, estéticos e sociais para construir a sua narrativa, muitos dos quais podem não ter o efeito que este pensa que irão ter. Consideremos também que em parte as experiências turísticas não são unilaterais e mais e mais se vem a discutir a dimensão da cocriação em turismo. Mas é precisamente por estas complexidades e porque a prática de storytelling se tem vindo a integrar na criação de experiências turísticas [7] que a analogia se torna útil. Isto, especialmente, porque nos leva a uma questão pertinente: se a palavra do feiticeiro se torna a realidade do enfeitiçado, que responsabilidade detém o feiticeiro na realidade que constrói?


No discurso da praxis em turismo, Storytelling é frequentemente tratado como, acima de tudo, uma ferramenta de branding, melhoramento do produto ou de marketing. No entanto, quando se olha o ato de contar histórias da perspetiva da criação, ou pelo menos moldagem, da realidade, a dimensão ética surge naturalmente. Desta perspetiva, storytelling deixa de ser uma ferramenta neutra, mas admite-se que as palavras escolhidas pelo contador de histórias possam ser influenciadas pelo contexto em que este se encontra, pelas suas predisposições ideológicas (conscientes e inconscientes) e pela sua própria visão da realidade. Como afirmou o filosofo Slavoj Žižek [8], “há sempre mais na forma do que no conteúdo”. As escolhas de apresentação do tanque na Casa do Terror informam muito mais o visitante da história que o tanque transmite do que qualquer aspeto físico do objeto. Como o museólogo Kevin Coffee [9] afirmou, as formas de apresentação em turismo não estão isentas de carga ideológica, precisamente porque quem as produz também não o está. O subterfúgio de ‘dizer apenas a verdade’ esconde a realidade de que as palavras nunca são neutras e de que, frequentemente, aquilo que tomamos por universal e objetivo provém da nossa tendência de naturalizar aquilo que nos é habitual.


Assim, a responsabilidade do feiticeiro recai sobre ler criticamente a realidade que conjura pelas suas palavras. Torna-se necessário voltar o olhar critico para si mesmo e submeter a escrutínio as ideias que aparentam ser universais e inócuas. Perguntas em relação às histórias contadas como ‘de que perspetiva está a história a ser contada?’ ou ‘quais as premissas que nos parecem obvias e que consequências têm?’ são pontos de partida, mas este deve ser um exercício constante. Isto torna-se particularmente importante em instâncias como a do Turismo Militar, que com tanta frequência trata assuntos de identidade local e nacional e perspetivas sobre passados difíceis. Se é verdade que há muito que o turismo deixou de ser uma atividade periférica e que é hoje uma força que molda a realidade social, urge uma avaliação critica de que perspetivas sobre a realidade este constrói.


[1] Apor, P. (2014). An epistemology of the spectacle? Arcane knowledge, memory and evidence in the Budapest House of Terror. Rethinking History 18, pp. 328-344.

[2] Di Liddo, A. (2009) Alan Moore – Comics as performance, fiction as scalpel, Jackson: University Press of Mississippi.

[3] Smith, L. (2006). Uses of Heritage. Oxford: Routledge.

[4] Kirshenblatt-Gimblett, B. (1998). Destination Culture: Tourism, Museums and Heritage. Berkeley, California: University of California Press.

[5] Cubitt, G. (2007). History and Memory. Manchester: Manchester University Press.

[6] Hollingshead, K. (2004). Tourism and new sense: Worldmaking and the enunciative value of tourism. In M. Hall, & H. Tucker, Tourism and Postcolonialism: contested discourses, identities and representations (pp. 25-42). London: Routledge.

[7] Rizvic, S.; Skalonjic, I. (2015). Reconstructing cultural heritage objects from storytelling. Digital Heritage, pp. 221-226.

[8] Žižek, S. (1994). The Spectre of Ideology. In S. Žižek, Mapping Ideology (pp. 1-33). London: Verbo.

[9] Coffee, K. (2006). Museums and the Agency of Ideology: Three Recent Examples. Curator - The Museum Jornal Vol.49 Issue 4, pp. 435-448.

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


* João Paulo Pedro é Investigador Colaborador do Techn&Art – Centro de Tecnologia, Restauro e Valorização das Artes, do Instituto Politécnico de Tomar (IPT).

Licenciado em Gestão Turística e Cultural, pela Escola Superior de Gestão de Tomar (ESGT), do IPT. Mestre em Desenvolvimento de Produtos de Turismo Cultural, pela mesma escola, tendo desenvolvido um trabalho de dissertação sobre as práticas discursivas de museus memoriais em Portugal e na Hungria.

O autor debruça-se aqui sobretudo no Storytelling no Turismo Militar, no seguimento da sua dissertação de mestrado sobre os museus memoriais em Portugal e na Hungria.


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