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De dentro para fora: onde começa a liderança?


*Margarida Sampayo


“De dentro para fora” - este foi o título que escolhi para responder ao desafio da Acesso Cultura de forma a debater o tema “Liderança na Cultura: o que é preciso?”. Esta reflexão sustentou-se em três interrogações: “Onde começa a liderança?”; “Onde começa a transformação que as instituições culturais procuram?”; “Quem podem ser os actores dessa transformação?”.


A liderança, quer seja individual, colectiva ou institucional, começa de dentro, a partir do momento em que refletimos sobre quem somos, o que estamos aqui a fazer e para onde é que queremos ir. É um processo contínuo, um caminho. E não existe só um caminho, existem vários.


A liderança não é um cargo (embora também possa ser). Os líderes são pessoas que nos inspiram, que nos fazem querer e fazer melhor, e que ao fazê-lo, podem abrir horizontes e entendimentos.


Neste sentido, um líder − chefia ou não chefia −, é alguém que nos faz pensar, que nos envolve, inspira e desperta. Acredito que esse também seja o potencial das instituições culturais. Uma instituição cultural é feita pelas pessoas e também pelas paredes onde ela se encontra (Robinson, 2017). As instituições constroem-se através de redes onde todos podem potencialmente contribuir, de uma forma ou de outra.


Das muitas leituras que fiz sobre o assunto há algo que é destacado por quase todos os autores: estamos num ponto de viragem. E talvez a pandemia tenha acelerado esse processo (Schwarg e Stark, 2022) na forma de pensar o local de trabalho e no enriquecimento de valores humanos. Afinal de contas, são os seres humanos, nós, que fazemos as coisas acontecer1, e isto implica um reconhecimento de todos aqueles que colaboram com as instituições. E às vezes, parece que nos esquecemos deste componente: ser pessoa, ser humano.


Como refere Murawski, é essencial trabalhar em direção à criação de um local de trabalho que celebre e eleve os valores humanos, com foco no cuidado, no bem-estar e na construção de relacionamentos (Murawski, 2021). Para isso é essencial uma liderança centrada no ser humano, que desafie hierarquias existentes, que seja colaborativa, coletiva e compartilhada.


É evidente que isto implica mudanças, reestruturações na forma de estar e de trabalhar das instituições. Todos sabemos que a mudança é constante (Millward, 2022) e inevitável. No entanto, a mudança nem sempre é fácil e por vezes despoleta desconforto e atritos.


Ao reflectir sobre liderança na cultura foi claro desde o início que "não faria sentido fazê-lo sozinha", daí a partilha com algumas pessoas, colegas de profissão, conhecidas, amigas, pessoas que admiro em áreas diferentes, e que considero mediadores nas suas diferentes áreas. Lancei-lhes três perguntas: “Consideras os mediadores líderes?”; “Se sim, de que forma podem os mediadores liderar?”; “No âmbito da tua prática e no teu entendimento de que forma pode o mediador ser um actor que promove a transformação e contribui para a sociedade?”.


As respostas2 permitiram aprofundar a reflexão em torno do tema, da mediação3 como forma de liderança, e em particular, do papel do mediador como líder inspirador.


Há diferentes tipos de liderança, mas quando se pensa em liderança existe a tendência para pensar em determinadas qualidades: inspirador, proactivo, consciente, provocador, questionador, empático, bom comunicador. É neste sentido que entendo o mediador.


Os mediadores cada vez que procuram adaptar o seu discurso e ir ao encontro, estão a construir pontes, a abrir novos horizontes, e ao fazê-lo estão a ser líderes; embora não ocupem um lugar de liderança, dentro de uma hierarquia. Como refere Sinek ser um líder (hierarquia) e liderar (inspirar) são coisas diferentes (Sinek, 2009).


E no entanto, apesar de os mediadores desempenharem um papel relevante dentro das instituições, em muitos casos não têm uma relação contratual adequada.



