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Museus e confiança… O ”desconforto” de um inquérito da Aliança Americana de Museus



Todos os que, na altura estudantes, nasceram para a vida cidadã no último quartel do século passado, alguns depois de terem participado em barricadas nas ruas de Paris em 68 ou terem sofrido cargas da polícia de choque nas ruas de Aveiro em 73, sabem que não existe “neutralidade” em tudo o que seja construção social, das universidades às igrejas, dos jornais aos teatros, das sociedades recreativas aos museus. Não somente o sabem, e sabemos, como lutaram, e lutámos, para o denunciar.


Com a adultícia e a leitura dos clássicos, muitos do marxismo, os quais alguns de nós continuamos a ter presentes, aprendemos no entanto que existe muito mais terra debaixo do sol do que a visão dualista da vida nos inculca, enquanto imberbes. Obviamente que uma filarmónica não é “neutral” (nos compositores que selecciona, nos instrumentos que disponibiliza ou obriga os executantes a adquirir, assim os seleccionando, etc.). Mas é seguramente mais “neutral” do que a sempre-em-pé Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, vulgo SEDES, por mais que a mesma pretenda ser o contrário.


Tal como a filarmónica, assim um museu, se realmente for museu e não mera operação publicitária ou propagandísticas (como o “Aliança Underground Museum”, em inglês para melhor capturar os incautos ou os pacóvios, seduzidos pelo anglo-falar). Até o Museu do Benfica (que melhor conheço, sem do clube ser adepto) ou o do Sporting (dizem-me que igualmente o do Porto) são museus – e por isso são mais “neutrais” do que a massa associativa e os dirigentes dos respectivos clubes.


Todavia, sendo mais “neutrais”, exprimem obviamente “pontos de vista” de quem paga para que existam, de quem tecnicamente os construiu e de quem se espera que os frequente. E daqui não vem nenhum mal ao mundo porque ninguém visita um qualquer destes museus no pressuposto que as narrativas apresentadas são “neutras” em absoluto ou sequer que neles se suscita a discussão participativa e livre de todos os temas, com todos os visitantes. Quem num daqueles museus for com a intenção de participar em debate para rebaixar o clube onde esteja, vangloriando um opositor, além de ser apontado como “agente provocador” arrisca-se a sofrer as consequências.


Na linguagem chã que prefiro, sem usar por isso “relevância” ou “des/conforto”, termos intimamente associados a “neutral” no vocabulário do moderno “activismo” (e constituindo do mesmo autênticos fétiches, com desculpa da minha “incordialidade”… assim mesmo, em mau-português, mas conforme ao seu dicionário urbano), vem tudo isto a propósito de um inquérito da Aliança Americana de Museus (AAM a seguir), “Museus e Confiança” (“Museums and Trust”), realizado na Primavera passada, mas divulgado apenas em 30 de Setembro.


Trata-se de um estudo de opinião do maior interesse que, segundo os seus promotores e a empresa que o realizou, representa “demograficamente, uma amostra próximo da população adulta americana, por idade, nível educacional, raça e etnicidade” e fornece respostas em domínios tais como “valores, comportamentos e filtros demográficos, práticas comuns dos museus, percepção da neutralidade, inclusão, valores políticos, raça e etnicidade”.


Elizabeth Merritt, vice-presidente do Centro para o Futuro dos Museus (organismo da AAM), desenvolve mais do que se tratou. Diz ela quanto aos objectivos:


"O núcleo do inquérito convidou os entrevistados a classificar sua confiança em museus, e numa série de outras instituições (incluindo o governo dos EUA, organizações sem fins lucrativos / ONG em geral, agências de notícias, corporações e empresas), bem como a sua confiança em tipos específicos de museus, de museus de arte a zoológicos. Para se aprofundar em como a confiança pode variar entre os diferentes segmentos do público, também recolhemos informações sobre dados demográficos (raça e etnia, idade, género, nível educacional), bem como sobre os comportamentos de ir a museus dos entrevistados. Para testar se os museus permaneceram acima da disputa partidária, perguntámos sobre os valores políticos das pessoas.


