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Acessibilidades e Inclusão no Museu de Leiria. Um balanço, muitas dúvidas e alguns equívocos



O Museu de Leiria – Formalidades e Intenções


A história do Museu de Leiria recua a finais do século 19, mas a data que assumimos como fundacional é a do decreto de 15 de novembro de 1917, que cria o Museu Regional de Obras de Arte, Arqueologia e Numismática de Leiria. O museu ganha um novo nome, uma nova casa, no Convento de Santo Agostinho, e reabre a 15 de novembro de 2015. Trata-se de um museu de tutela municipal, com coleções de proveniência regional e um acervo que tem muito mais do que diz a sua designação inicial. Situa-se num monumento classificado como Imóvel de Interesse Público, num dos complexos monásticos mais importantes da cidade e datado do século 16.


O museu tem uma história bastante atribulada, e esteve instalado em quatro locais diferentes desde 1917, sendo que, entre 1986 e 2015, as suas coleções estiveram praticamente inacessíveis ao público. O Município de Leiria foi responsável pela execução do projeto de reconversão, que procurou conjugar a requalificação, a conservação e a valorização como núcleo monumental do edificado, adaptando-o a novas funções museológicas, num processo que se procurou integrador. Note-se que o projeto que foi implementado se destinava a um museu de arqueologia, com núcleo de investigação associado, e justificado pela relevância da descoberta do Abrigo do Lagar Velho e da sepultura da “Criança do Lapedo”. O processo de reabilitação foi longo, complexo e conturbado, tendo as obras decorrido entre 2009 e 2015, com intervenientes díspares. Esta situação ajuda a explicar muitos dos problemas de conservação do monumento, com que nos deparamos na atualidade, e alguns constrangimentos no que respeita às acessibilidades.


O projeto museológico foi realmente participado, envolvendo mais de 40 investigadores e entidades, e o Museu de Leiria, que é resultado do trabalho e das ideias de muitos, ao longo de mais de um século, tem vindo a procurar ser agora um museu de todos e para todos, com consciência dos múltiplos desafios inerentes a este anseio.


Acessibilidade e Inclusão - Fundamentos


Apenas com este “novo” museu foi possível aceder a um importante espólio patrimonial, histórico, arqueológico, artístico e educativo que até então não estava verdadeira e totalmente acessível aos vários públicos.


Pretendeu-se criar um espaço museológico de proximidade, pelo que se consideraram no projeto as necessidades de conforto e de segurança expectáveis para os visitantes, concebendo-se um museu inclusivo, acessível, acolhedor, confortável e amigável para todos.


Desde o início que se considerou essencial estabelecer uma forte relação com a comunidade a que o museu pertence, integrando as necessidades dos residentes locais e visitantes.


Créditos fotográficos - Museu de Leiria


Acessibilidades - materialização


A preocupação em tornar o museu inclusivo e acessível foi materializada de múltiplas formas.


Os projetos arquitetónico, museológico e museográfico implementados foram desenvolvidos de modo a contemplar os princípios do Desenho Universal, dando prioridade ao uso coletivo relativamente ao individual, porém sem descaracterizar as diferentes formas de incluir públicos com perfis diversos. Para tal, foram eliminadas barreiras físicas, comunicacionais e sociais a indivíduos e grupos. A museografia privilegiou o didatismo e uma constante contextualização, no espaço e no tempo, criando um itinerário cronológico, mas simultaneamente temático, fundindo o conceito de museu tradicional com o de centro de interpretação, procurando-se atingir diversos níveis etários e diferentes realidades socioculturais.


Tendo a noção de que as pessoas comunicam de formas diversas, foram utilizados meios diferenciados de comunicar com os visitantes, não só através da observação e contemplação, premissas de uma museografia tradicional, mas também através do uso das TIC (Informação, Comunicação e Tecnologia), garantindo uma melhor e interação.


Tiveram-se em conta diferentes dimensões de acessibilidade, em termos físicos, sociais e comunicacionais, que se elencam sumariamente: a infografia e a sinalética respeitaram regras de acessibilidade gráfica; existem placas em braille, em todas zonas do museu, incluindo nos espaços reservados e destinados aos funcionários; existem trilhos direcionais e percursos acessíveis; acessos mecânicos, tais como elevador e rampas; acessibilidade económica; bancos e mobiliário para descanso distribuídos por todos os sectores do museu; espaço cão-guia; plantas táteis; traduções em três línguas (ING; FR; ESP); exposições bilingues (PT; ING); áudio-vídeo-guias em quatro línguas; múltiplos níveis comunicacionais no discurso museográfico; soluções multimédia bilingues; guiões que privilegiam filmes sem conteúdos textuais e locução; guiões em Sistema Pictográfico para a Comunicação e em braille. Estes suportes foram desenvolvidos em parceria com o CRID – Centro de Recursos para a Inclusão Digital (Instituto Politécnico de Leiria), que nos apoiou na identificação de propostas de intervenção no domínio das acessibilidades físicas, sociais e intelectuais e na implementação de soluções inovadoras. Desde a nossa reabertura fomos aprendendo com outras experiências e recebemos investigadores que trabalham estas questões, incluindo Desirée Nobre, que elaborou uma proposta de plano de acessibilidade para o museu, que pretendemos implementar gradualmente.


