Patrimonios incómodos: El caso de algunas esculturas ecuestres en España



Diolinda Ramírez-Gutiérrez*


VERSÃO ORIGINAL (Espanhol)


El término «patrimonio incómodo» es la convención en español para referirnos al «dissonat heritage» de autores como Ashworht y Tunbridge.


El libro ¿Donde está Franco? Un cuaderno de viaje por la Sra. Dª. Julia Schulz-Dornburg[1] es una forma gráfica de empaparse de él. De hecho, en la modesta opinión de quien les habla, este libro es más valioso por lo que no dice que por lo que dice. Quiero decir, por las preguntas que sugiere que por las respuestas que proporciona. El formato es interesante, yo diría que algo sorpresivo, y lleno de detalles sobre las esculturas objeto de viaje: esculturas ecuestres del general Franco repartidas por la geografía española y que han sido desmontadas. Además de, las vicisitudes de su investigación y su consideración social.


Digo esto como el mayor elogio pues, solo cuando una lectura nos inquieta sabemos que algo no va bien dentro de nosotros, en el mundo que nos rodea o en ambos.


La autora ofrece en su conclusión tres argumentos de «incomodidad» que no voy a desarrollar porque animo, a todo interesado en la memoria histórica y su gestión, a leer este libro.


Les ofrezco, a cambio, algunas de las preguntas que a mí, personalmente, me ha sugerido y que considero pueden ser relevantes a la reflexión general sobre la memoria histórica.


En primer lugar, la conocida como Ley de memoria histórica española se llama en realidad: Ley 52/2007, de 26 de diciembre, por la que se reconocen y amplían derechos y se establecen medidas en favor de quienes padecieron persecución o violencia durante la guerra civil y la dictadura[2]. En efecto, en su artículo 15 se habla de la retirada de emblemas y exaltaciones de la sublevación y la dictadura pero también, de la Guerra Civil. Es notable que el siguiente apartado establezca salvedad para aquellos objetos depositarios de valor artístico o de posesión privada.


De este parafraseo sugiero las siguientes preguntas:


a) ¿Está el concepto de «Memoria histórica» bien empleado en el contexto de esta ley? Dicho de otro modo, ¿con «Memoria Histórica» nos referimos sólo a segundo tercio del siglo XX en España y sobre los españoles?


b) ¿Cómo hemos llegado a utilizar un concepto tan amplio y difícil de definir como sinónimo de un ordenamiento jurídico bastante concreto?


c) ¿Qué significa «Memoria Histórica»? ¿Quién la define? Y si no lo está, ¿qué agentes deben definirla hoy? y, ¿hasta qué periodo histórico se debe retrotraer?


d) ¿Cuándo y, sobre todo, quien establece el valor patrimonial de esos objetos a retirar?


e) ¿No estamos suponiendo que el valor patrimonial de un objeto o práctica es inalterable, inamovible, no transformable?


En el caso de Barcelona-Born esta cuestión es abordada en detalle en el libro.


En otro orden de cosas, el escrito sugiere otro tipo de reflexiones generales:


a) ¿Es, por tanto, legal estudiar e investigar sobre los objetos y documentos legados por esta época histórica?


b) ¿Tiene nuestra sociedad la capacidad de olvidar lo que la ley establece «retirar»?

Hago estas preguntas con la única intención de animarles a la reflexión, ejercicio tan importante y que asegura nuestra «sostenibilidad» como sociedad. Les animo pues, a contrastar la pertinencia de estas preguntas con el legado portugués del mismo periodo histórico. Estos argumentos han resonado en la prensa española[3].


Estaría muy honrada si algún heritage speaker siguiera esta reflexión desde la óptica portuguesa.


Seguiremos pensando juntos, por tanto, sobre patrimonios incómodos. Siga conectado.

[1] https://bit.ly/3kRPcUw [2] https://bit.ly/38aEXbl [3] https://bit.ly/3wzjVvd


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TRADUÇÃO (Português)


A expressão patrimonio incómodo é a designação, em espanhol, para nos referirmos a dissonant heritage, de autores como Ashworht e Tunbridge.


