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Célia Tavares


Nome completo: Célia Gonçalves Tavares

Local e ano de nascimento: Lisboa, 23 de Julho de 1981

Principais interesses: causas sociais, voluntariado, caminhadas, canto, guinismo

Formação académica: Licenciatura em História – Ramo Científico, Pós-graduação no Ramo de Formação Educacional.

Cargo actual ou último cargo desempenhado: Gestora de projectos europeus na área da educação, formação e qualificações.


Como foi o seu percurso profissional? Por onde começou e por onde passou?

Olhando para o meu currículo, a minha primeira experiência profissional, ligada à minha área de formação, foi ainda durante o curso de História. No verão de 2001 fiz um estágio de três meses no, agora extinto, Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino. Após concluir a minha formação académica, comecei por dar aulas de História a alunos do 3º ciclo, na Escola Secundária do Pinhal Novo, no ano lectivo de 2004/2005. Foi uma experiência fantástica, ainda que envolta nos nervosismos das aulas assistidas e das avaliações a que estava submetida. Depois do estágio (ainda em 2005), o meu coordenador científico na altura, o Professor António Camões Gouveia, convidou-me a integrar um projecto no qual estava a trabalhar em Portalegre. E foi assim que começou o meu percurso de trabalho no sector cultural e patrimonial.

Comecei por trabalhar no projecto de reabilitação patrimonial da antiga fábrica de cortiça de Portalegre, a Fábrica Robinson, como investigadora do projecto ArqRob [Arquivo Electrónico Robinson]. Estive entre 2005 e 2007 a fazer o levantamento, descrição e digitalização de documentação dispersa, em vários arquivos e bibliotecas nacionais, sobre o percurso da família Robinson em Portugal e a actividade industrial e comercial da Fábrica Robinson. Além disso, integrada numa equipa multidisciplinar, tinha a meu cargo também a elaboração de estudos históricos de enquadramento para o projecto de reabilitação, assim como pareceres técnico-científicos da especialidade em História, Educação, Património e Museologia. Paralelamente, em 2006, tive também a oportunidade desenvolver um projecto educativo sobre o inventário cultural e artístico da arquidiocese de Évora. Fui co-autora dos conteúdos científico e pedagógicos do DVD educativo “Artes na História, produzido pela Fundação Eugénio de Almeida. Depois de um interregno de quase um ano e meio, regressei à Fundação Robinson em maio 2009, tendo sido contratada como Técnica Superior em História, Educação e Mediação Cultural.

Nessa data mudei-me de Lisboa para Portalegre, onde estive até Junho de 2017.

Foram oito anos de trabalho intensivo no sector patrimonial… Sempre disse, ainda quando estudava no ensino secundário, que iria tirar um curso de História porque queria dar aulas, queria mesmo ser professora da minha disciplina preferida. Perante esse ideal de futuro, fui sempre ouvindo vozes mais realistas que diziam que isso seria muito difícil, que os professores não têm uma carreira assegurada, que iria andar anos e anos com a casa às costas, etc. etc… A isso, cedo respondi que em alternativa, com o curso de História poderia sempre trabalhar numa biblioteca, num museu ou num arquivo histórico… Quando proferi estas palavras estava longe de imaginar que de facto assim seria. Ter tido a oportunidade de trabalhar em Portalegre na área do património será sempre a experiência com mais impacto na minha vida profissional…. Foram oito anos de uma aprendizagem contínua e para a vida.


Onde está hoje e o que faz?

Actualmente, sou gestora de projectos europeus para as áreas da formação e qualificações na Direcção de Investigação, Desenvolvimento para a Inovação (I&DI) do Grupo ISQ. Nos últimos dois anos, tenho trabalhado em contexto internacional, na investigação, conceptualização e desenvolvimento de currículos de formação, seguindo as orientações europeias para a educação e formação profissional para diferentes áreas de formação, como as “soft skills”, desenvolvimento pessoal, formação de formadores, novas metodologias pedagógicas e áreas técnicas e tecnológicas. Na qualidade de gestora de projectos de formação desempenho também todas as funções inerentes ao ciclo de vida dos projectos: desenvolvimento de propostas, pesquisa e desenvolvimento de conteúdos, análise de produtos, qualidade, avaliação, disseminação e desenho do plano de sustentabilidade. Tendo também ministrado acções de formação previstas nas actividades dos referidos projectos.


Qual elegeria como o projecto mais relevante que levou a cabo, até ao momento, para o sector do Património?

