O Festival TRÊSPÊ e a história de uma cidade-corpo em Liberdade



O Festival TRÊSPÊ nasce como ideia original da zet gallery e afirmação da sua vocação e importância enquanto estrutura de criação e programação artística. O exercício que o antecede é o da ressignificação das narrativas existentes sobre Braga, no alinhamento com os desafios da cidade, que quer ser Capital Europeia da Cultural e, sobretudo, reforçar uma aposta na criação contemporânea e de vanguarda, ocupando espaços de novidade e vazio no contexto de um olhar alargado sobre a programação artística e cultural nacional.


Braga e os seus Patrimónios e Paisagens (naturais e/ou construídas) constituem-se como elementos identitários de um território que tem marcas históricas vincadas que vão da cividade Romana à força da Igreja, que se reflete na expressão do Barroco e no imaginário da Semana Santa. Braga também é feita dos seus teatros e salas de espetáculos, museus e galerias e dos seus festivais, como o semibreve ou os Encontros da Imagem.


Mas Braga também é industrial e tecnológica, devendo, em parte, ao seu tecido empresarial, o seu crescimento populacional. Tem sido um lugar de acolhimento de migrantes de muitas partes e a multiculturalidade sente-se nas ruas. A cidade é, hoje, verdadeiramente, cosmopolita e diversa. É neste tecido complexo e robusto que nos interessa intervir, colocar desafios, apelar à participação e, sobretudo, à Liberdade de criação e fruição.


O Festival TRÊSPÊ pretende escrever, ressignificando, a história da pólis, entendida enquanto corpo comum do exercício da cidadania. O corpo e a cidade são dois espaços e tempos em confronto e em diálogo. É essa relação de forças que, a partir da criação artística original no campo expandido da performance, que nos interessa explorar neste novo festival cujo propósito é o de estabelecer pontes entre os vários patrimónios bracarenses: o edificado e a paisagem, desafiando criadores a pensarem os lugares com o corpo, contribuindo para a produção de novas leituras.


Moldado pelo contexto social e cultural que se insere, o corpo é o vetor semântico através do qual o Ser Humano evidencia e constrói a sua relação com o mundo. O corpo enquanto objeto de reflexão humana tem originado múltiplas abordagens, tais como as transformações que caracterizam o indivíduo ao longo dos tempos, as construções de género e raça e a retórica do sexo e do imaginário. O corpo é um valor em si. Este corpo é o nosso lugar na natureza e constitui-se de inúmeros sentidos culturais. As ações e representações do corpo são fruto da complexa relação entre a natureza e a cultura, revestindo-se de desejos e corporizando-se na Arte. Ao longo de toda a História da Arte do Ocidente, o corpo aparece-nos, permanentemente, como tema privilegiado pelos artistas. Muitas culturas ao longo da História perceberam o corpo como o próprio objeto da Arte, pois é a partir da perceção dele que se vive quotidianamente a verdadeira experiência estética.


Nas obras de Maurice Merleau-Ponty[1] o corpo aparece como destaque, enfatizando-se a sua dinâmica e importância do processo de perceção. Discute-se a divisão do ser humano em corpo e mente, que passa a ser considerada como ilusória, passando a refletir-se sobre a forma como o pensamento se torna ação. Na pós-modernidade, o corpo é considerado espaço privilegiado a partir do qual são articuladas relações entre a vida privada e as relações sociopolíticas. Neste sentido, os movimentos feministas foram paradigmáticos ao insistir no mote de que “o pessoal, é político”[2]. O corpo torna-se, assim, elemento estratégico nas chamadas políticas de identidade que dominaram o pensamento político e filosófico ocidental sobretudo a partir de 1980 e cuja forma ainda é sentida claramente nos nossos dias. Todo este percurso parece culminar numa visão do corpo, ou melhor, na necessidade de considerar a corporeidade em vez de encarar o corpo como categoria universal e fixa.


No pós-II Guerra Mundial, o corpo liberta-se da iconografia secular, passando a ser expressão de si mesmo. Mais do que representação dos ideais de beleza que atravessam a História, as propostas apresentadas pelos artistas colocam em evidência o corpo que passa a ser explorado como suporte, experimentando linguagens não-verbais, e utilizando-o como instrumento que questiona os valores socioculturais. Os artistas, através do corpo, questionam o meio, a sociedade, interpelam os sujeitos, desafiam-nos. Entre as linguagens artísticas que historicamente exploram a confluência expressiva de meios e métodos nas artes plásticas e visuais em que o corpo do artista é a própria obra estão a Body Art e a Performance. Historicamente, a Body Art e a Performance estão ligadas às ações realizadas pelas vanguardas europeias do início do século XX: as serenatas futuristas, as apresentações cáusticas e sarcásticas dos dadaístas e dos surrealistas. A história e evolução da Performance e da Body Art estão perfeitamente documentadas e hoje a Performance é uma metadisciplina que compreende propostas que tocam o teatro, a dança, o novo circo, as artes plásticas, a palavra, mas também a fertilidade de possibilidades das media artes.


A cidade é onde a vida acontece. Na cidade-corpo, território de existência, lugar da construção de subjetividades, a mobilidade veloz é, contraditoriamente, na modernidade, produtora de imobilismos. É a velocidade que, ao desequilibrar, no terreno próprio da cidade, obstrui o corpo da sua condição de ser e da sua capacidade de experimentar. O TRÊSPÊ é um convite à pausa e à fruição, que divulgará, enquanto palcos, lugares da memória bracarense distantes da rotina: a Biblioteca Pública de Braga, o Parque das Camélias e as Setes Fontes serão os habitats de criação dos coletivos BANQUETE, DEMO e URGE. Os projetos nascem em Braga, são dos lugares e irrepetíveis. São daqui, são nossos. Gostamos deste sentido de propriedade das coisas sem matéria e é por isso que queremos que, de 2 a 19 de junho, este seja um tempo de partilha e de Liberdade. Não haverá bancos, bancadas ou cadeiras. Cada um deve vir munido da sua almofada, da sua manta e deve performar a fruição. Ser livre na sua forma de ver.


Performance, Património e Paisagem são os novos “p” de Braga e o Festival TRÊSPÊ veio para ficar. Estamos felizes porque tudo começou como um sonho bonito e uma ideia utópica de madrugada de insónia. E agora nasceu um festival. Estamos felizes. Juntem-se a nós.


© Hugo Delgado


[1] MERLEAU-PONTY, Maurice - Phenomenology Of Perception. Londres: Taylor & Francis, Ltd., 2013

[2] HANISCH, Carol – “The personal is political” (1969).

Disponível em www.carolhanisch.org/CHwritings/PersonalisPol.pdf em 13 de setembro de 2021.


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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