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Pensar o Passado: Utopia ou Resignação!


Em 2020 completam-se quarenta anos sobre o início das escavações arqueológicas num lugar aparentemente inóspito, longe de tudo porque, então, estava fora de qualquer rota de estrada principal. Conheci a pequena aldeia com o topónimo Freixo em 1979, no concelho de Marco de Canaveses.


Estávamos, ainda, numa época alimentada pelo turbilhão de ideias que o 25 de Abril de 1974 propiciara e, também, era uma época em que Manuela Delgado e Vítor de Oliveira Jorge, professores da Faculdade de Letras do Porto, motivavam para a investigação em Arqueologia.


Decorridas quatro décadas, parece pertinente fazer alguma reflexão sobre o resultado do trabalho nesse espaço patrimonial que foi classificado, como monumento nacional, poucos anos após o início das escavações.


Como arqueólogo, incentivado e apoiado para perscrutar aquele sítio, iniciei as escavações em 1980. Constava que naquela aldeia havia uns muros diferentes, conhecidos por “capela dos mouros”. Diziam-me que nos campos vizinhos, ao longo dos tempos, tinham aparecido “pedras trabalhadas, bilhas e pratos”.


O documento mais antigo, escrito em papel, que tive a oportunidade de ler sobre o Freixo está datado de 1726, e foi publicado por Francisco Xavier da Serra Craesbeek. Através dele pudemos saber que já então eram visíveis ruínas do que chamavam “mesquita” e que alguns anos antes, em 1686, quando plantavam oliveiras tinha sido descoberta uma ara a Júpiter.


Com o entusiasmo que a “utopia” alimenta, criamos uma situação e idealizamos um longo processo de investigação suportada em escavação arqueológica e em estudos laboratoriais, procurando que a realização fosse perfeita, senão ideal. Assumimos a utopia da aposta na investigação para saber mais sobre o sítio, sobre a construção da paisagem antiga. Suportamos a intervenção numa “gestão de proximidade”, com prioridade para a estabilidade dos 50 hectares de terrenos onde se evidenciavam ruínas. Sabíamos que, ao longo dos séculos, a maior parte dos solos tinham sido revolvidos para trabalhos agrícolas, durante os quais muitas “coisas antigas” tinham sido “vistas” e que já tinham sido publicadas notícias de “achados” no final do séc. XIX.


A escavação foi sendo feita ao longo dos anos e isso permitiu-nos dizer que no final do séc. I, e ainda no séc. II, Tongobriga surgiu como urbe, cidade, como organismo sócio-económico que concentrava não só elementos “residenciais”, mas também uma produção artesanal especializada e atividades sistemáticas de “troca” que justificavam a construção dum forum com a dimensão e monumentalidade evidenciadas pelas ruínas exumadas. Em paralelo com o conhecimento que temos da região a norte do rio Douro, no início do séc. I d.C., sempre questionamos se Tongobriga teria resultado de maturação dos elementos proto-urbanos e, como tal, condicionada por eles ou se, pelo contrário, teria sido uma cidade ex nihilo.


Podemos pensar que Tongobriga surgiu também, nessa época, como centro estruturado do poder, como civitas, com natural preponderância sobre a região envolvente, o seu territorium.


Parece-nos, também, que a atitude de construir termas, basílica, praça, templo e demais edifícios públicos correspondeu a um único objetivo, que era o de dotar este centro urbano de equipamentos coletivos que, pela sua monumentalidade e riqueza arquitetónica, impusessem Tongobriga como centro de atração e decisão.


O projeto de Tongobriga, entendida como urbe, ocuparia com construções mais de 30 hectares, para além dos espaços de necrópole que estariam no exterior da muralha, a qual teria mero efeito simbólico, a crer nos vestígios identificados do seu traçado. Em comparação com outras cidades da Tarraconense, a cidade que escavamos no Freixo pode ser considerada de médias dimensões.

Pela estratigrafia que foi, sistematicamente, analisada, concluiu-se que a construção dos edifícios a cidade foi concentrada nos últimos anos do séc. I e no início do séc. II d.C., cerca de 100 anos após a construção do “castro”.