Explorámos também porque as pessoas confiam nos museus. Se não compreendermos a base sobre a qual se funda, corremos o risco de causar inadvertidamente dano à confiança que o público confere aos museus.


Por fim, explorámos o que as pessoas esperam dos museus: as suas atitudes em relação a como os museus fazem e devem apresentar informações ao público, e as suas atitudes em relação à inclusão (ou seja, em relação à apresentação de conteúdo além das normas brancas e heteronormativas). Compreender essas expectativas pode ser a chave para que os museus construam com sucesso a sua confiabilidade para apresentar às pessoas novas ideias e moldar comportamentos.”


Excelente ponto de partida, dirá qualquer interessado nos museus, incluindo aqui, creio, “activistas” desprevenidos, atenta a presença neste enunciado de preocupações e palavras que lhes são caras. E, sendo assim, vejamos o sumário dos resultados (“achamentos”, como tradução de “findings”, dirão os deslumbrados do inglês, porque “descobertas” lhes há-de parecer mal):


“'Museus e confiança 2021' confirma que o público continua a considerar os museus como altamente confiáveis - perdendo apenas para amigos e familiares e significativamente mais confiáveis do que investigadores e cientistas, ONG em geral, várias organizações de notícias, governo, empresas, negócios e redes sociais (cf. gráfico 1). Para os entrevistados que visitaram um museu nos últimos dois anos (um quarto dos entrevistados), os museus são a fonte confiável número um de informações. Este alto nível de confiança é consistente para museus de todos os tipos, desde museus de arte até zoológicos (cf. gráfico 2). Os três principais motivos citados como contribuintes para essa confiança são que os museus são baseados em factos, apresentam objetos reais / autênticos / originais e são orientados para a pesquisa.”


Gráfico 1
Gráfico 1
Gráfico 2
Gráfico 2

Chegado aqui, o “activista” desprevenido franzirá o sobrolho: então os museus que se diz estarem a caminho da “irrelevância” são assim tão confiáveis? E ainda por cima são-no porque se baseiam em “factos”? Mas isso ainda existe?


Claro que este nosso imaginário “activista” nunca leu aquilo que escreveu um tal Febvre, Lucien de nome próprio, colega e continuador de outro, um tal Marc, Bloch de nome próprio, executado pelos nazis, quando vai para um século travou os combates (sim, “Combates pela História”, não meras “disrupções”) que formaram a sua e as gerações seguintes: “Porque enfim, os factos... A que chamam vocês factos? Que é que põem atrás dessa pequena palavra, facto? Pensam que os factos são dados à história como realidades substanciais, que o tempo enterrou mais ou menos profundamente e que se trata simplesmente de desenterrar, de limpar, de apresentar sob uma luz intensa, aos vossos contemporâneos? Sim, muito teríamos espantado os nossos antecessores ao definirmos os factos, como um filósofo contemporâneo, como "pregos a que se prendem as teorias". Pregos que é preciso fabricar antes de os pôr na parede. E, tratando-se de história, é o historiador que os "fabrica”. Nunca o de novo-nascido “activista” isto leu, como menos ainda aprofundou a saída para o aparente impasse ontológico entre “facto” e “verdade” (cf., por exemplo, a “História e Verdade”, de Adam Shaff; e, no plano filosófico mais amplo, o “Materialismo e Empiriocriticismo”, de um tal Ulianov, como era chamado no tempo do Estado Novo, sendo Lenine nome proscrito).