Acreditamos que a acessibilidade ao edifício deve ser garantida, quer no interior, o que é mais habitualmente fácil de concretizar, mas também a partir do seu exterior, através de um percurso acessível. Tivemos em conta a distância e o percurso desde as paragens de transporte público, situadas nas imediações do museu, e utilizadas por funcionários e visitantes nos seus percursos de e para o museu. Foi instalada sinalética direcional na cidade e garantida a existência de lugar de estacionamento para cidadãos com mobilidade condicionada, sendo o acesso à receção do museu, um acesso comum e rampeado. Foi garantido acesso mecânico interior e a exposição de longa duração e as várias exposições temporárias articulam-se estreitamente com esta realidade, sendo possível iniciar os percursos expositivos a partir do ponto de chegada do elevador, que está na área central do piso expositivo.


Aplicaram-se trilhos podotáteis em todo o museu. Na exposição de longa duração o trilho tem vindo a adaptar-se às mudanças de museografia aí implementadas, instalando-se um novo trilho a cada exposição temporária. Aplicou-se sinalização de alerta nos acessos por escada e em pontos de mudança de nível de pavimento, de modo a melhorar a mobilidade de todos os utilizadores. A utilização de trilhos podotáteis visa conduzir as pessoas com deficiência visual aos espaços interiores do edifício, garantindo que a visita seja feita com independência e sem a necessidade de auxílio, se o visitante assim desejar.


Aplicou-se sinalética acessível - no que respeita às placas de identificação das áreas funcionais, que tem alto contraste e braille - que permite, de uma forma simples e inclusiva, garantir um leque de informação útil à maioria dos nossos utilizadores, incluindo pessoas com deficiência visual (pessoas cegas e/ou com baixa visão). Nesta encontra-se a identificação de todos os espaços públicos, sejam eles controlados ou de acesso reservado, por forma a tornar toda a circulação no edifício mais organizada, independente e objetiva. Esta sinalética encontra-se em posição estratégica e acessível a todos os trabalhadores e frequentadores do Museu.


Existem duas plantas táteis 2,5D que permitem a quem acede ao museu, em cada piso, ter uma noção espacial de todos os percursos acessíveis existentes. Existem ainda marcações identificativas das peças que podem ser tocadas, seguindo o padrão de serem comunicadas em, pelo menos, dois formatos: visual e auditivo.


O museu, enquanto instituição, visa ser um agente de mudança, e adotou no seu processo de criação, desenvolvimento e instalação, práticas de cooperação com várias outras instituições, no sentido de garantir o reconhecimento e integração da diferença, o que permitiu a identificação de soluções para a inclusão ativa de pessoas sujeitas à exclusão devido a fatores físicos, sociais ou intelectuais. Procuraram-se recursos inovadores e originais, que garantissem sustentabilidade a longo prazo.


Procuramos uma mudança efetiva na forma como as comunidades vivenciam o museu. Estabelecemos parcerias para a conceção de programas museológicos, e a programação é resultado, muitas vezes, de cocriação. Temos vindo a adotar uma cultura cada vez mais participativa, integrando na nossa vida outras entidades, associações e investigadores de domínios muito diversos. As artes plásticas, a música, o teatro e a dança fazem parte do quotidiano da casa, quer no âmbito de residências artísticas, propostas de mediação cultural e performativa, ou como programação artística, contribuindo para uma dimensão mais transversal do museu.


Oferecemos um programa articulado de serviços educativos e de mediação cultural, abrangendo visitas guiadas, oficinas e percursos pedagógicos, não apenas para escolas, mas também para o público em geral, incluindo-se nestas atividades específicas para pessoas com perfis diversos. Mais de 40 voluntários e estagiários foram recebidos desde a inauguração do museu, e procuramos que sejam neste espaço pessoas felizes, mas mais importante, voluntários e estagiários apaixonados.


Créditos fotográficos - Museu de Leiria


Experiências que levantam dúvidas


Ao longo destes últimos oito anos pudemos constatar algumas realidades, para nós nalguns casos inesperadas, e relativas à forma como o público se relaciona com algumas das soluções de acessibilidade que adotámos.