Não consigo eleger um só um!...Respondendo o primeiro que me vem à memória, posso destacar o projecto “Picar o Ponto” que tinha como objectivo, no âmbito do plano geral de reabilitação do património industrial da Fábrica Robinson, dar voz aos antigos operários da Fábrica Robinson trazendo-os de volta à fábrica para que partilhassem as suas memórias e o seu percurso de vida. Tive a oportunidade de conhecer e privar com pessoas fantásticas que gentilmente aceitaram partilhar as suas histórias de vida. E isso fez com que adoptasse a máxima de que o verdadeiro Património são as Pessoas… O meu trabalho só fazia sentido porque aquelas pessoas ali estiveram…. Sentia sempre que era insuficiente essa pequena homenagem que lhes prestávamos.


E qual ‘aquele projecto’ que ficou por fazer ou completar?

Ao contrário da anterior, está é mais fácil de responder. No inverno de 2011, tive a oportunidade de me cruzar, nos espaços da Fábrica Robinson, com o músico Bernardo Sassetti, enquanto quando conduzia (com o meu amigo e colega Jorge Alberto) uma visita aquele espaço. Para nosso espanto, ali estava o Bernardo a deambular pela Fábrica admirado com o espaço que havia descoberto. Julgo ser do conhecimento geral que o Bernardo tinha uma paixão pela fotografia, pela imagem…. Tinha um projecto para um filme e os espaços da Fábrica Robinson eram o cenário para essa história que queria contar. Pude acompanhar parte desse trabalho e esperava ansiosa pelo resultado e pela concretização de tantas outras ideias que tínhamos na altura. Entre as quais, um concerto na Fábrica, uma exposição das suas obras ali no espaço “nu e cru”, meio abandonado e em ruínas que tanto o fascinava…


Qual a experiência humana que mais a marcou ao longo da sua vida profissional (colega, chefe, grupo de trabalho…)?

Olhando em retrospectiva, já me cruzei com tanta, tanta gente… Volto ao que disse anteriormente: poderia dar vários exemplos e não apenas um. Como tal, destaco apenas a oportunidade que tive nas diferentes fases da minha carreira, e no desenvolvimento de diferentes projectos, de trabalhar com verdadeiros Amigos. É algo que prezo bastante. Quando se tem o privilégio de trabalhar com Amigos o trabalho, simplesmente, não parece trabalho. Depois de terminados os projectos, e por mais voltas que se dê, há sempre bons reencontros repletos de ideias novas... Creio que um dos aspectos mais positivos no meu desenvolvimento profissional foi o de ter tido sempre por perto muito dos meus melhores Amigos e isso é impagável.


Se tivesse possibilidade de voltar atrás, faria algo de forma diferente?

Provavelmente, ter-me-ia organizado melhor e teria terminado um mestrado em gestão cultural e patrimonial cuja tese ficou por fazer. Na altura a trabalhar, tenho noção que não soube gerir bem o tempo, os fluxos de trabalho, os ânimos… Mas ainda vou a tempo. De resto, tirava a mesma licenciatura, na mesma faculdade… Não mudava muito as escolhas que fiz, pois todas me conduziram ao momento em que estou. E estou bastante satisfeita com essas escolhas.


Que conselho daria a quem está hoje a iniciar a sua carreira profissional na área do património cultural?

Não seria bem um conselho, mas uma palavra de incentivo (talvez as que não ouvi no meu início de carreira): esta é uma área pela qual é necessário ter muito apreço e, ao contrário do que se apregoa, é possível fazer uma carreira no sector do património cultural. Para tal (e talvez como em tudo) é necessária motivação, ter um espírito empreendedor e criativo, resiliência e gosto não só pelos objectos patrimoniais e culturais, mas também pelas pessoas.


O que deseja para o sector do património em Portugal?

Estabilidade a vários níveis e em sentido lato, mas sobretudo nos diferentes projectos que se empreendem (porque muitos ficam pelo caminho…) e em algumas carreiras profissionais que ainda não são devidamente reconhecidas.



As sugestões de Célia Tavares:


Como trabalhei quase 15 anos na área do Património Industrial, vou recomendar uma visita (obrigatória) pelos circuitos pós-industriais e ainda industriais de São João da Madeira.


Os circuitos pelo Património Industrial de São João da Madeira levam-nos a viajar no tempo e conhecer parte da indústria desaparecida daquela cidade, como a indústria chapeleira bem representada no Museu da Chapelaria; a indústria do ferro na emblemática Torre da Oliva. O Oliva Creative Factory que é agora um centro dedicado às industriais culturais e criativas. E talvez a minha preferida, a Viarco, indústria do lápis, numa visita nostálgica que nos leva directamente ao cheiro dos lápis de colorir que usávamos na escola primária.


Existe também a possibilidade de visitar as actuais industrias do calçado e de têxteis que fazem parte do tecido industrial e económico da cidade. É possível fazer diferentes roteiros consoante o interesse de cada um. A oferta é variada e é de facto uma experiência que recomendo pela excelente organização da oferta turística, a qualidade dos espaços, das rotas propostas, das visitas comentadas… É uma verdadeira oportunidade para descobrir as potencialidades dos patrimónios e paisagens pós-industriais.

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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