Mais confuso ficará o ainda nosso imaginado “activista” pelo que vem a seguir: os indicadores de confiança são maiores entre os respondentes que se declaram brancos e menores nos restantes – coisa que o deixará agradado. Mas logo será impelido a deixar a sua “zona de conforto” quando se acrescenta que tais índices são igualmente superiores entre respondentes “liberais” e com atitudes inclusivas para com os outros. Ou seja: “esquerdistas” (na percepção americana), mais criticamente ilustrados, amiúde perigosos. Quando, enfim, passar a observar que a confiança decorre em grande medida da convicção que os museus são mais “neutrais” (quase metade dos respondentes afirmam taxativamente que os museus devem ser sempre neutrais), aí, o “caldo está entornado” e o nosso “activista” só poderá culpar quem respondeu, pela sua ingenuidade (“naivety”, dirá). E foi o que já fez James Gardner no mesmo fórum da AAM, numa primeira (de outras que se prometem seguir) reacção de “desconforto” com os resultados do inquérito:


“Quando membros do público afirmam a importância da neutralidade, eles também reconhecem que os museus são o produto do trabalho de muitos indivíduos que, como seres humanos, têm sempre pontos de vista e nunca podem ser totalmente neutros? Preocupo-me que não o façam. E o que significa ‘neutro’, afinal? Não estou convencido que todos os participantes da pesquisa quisessem dizer o mesmo quando responderam, não importa o quão cuidadosamente as perguntas foram formuladas, e isso complica as coisas.


A realidade é que os museus nunca são realmente objectivos ou neutros, mesmo quando podemos afirmar que o somos. Devemos sentir-nos incomodados com uma confiança que se baseia apenas na autenticidade dos nossos objectos e na autoridade das nossas instituições e que não reconhece o que realmente fazemos. Preferiria que ganhássemos a confiança do público em vez de celebrarmos uma confiança que se baseia num mal-entendido sobre o que nós, como museus e profissionais de museus, fazemos”.


Justíssimas observações, dirá mais uma vez qualquer estudioso dos museus, especialmente nos EUA onde “político” soa mal para grande parte da população e se sente um cansaço da “partidarite” muito maior do que na Europa. Mas depois… bom, depois é como se andássemos em redondo, como antes em relação aos “factos”: nenhuma destas categorias é absoluta.


Para o demonstrar vem-me mais uma vez à memória (a idade tem consequências porventura nefastas: confere-nos memória) uma metáfora que já foi usada no século XIX (imagine-se o despautério, citar autor de há mais século e meio), um tal Mortillet, Gabriel de nome próprio, pai-fundador da Pré-história ciência. Dizia ele que nem sequer dia e noite constituem categorias absolutas, porque entre ambos se interpõem margens ambíguas, a autora e o crepúsculo, sendo além disso que dia e noite estão muitíssimo mal distribuídos no mundo (tal como a riqueza e a pobreza… ou o “activismo” de raiz “tribalista”, já agora). De tal sorte que quando num local é dia no outro é noite, e quando aqui um deles é curto, ali é longo – sendo que nem por isso dia e noite deixam de existir e constituir bons critérios da nossa percepção do fluir do tempo, que é feita de gradientes aproximativos, não da imaculada pureza da vibração de cristais de quartzo.


Mutatis muntandis, onde está dia ou noite coloque-se “factos” ou “neutralidade” e teremos as razões simples que levam à boa imagem social dos museus, por muito que os “activistas” de fresco se esforcem por se auto-convencerem do contrário, invectivando contra a autoridade capciosa dos museus – no que não são nada originais, é claro, embora disso também não se apercebam. Antes deles, e desde o início dos museus modernos, já sucessivamente realistas defensores do Antigo Regime Absoluto, reaccionários de todos os matizes e vanguardistas iluminados proclamaram em diferentes tons a morte dos museus, aquilo que agora se diria ser o seu risco de “irrelevância”. “Não aos museus, sim ao vandalismo” – gritava Joris-Karl Huysmans na passagem do seculo XIX para o XX, reclamando contra a autoridade fossilizada desses antros de academismo. Depois, numerosos outros o fizeram também, entre os quais um tal Duchamp de apelido, que, querendo atacar os museus, mais não alcançou do que ver o seu urinol convertido em “obra de arte” e… “peça de museu”. E o mais curioso em tudo isto é que estes provocadores tinham alguma razão – e não tinham ao mesmo tempo. Tal como o nosso nascido-de-novo “activista”.