Partindo da premissa que os mediadores podem liderar, foi interessante perceber o entendimento que estes podem, de várias formas, ser líderes nos seus diferentes perfis (Daniela Viela) principalmente quando conseguem inspirar, envolver, despertar reflexões, ideias, conceitos ou preconceitos (Ana Leonor Mata) e, contribuem para um maior conhecimento e novas perspectivas (Andreia Marçal).


Os mediadores são líderes nos momentos de acção (Ana Marta Estrada) através dos diálogos, das diferentes estratégias e ferramentas que trazem para o acto de mediação, no qual têm o poder de inspirar a reflexão, de procurar a partilha de conhecimentos, sempre em constante aprendizagem, recebendo e partilhando (André Godinho). Discutindo pontos de vista, abrindo espaço à discordância, os mediadores podem alargar horizontes, influenciar e deixar uma semente (João Pedro Vieira).


Existem diferentes formas e camadas para influenciar, inspirar e transformar, que não dependem da posição de liderança (hierárquica), mas sim da capacidade de sensibilizar e mobilizar outros. Os mediadores podem inspirar acções de drástica reestruturação institucional, nomeadamente através da militância, do associativismo e do activismo (Pietra Fraga).


A mediação é um processo transformador, potenciador da crítica e da mudança (Susana Gomes da Silva). Através da mediação acredito que podemos contribuir para aquilo que entendo ser um mundo melhor. A mediação pode ser um modo de activismo social (Diogo Leôncio).


Os mediadores podem ser activistas. Por vezes a palavra activismo (Sandell, 2019) pode ser assustadora porque se associa a ações divergentes e/ou até violentas. Mas, ninguém pode dizer que, ao procurarmos a inclusão, um imperativo moral da mediação cultural e da sua prática, não estamos a ser agentes da transformação positiva da sociedade (Davide Santos). No meu entendimento estamos a ser activistas.



A liderança é uma combinação entre dar o exemplo e inspirar o crescimento; neste sentido, o mediador exerce uma liderança subtil, como propositor de múltiplos encontros (Denise Pollini).


Os mediadores têm o potencial de serem agentes de mudança e de transformação ao não imporem o seu ponto de vista, ao procurarem construir uma multiplicidade de possibilidades, de pontos de vista, de interpretações e críticas, e de histórias múltiplas sobre algo (objecto ou tema) (Andreia Dias). O mediador é um fazedor de perguntas, um questionador, um agitador de ideias, desempenhando um papel importante na transformação da sociedade (Mariana Cancela de Abreu).


Na génese dos museus houve sempre um ímpeto, um desejo, uma vontade de transformar, ainda que nem sempre pelos melhores motivos. Essa vontade de impactar e transformar a vida das pessoas continua presente. A nova definição do ICOM4 aponta para um ímpeto activista de os museus se assumirem como agentes de transformação social.


Nas últimas décadas, muitos museus iniciaram esse caminho da transformação. Na maior parte das vezes em resposta a exigências do exterior, e que deram origem a reflexões internas. De alguma forma exige-se que vivam os valores que dizem defender.


As instituições podem liderar pela forma como definem prioridades, como gerem o tempo, os orçamentos, os recursos materiais e as relações de trabalho (Maria de Assis). São essas decisões políticas, administrativas, económicas que orientam o trabalho. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) apontam diversos caminhos.


Acredito numa liderança partilhada em que todos são auscultados. Todos têm um papel a desempenhar na sua construção, ainda que de diferentes formas, dada a diversidade de apetências e competências. Mas, todos podem contribuir. A sociedade é isso: contribuir coletivamente e individualmente para um fim. Ser líder implica construir com as pessoas e isso é mediar.


Acredito na importância da reflexão individual, colectiva e institucional sobre como contribuir para a sociedade. Como refere Vlachou, as organizações culturais não têm facilidade em tomar uma posição, em assumir um papel político (Vlachou, 2020). Mas será que as instituições ao omitirem-se estão a honrar os valores que dizem defender? É necessário olhar para dentro e prestar atenção ao espaço onde realmente estamos, e reflectir sobre para onde queremos ir. Praticamos os valores que defendemos (Brown, 2012)?



