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Não correu assim tão bem


É impossível escrever de outro tema que não seja esta espécie de trauma coletivo que dá pelo nome de covid-19 e as consequências inesperadas (ou não) que trouxe ao mundo da cultura em Portugal.


Acabámos todos de passar uma temporada fechados em casa, a nossa vida mudou de um dia para o outro e essa experiência absolutamente inédita trouxe ao de cima características que desconhecíamos em nós e também nos outros. Houve quem passasse mal, quem passasse menos mal. Quem saísse de casa para ajudar outros, quem tivesse de aprender a deixar-se ajudar. Surgiram novos conceitos, palavras que à força entraram no vocabulário corrente: equipamentos de proteção individual, etiqueta respiratória, distanciamento social…


Em Portugal, os museus foram das primeiras instituições a abrir depois do confinamento obrigatório. Na altura pareceu-me um ótimo sinal, eram considerados essenciais. Mas estão vazios. Não há visitas escolares, não há grupos de turistas. Os mediadores por conta própria (recibo verde) vêem-se de repente sem fonte de rendimento, nem data prevista para voltar a trabalhar.


Em fevereiro escrevi aqui mesmo sobre estratégias para seduzir os públicos. Não tem sido prioridade ir atrás dos públicos mais difíceis, porque os museus estavam cheios na mesma. Com a quantidade de turistas que nos últimos anos chegavam diariamente a Lisboa, não havia necessidade de ir atrás de ninguém, a não ser que essa abordagem fosse uma opção estratégica decidida pela instituição. A que conclusão chegamos agora? Museus e outras instituições que mantinham relações com a comunidade onde estão inseridos continuaram a relacionar-se, reinventando-se; passaram a fazer visitas virtuais, mantiveram reuniões por videoconferência, viram os visitantes apropriar-se do seu espólio fazendo-se fotografar como personagens das obras de arte e chegaram até a aumentar os números de participantes nas suas atividades através da internet.


Aqueles que estavam virados apenas para o turismo de massas viram-se de repente sem público e sem relações estabelecidas com a comunidade que os rodeia. Curiosamente, ou não, também a forma como trataram os seus mediadores durante o estado de emergência é distinta.


Qual é a diferença? Estão todos vazios e as dificuldades económicas são uma realidade a que não podem escapar. Mas enquanto uns estão vivos, os outros tentam sobreviver.


Acordámos deste trauma com algumas certezas: todas as desigualdades previamente existentes (económicas, sociais, de acesso à cultura, à educação) estão a aumentar; o mundo não voltará a ser o mesmo. Mas se não aprendermos nada com esta pandemia (e não estou a falar só de competências digitais), não sei o que estamos aqui a fazer.


De um generalizado e otimista ‘Vai correr tudo bem!’ passamos a um realista ‘Não correu assim tão bem…’. Mas ainda vamos a tempo de, à nossa escala, com o nosso pequeno esforço, contribuir para mudar este estado de coisas e fazer deste mundo um lugar melhor. E, já agora, vamos voltar a apropriar-nos do património que é nosso, visitando os museus, palácios e monumentos espalhados pelo país. Aproveitemos agora, que estão vazios!...

A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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