Em suma, o que o inquérito da AAM nos confirma é que os museus são mais apreciados se mantiverem posturas de exigência em relação àquilo que os distingue: as suas colecções, que são os seus “factos”. “Baseados em factos” representa a maior virtude dos museus para metade dos respondentes (cf. gráfico 3).


Gráfico 3
Gráfico 3

“Factos”. Sempre essa obsessiva palavra que, fora de teoria englobante, já irritava o supra evocado Lucien, o qual todavia se afirmava depois deles cultor e até escravo. Pois é, de novo a ideia da muita terra debaixo do sol. E a verdade é que não são nada despiciendas as virtudes citadas de seguida, sendo elas em ordem decrescente: apresentam objectos reais/originais/autênticos, orientam-se pela investigação, fornecem informação independente e objectiva, permitem às pessoas tirar as suas próprias conclusões, não são partidários / são neutrais, empregam/consultam especialistas, partilham múltiplos pontos de vista.


Que molho de brócolos, pensará o nosso “activista”: deixar tirar as suas próprias conclusões (melhor seria dizer “empoderar”, dirá) e ao mesmo tempo ser “neutrais”? Que grande confusão – pensará, não entendendo que a confusão é sua e não dos outros, que acharão este tipo de virtudes são muito sensatas e compagináveis, todas elas. Virtudes que chamam a atenção para algo curioso: mesmo num ambiente como o dos EUA, onde se cultiva a hostilidade ao Estado, se alardeia a privacidade (na verdade, o individualismo), liberta de condicionamentos exteriores… para afinal se ser prisioneiro de tudo o que o establishment político-empresarial queira impingir, mesmo aí, somente menos de um terço dos respondentes afirma que os museus nunca devem tomar posições (seja o que for que tal signifique). Os restantes dois terços admitem-no. Porém, com um importante distinguo: a grande maioria, mais de metade dos respondentes totais, afirma que o podem fazer “apenas se estiverem relacionadas com a missão/finalidade do museu”; e somente uma minoria (menos de um quinto dos respondentes totais) admite que se tomem posições “sobre qualquer assunto”. Serão estes os “activistas”.


Ou seja: afinal, o “bom-senso” continua a ser a mais democrática das virtudes, como nos dizia Descartes. Os “activistas” ungidos de fresco fariam bem em reconhecê-lo e, com um pouco mais de esforço, ser-lhes-ia também possível perceber que a “irrelevância” que só eles vêem ou só eles vaticinam para os museus constitui, sempre constituiu, a sua relevância para o comum das pessoas. Dito ainda de forma mais simples: se antes e depois de se auto-representarem como “espaços inclusivos e polifónicos para o diálogo crítico sobre passados e futuros”, os museus se afirmarem acima de tudo como guardiões de memórias, através das suas colecções, cuidando que as mesmas se preservem para o futuro e simultaneamente suscitando sobre as mesmas novos olhares (olhares que não evitem as grandes questões da injustiça social, entenda-se), se isto fizerem, os museus continuarão a ser “relevantes”. Se começarem a dizer que a sua função neste mundo é a de “contribuírem para a dignidade humana e a justiça social, para a igualdade global e planetária”, bom, aí, poderão passar a ser “irrelevantes”, porque imensos outros, incluindo as “miss universo” em cada ano, dizem o mesmo – o que só lhes fica bem, claro. Mas é como no adágio popular (“falas bem, mas não m’alegras”) que muitos dos viciados no mundo do negócio do espectáculo (perdão, no “show-business” ou simplesmente, pudicamente, “showbiz”) preferirão sob a forma de “cantas bem, mas não m’alegras”.


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