Em cada artesão, um novo português em construção


Tiago Serras Rodrigues*


Duas perceções sensoriais distintas, numa frase feita, formam uma sinestesia: — “Olho para aquilo e tudo me cheira a salazarismo”.


São comuns referências visuais (“Portugal cinzento”) ou olfativas (“tempos bafientos”) quando se fala do panorama estético anterior ao 25 de Abril. Os regimes de tendência totalitária têm uma curiosa tendência a tudo controlar: o que lemos, ouvimos e falamos mas também o que vemos. Uma espécie de censura do olhar. Ou mesmo do paladar, sendo a Coca-cola o exemplo mais paradigmático de restrição alimentar imposta pelo Regime.


Como todas as ditaduras do século XX, o Estado Novo também apostou forte na “política do espírito”, termo cunhado por António Ferro, o grande obreiro duma “imagem de marca” do país, criando diversos arquétipos sobre um modo de ser português e de estar no mundo, uma certa ideia de Portugal, com base num conjunto de políticas de “fomento cultural”. Aproveitando a massificação da fotografia, lançou, por exemplo, concursos e prémios para fotógrafos amadores, consolidando, pela primeira vez, uma autoimagem nacional premeditadamente trabalhada sobre recursos visuais, quando antes predominava a palavra escrita.


A partir de 1974, coisas diferentes e antes inacessíveis (artigos de todo o género, produtos consumíveis, seus rótulo e embalagens, cartazes publicitários, anúncios televisivos e de imprensa) encheram as nossas casas e o nosso dia-a-dia. Com a abertura política houve um despertar gradual do consumo e um correspondente abrir dos sentidos.


Não obstante, a máquina comunicacional idealizada por António Ferro veiculara uma metáfora e um universo simbólico de tal forma bem urdidos que a força das suas representações acabou por resistir, continuando a sufocar as nossas artes e ofícios tradicionais e mesmo alguma produção semi-industrial. Confrontados com determinado visual de marca ou certo tipo de “design de produto”, os olhos de hoje não têm como “filtrar” a propaganda política desse tempo. Por osmose, tudo aquilo nos “cheira a salazarismo”, sendo o Museu de Arte Popular a suprema materialização deste problema.


Na verdade, nada daquilo – desde peças artesanais a certas manufaturas – deve a sua existência, a sua razão de ser e a sua funcionalidade a esses “tempos bafientos”. Tratou-se dum aproveitamento político que criou uma associação superficial e perniciosa que, mantendo-se, nos subtrai duma fundamental dimensão expressiva e identitária, pela ancestral ligação ao território e pela raiz cultural quase milenar.


Associação que persiste, em parte, porque os governos democráticos, que não têm – felizmente! – o mesmo pendor dirigista, descuraram a importância de novas referências identitárias e enredaram-se em diálogos improdutivos sobre uma “marca-Portugal” que, para ser eficaz, não se pode resumir a este ou aquele logótipo.


É tempo de libertar esse património antigo – seja de criatividade, saber-fazer, ingenuidade manufatureira ou mesmo engenho comercial – duma mácula política que já não faz sentido. Essa herança deve ser valorizada e não ser alvo duma censura ao inverso, em tempos de Liberdade.


Se o fizermos, ficamos mais pobres. Renegamos um legado cujas raízes vão bem mais fundo e muito mais atrás do que o século XX, apenas o último dos quase nove séculos que já trazemos como nação independente. Ao fazê-lo, estamos a alienar-nos do que é genuinamente nosso, do que é profundamente antigo, verdadeiramente luso-ibérico, até mesmo anterior à expansão marítima europeia de que fomos pioneiros.


Refletindo sobre a época dos Descobrimentos nas suas múltiplas facetas — as grandiosas e também as menos positivas — torna-se claro que a autoimagem nacional não pode continuar centrada no que fizemos além-mar. Precisamos olhar, mais atentamente, para o que sempre fomos e fizemos dentro destas fronteiras que nos cingem de novo.


Fronteiras que embora diminutas albergam a alma de um povo imenso. Um povo artesão e industrioso que, em parte, continuou a empregar as suas técnicas ancestrais de manufatura, enquanto a outra parte andava a desbravar oceanos, a calcorrear extensões e a comerciar em terras longínquas.


Um povo cuja arte e engenho não podem ser eternamente maculados por algumas décadas do século passado, tanto mais que, desde então, outras tantas décadas se passaram.


Um povo que abriu portas e janelas há 48 anos e que hoje se orgulha de mostrar a casa, onde já não “cheira a salazarismo”, pois já vive há mais tempo em Liberdade do que viveu em Ditadura.


Um povo que gosta de receber visitas, que faz coisas bonitas, de grande valor e saber acumulados, que as guarda com carinho, que as mostra com vaidade, sem complexos.


A nossa diferenciação competitiva será tão mais ganhadora quanto melhor souber articular inovação e tradição. Procuremos, pois, um sábio equilibro entre recordar o que um dia fomos lá fora e valorizar o que já antes éramos, continuámos a ser e ainda somos cá dentro. Do nosso território e de nós mesmos: portugueses, sempre em construção.


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*Tiago Serras Rodrigues - Diplomata. Licenciado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), pós-graduado em Marketing (ISEG-UL) e mestrando em História (Universidade de Brasília-UnB). Trabalhou e viveu em Dublin (Irlanda) e Nova Iorque (EUA). Reside atualmente em Brasília (Brasil).


As opiniões expressas neste artigo são pessoais e apenas vinculam o autor.


O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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