Estamos, assim, perante duas realidades muito distintas, separadas 100 anos no tempo, obtidas por duas formas distintas: a primeira pelo texto de Estrabão na sua Geografia, que narrava a região a norte do rio Douro como “primitiva e indígena” ainda no início do séc. I d.C.; a segunda pela constatação arqueológica que nos mostra uma cidade no início do século II d.C., exemplo máximo da estruturação de um território.


Saber os motivos porque foi construída esta cidade e perceber porque o foi ali, naquele sítio, eram os objetivos primários da investigação.


Eram questões que julgávamos pertinentes e que motivaram debate permanente sobre o desenvolvimento de Tongobriga, no âmbito das cidades romanas no norte da Península Ibérica, especialmente na vasta região servida pela bacia hidrográfica do Douro, apesar de termos sempre em atenção a amplitude geográfica, de paisagem, clima e gentes que o Império atingiu.

A investigação arqueológica resgatou, sob os solos cultivados, as pedras milenares que a romanização trabalhou e agrupou em espaço urbano, íntegro e autêntico que é Tongobriga.


A descoberta de ruína da basílica paleocristã, durante as escavações arqueológicas desenvolvidas no interior da Igreja Paroquial, confirmou os pressupostos de ali ter existido uma paróquia da primitiva Diocese do Porto.


Nesta aldeia, os espaços ocupados pelas ruínas da cidade romana e pelas marcas medievais interligam-se com os espaços ainda habitados e usados quotidianamente, reforçando o carácter de uma “paisagem construída”, resultado da ação permanente dos fatores humanos sobre os naturais.


Mas o “desafio do futuro” que este Património nos colocou foi muito para além das descobertas que a investigação proporcionara, motivando-nos à contemplação e exigindo-nos a reutilização. O desafio passava por desenvolver uma ação duradoura, e consistente, de valorização monumental, arqueológica, urbana e ambiental, a que acrescentamos a rentabilização divulgativa e turística num momento em que o consumismo aplicado ao ócio é um subproduto da economia moderna muito incentivado pelo alargamento da esperança de vida.


Defendemos que os espaços patrimoniais devem ser, cada vez mais, espaços de consenso, cada vez mais espaços que garantam o bem-estar, que sejam fruídos como locais de aprendizagem permanente ao longo da vida.


Por isso, a Área Arqueológica do Freixo foi constituindo-se gradualmente como “Paisagem Cultural moderadamente evolutiva”, fruto de uma gestão rigorosa do uso moderno dos solos e dos espaços de construção.


Os objetivos foram prosseguidos com recurso a uma cadeia operativa que conciliou a Investigação, a Conservação, a Restituição, a Divulgação, a Difusão e a Formação.


Ao construirmos o passado (pela exumação das ruínas e dos espólios associados) estamos a resgatar através da Arqueologia, como método de revelação do monumento, a integridade da cidade romana sobre a qual se instalou uma população medieval cujas atividades de mercado eram ainda evidentes no século XVIII e XIX.


A todas estas marcas sucedeu-se a atual aldeia, totalmente inserida na Área Arqueológica de Freixo, o que constitui o último estrato da sequência que cronologicamente nos transporta com marcas de autenticidade até ao século XX, deixando-nos agora a responsabilidade de resgatarmos com autenticidade o resto do passado desconhecido, construindo em simultâneo, harmoniosamente, a Paisagem Cultural do século XXI.


Em Tongobriga, sítio patrimonial assumido como mero exemplo, não foi utopia pensar o passado.

Decorridos quarenta anos sobre o início das escavações, poderá ser sinal de resignação se nos limitarmos a aceitar, pacientemente, só o que aconteceu, conformando-nos ou resignando-nos ao mero trabalho de embelezamento das ruínas conhecidas.


Esta reflexão pode ser aplicada a este monumento nacional, mas também a muitos outros sítios patrimoniais.


Em arqueologia, a investigação tem que ser a opção do futuro, desafiando o Tempo.


Como escreveu Manuel Alegre (1996):


Chega um tempo de agir no sentido do Tempo

Tempo de se ganhar o tempo já perdido

Tempo de se vencer o tempo - contratempo

Para que o tempo torne a ter sentido.

Chega um tempo de empunhar as armas do Tempo.

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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