Olhar para dentro pode ser desafiador. Uma das perguntas que surge de imediato é se estamos preparados para isso. Estaremos preparados para olhar para dentro e encarar o nosso desconforto? (Vlachou, 2021). E porque é que nos sentimos desconfortáveis?


Acredito que as instituições culturais querem contribuir para uma sociedade mais sustentável, equitativa, inclusiva, participativa e, diria mesmo criativa. E que cada uma, à sua maneira, está a procurar construí-la.

Questionar é importante. É com base nesse pressuposto que procuro reflectir sobre a minha acção, pessoal e profissional, sobre como quero estar no mundo. Acredito que a mudança começa dentro de nós mesmos.

Não existe uma fórmula para a mudança ou para a transformação, mas há diferentes estratégias e ferramentas que podemos adoptar. A NEMO5 aponta alguns caminhos e estratégias. É um trabalho individual e colectivo dentro de cada instituição. É necessário dar o primeiro passo, e prosseguir conscientes que há caminhadas mais fáceis e outras mais difíceis. Só temos de dar o primeiro passo.


Como diz Abramović: “Não podemos mudar o mundo se não nos mudarmos a nós próprios.” (Abramović, 2020).



Nota

Adaptação da comunicação proferida no âmbito da conferência anual6 da Acesso Cultura, sob o tema “Liderança na Cultura: o que é preciso?”, e da conversa que tive com a Alice Azevedo. O título da minha comunicação foi "De dentro para fora7".


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1Taking Murawski’s Lead: 22 Ideas for Change (2022), disponível aqui: https://leadershipmatters1213.wordpress.com/2022/01/24/taking-murawskis-lead-22-ideas-for-change/

2 Link nas referências bibliográficas para as respostas completas.

3 No meu ponto de vista, mediação é tudo o que ocorre dentro e fora de uma instituição cultural, envolvendo todas as participações diretas e/ou indiretas, desde as diferentes plataformas e suportes onde comunica. Tudo é mediação desde o estudo e conservação da coleção, programação, design expositivo, serviço educativo, redes sociais, etc.

4 International Council of Museums, https://icom.museum/en/news/icom-approves-a-new-museum-definition/

5 Network of European Museum Organisations, https://www.ne-mo.org/

6 https://acessocultura.org/conf2022/

7 https://youtu.be/q2FMA3l3XSo


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Agradecimento

Agradeço o convite da Acesso Cultura e também a todos aqueles que contribuíram para a minha reflexão sobre liderança, em particular a todos aqueles que responderam às minhas perguntas: Ana Leonor Mata, Ana Marta Estrada, André Godinho, Andreia Dias, Andreia Marçal, Daniela Viela, Davide Santos, Diogo Leôncio, João Pedro Vieira, Maria de Assis, Mariana Cancela de Abreu, Pietra Fraga, Susana Gomes da Silva, e a quem preferiu ficar no anonimato. Muito obrigada pela generosidade de contribuir para a minha reflexão. Todas as respostas completas encontram-se disponíveis aqui. Se mais alguém se quiser juntar à reflexão sobre estas perguntas, por favor, enviem para o meu e-mail - margaridasampayo@gmail.com.


*Margarida Sampayo - Biografia

Mediadora cultural e jovem artista. Licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, possuí uma pós-graduação em Curadoria e Programação das Artes pela Universidade Católica Portuguesa, e outra em Museologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Neste momento está a escrever a dissertação em Museologia. Desde 2011, tem vindo a colaborar com diferentes instituições museais, principalmente na área do Serviço Educativo e das Exposições, tendo passado pelo Museu do Oriente e trabalhando, actualmente, no Museu do Dinheiro do Banco de Portugal, com enfoque na gestão de plataformas digitais (site, newsletter, Instagram), mas, também, criando, investigando, produzindo e concebendo actividades para públicos diferenciados.



Bibliografia

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