Verificámos que os visitantes, apesar deste ser um recurso de acesso gratuito, optam por não utilizar os áudio-vídeo-guias, que consistem em equipamentos multimédia, de uso individual, com conteúdo textual, auditivo e visual, em 4 línguas, num suporte físico, tipo tablet, de pequena dimensão. Quando os levam consigo, parecem preferir usufruir do percurso expositivo sem esta imposição, e com mais naturalidade, simplicidade e proximidade. Alterámos duas vezes o sistema, pensando que tal era devido a questões operativas ou tecnológicas, mas mantêm-se a nossa perceção.


O modelo de trilhos podotáteis que instalámos não é o mais eficaz. A existência de linhas guia é indubitavelmente necessária, mas o nosso sistema tem vindo a revelar-se um obstáculo à mobilidade da população sénior, atreita a desequilíbrios, bem como para os que vão mais distraídos.



Créditos fotográficos - Museu de Leiria


Reconhecimentos e experiências felizes


No que respeita ao caminho que temos vindo a trilhar, partilhamos algumas experiências mais conseguidas no campo da inclusão:


Nos tempos pandémicos, muitas instituições, e também nós, recorreram às possibilidades do mundo virtual. Aqui pode aceder-se, por exemplo, aos links para a visita virtual (https://vrbox.io/tour/5ea1bf009b914doc1460195762) e para a visita orientada ao Museu de Leiria (https://www.youtube.com/watch?v=yVk4_EI57EA&t=15s), preparadas nesses tempos infaustos, sem experiência prévia suficiente. Foi importante perceber, pesem as renitências iniciais, que estas ferramentas funcionam a favor dos museus – e das pessoas que estes servem. Não em substituição da visita física, mas em adição. Continuamos a ter visualizações e estas ferramentas são úteis para apoio prévio à visita. Estamos a trabalhar para a digitalização do acervo, e para a sua disponibilização a médio prazo.


Em 2016, o trabalho que desenvolvemos permitiu receber vários prémios de excelência, nomeadamente na área da acessibilidade física, pela associação Acesso Cultura, e como museu municipal mais acessível em Portugal, pelo Instituto Nacional de Reabilitação (INR). O Museu também foi vencedor do Prémio Silletto nos EMYA, em 2017, tendo como um dos mais fortes argumentos o nosso envolvimento com a comunidade local.


O projeto Museu na Aldeia, de intervenção social e efetivamente participativo, nasceu connosco, e tem sido amplamente premiado como projeto de cidadania na área dos museus, (https://www.europeanheritageawards.eu/winners/museum-in-the-village/). Procurou-se praticar uma efetiva democracia cultural, procurando integrar os públicos mais excluídos e periféricos, nomeadamente as populações idosas de territórios de baixa densidade e em grande risco de desertificação. Este é um projeto consequente, aumentando a autoestima dos participantes, e, muito, a da nossa equipa. Tornou-nos mais felizes.


Como nota final, podemos dizer que a melhor experiência de todas, a que nos indica uma direção, advêm de um estado de espírito que se procura que seja comungado pela equipa que trabalha no museu, pelos parceiros e intervenientes em cada um dos projetos: a acessibilidade e a inclusão entendidas como bem-estar, como um par de braços abertos que dão as boas-vindas e que servem - com boas-práticas, com flexibilidade, com engenho, com amabilidade - as pessoas que, pela razão que seja, se cruzam com o caminho do Museu.


Créditos fotográficos - Museu de Leiria


Pela equipa do Museu de Leiria,


Vânia Carvalho e Sara Marques da Cruz


Agradecimento pelo apoio à revisão a Desirée Nobre. ____________________________________________________________________________________________________


Bionotas:


Vânia Cecília Marques Carvalho, licenciada em História, variante Arqueologia, é mestre em Evolução e Biologia Humanas e tem Diploma de Estudos Avançados em Turismo, Lazer e Cultura, pela Universidade de Coimbra. Integra, desde agosto de 2006, a equipa do Município de Leiria, atualmente na Divisão de Museus e Património Cultural. Coordena o Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, o Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho, e o Museu de Leiria. É responsável científica por projetos de investigação arqueológica, entre os quais do Castelo de Leiria, Carta Arqueológica concelhia e codiretora doprojeto EcoPLis - Ocupação Humana plistocénica nos Ecótonos do Rio Lis.


Sara Luísa Pedrosa Marques da Cruz é licenciada em História, ramo científico, pela Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Entre 2017 e 2019 foi bolseira de investigação no projeto “O Triunfo da Baquelite – Contributos para uma História dos Plásticos em Portugal”. Integra, desde junho de 2020, a equipa do Museu de Leiria, na Divisão de Museus e Património Cultural do Município de Leiria, com o qual colabora como investigadora desde 2016.


As autores utilizam o novo acordo ortográfico.



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