O livro ¿Dónde está Franco? Un relato de viaje, de Julia Schulz-Dornburg[1] é uma maneira de interiorizar a expressão. Na minha modesta opinião, este livro é mais importante por aquilo que se subentende. Isto é, pelas perguntas que sugere e não pelas respostas que oferece. O formato é interessante, algo surpreendente diria, e repleto de detalhes sobre as esculturas que são objecto de viagem: esculturas equestres do general Franco espalhadas por toda a Espanha e que foram desmanteladas, bem como as vicissitudes da sua investigação e a sua análise social.


Afirmo isto como o maior elogio, pois apenas nos apercebemos de que há algo de errado connosco, no mundo que nos rodeia ou em ambos, no momento em que uma leitura nos inquieta.


Como conclusão, a autora apresenta três argumentos de ‘’desconforto’’ que não vou desenvolver, pois encorajo todas as pessoas interessadas em memória histórica e sua gestão a ler este livro.


Como contrapartida, apresento algumas das questões que me ocorreram e que creio que podem ser relevantes para a reflexão geral.


Em primeiro lugar, a lei da memória histórica espanhola tem, na realidade, o nome de Ley 52/2007, de 26 de diciembre, por la que se reconocen y amplían derechos y se establecen medidas en favor de quienes padecieron persecución o violencia durante la guerra civil y la dictadura[2]. De facto, no artigo 15 são abordadas não apenas as remoções de emblemas e as exaltações de revolta e de ditadura, como também da Guerra Civil. É de destacar que o parágrafo seguinte estabelece uma excepção para os objectos de valor artístico ou de proprietários particulares.


Com base nesta abordagem, proponho as seguintes questões:


a) O conceito de ‘’memória histórica’’ é devidamente utilizado nesta lei? Em outras palavras, por ‘’memória histórica’’ referimo-nos apenas ao segundo terço do século XX em Espanha e aos espanhóis?


b) De que forma chegámos a um conceito tão amplo e difícil de definir como sinónimo de uma ordem jurídica específica?


c) O que significa ‘’memoria histórica’’? Quem a define? E não existindo, que agentes devem defini-la actualmente? E até que período histórico se deve retroceder?


d) Quando e quem estabelece o valor patrimonial dos objectos a ser retirados?


e) Não estamos a assumir que o valor patrimonial de um objecto ou de uma prática é inalterável, inamovível, não transformável?


No caso de Barcelona-Born, esta questão é abordada ao pormenor no livro.


Noutra ordem de ideias, o documento sugere outro tipo de reflexões gerais:


a) É, portanto, legal estudar e investigar os objectos e documentos proveninentes desta época histórica?


b) A nossa sociedade tem a capacidade de esquecer o que a lei prevê ‘’retirar’’?


Coloco estas questões com a única intenção de vos encorajar a reflectir: um exercício que é tão importante e que assegura a nossa ‘’sustentabilidade’’ enquanto sociedade. Encorajo-vos, pois, a comparar a pertinência destas temáticas com o legado português do mesmo período histórico.


Estes argumentos fizeram-se ouvir na imprensa espanhola[3].


Sentir-me-ia muito honrada se algum heritage speaker continuasse esta reflexão tendo por base a perspectiva portuguesa.


Continuaremos, portanto, a pensar juntos sobre património incómodo. Mantenha-se atento.

[1] https://bit.ly/3kRPcUw [2] https://bit.ly/38aEXbl [3] https://bit.ly/3wzjVvd


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Diolinda Ramírez-Gutiérrez é actualmente estudante no Doutoramento em Turismo e Sociedade na Universidad de La Laguna (Ilhas Canárias, Espanha). É licenciada em Filosofia pela Universidad de Granada (Espanha) e tem um mestrado em gestão do património cultural pela Universidat de Barcelona. Os seus interesses de investigação baseam-se nos processos de "turistificação" do sector patrimonial e museológico. Realizou estágios de investigação na Sapienza Università di Roma e na Universidade de Évora em Portugal. Publicou artigos em revistas internacionais nos domínios do Património Cultural e do Turismo ( https://bit.ly/3srBxHO). Diolinda Ramírez-Gutiérrez é também autora do blog www.lamuseologainocente.com, que tem como objectivo de apresentar à sociedade parte do seu trabalho.


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