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Wildlings


Hoje falo-vos dos selvagens: os ​Wildlings ​Não me refiro ao povo da série A Guerra dos Tronos, antes aos também livres e cheios de garra que teimam contrariar as estatísticas de desertificação no centro de Portugal. Jovens portugueses e estrangeiros que activam o património humano e natural todos os dias, numa das zonas mais desertificadas de Portugal, o Pinhal Interior. Apressamo-nos a etiquetá-los como ​hippies/freaks e a julgá-los: “só podem estar a fugir de alguma coisa: quem no seu perfeito juízo abandona a cidade para ir para o campo?”. Tentarei deitar por terra estes preconceitos. Desde a década de 60, o interior perdeu quase 40% das suas gentes. Os locais foram partindo à procura de melhor qualidade de vida e de emprego. Hoje, a realidade é avassaladora: 82% dos portugueses com menos de 25 anos vive no litoral, onde se concentram 89% dos alunos do ensino secundário e 83% da riqueza produzida (dados do jornal Público em ​Maio de 2018​). A desertificação do interior não é novidade e, infelizmente, um pouco por todo o mundo vamos assistindo a esta discrepância: litoral vs interior, cidade vs campo. Dados da OCDE indicam que mais de metade da população mundial vive em cidades. Se na década de 60 se partia do campo para a cidade em busca de uma vida melhor, hoje o processo parece ser (felizmente!) o inverso. As cidades estão sobrelotadas, a especulação imobiliária leva ao sobre-desenvolvimento das periferias e a globalização não dá descanso aos portugueses (​global trotters ​ de todo o mundo encantam-se pelo nosso clima, gentes e paladares, contribuindo para o aumento desmesurado do custo de vida). Viver nalgumas cidades portuguesas já não é o ​el dorado de décadas passadas e pode tornar-se num verdadeiro pesadelo (pelo custo de vida ou pelo aumento do tempo de deslocação entre casa e trabalho). O campo é uma alternativa viável a esta azáfama claustrofóbica. Por um lado, há muito por fazer: a valorização da floresta e seus recursos, a criação de pequenos negócios… mas também a criação de infra-estruturas. Se queremos inverter estas estatísticas, há que dotar o interior com serviços capazes de segurar o sangue novo. Querer viver no campo não deve significar abdicar de coisas básicas como educação, saúde ou comunicações (rede telemóvel, internet). Na última década muita coisa mudou mas ainda nos falta muito para equilibrar estas condições. É uma pescada-de-rabo-na-boca: por um lado não há pessoas suficientes para justificar serviços; por outro não há serviços porque não existem pessoas...

Os ​Wildlings portugueses não são os primeiros a mudar-se da cidade para o campo e espero que não sejam os últimos. Este grupo que escolheu o Pinhal Interior é o primeiro a organizar-se numa plataforma com conteúdos pedagógicos que explicam quem são, o que os move e como tencionam concretizar este sonho. Guida, Else, Floris, Lynn, Allison, Tiago, Rodrigo, Lotte, Finn, Jack, Paul, Marieke, Dave, Raquel e Laura são jovens que saíram da cidade à procura de uma vida mais calma, com qualidade e maior ligação à natureza. São arquitectos, empreendedores e educadores e não estão sozinhos: os ​Wildlings são um movimento global. Chile, Costa Rica, Reino Unido, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Indonésia, Índia, Estados Unidos, África do Sul, são alguns dos países onde esta comunidade vai crescendo. Mesmo em Portugal, há outras comunidades de norte a sul do país, de Odemira a Viana do Castelo, de Lagos a Celorico da Beira. Juntos querem mudar o mundo e equilibrar o fosso existente entre a cidade e o campo. Querem rejuvenescer a floresta autóctone que foi destruída há umas décadas pela cultura do eucalipto. Querem aproximar as pessoas da natureza, criando uma relação interactiva em vez da relação de contemplação (natureza-museu; natureza-memória). Querem acabar com os preconceitos sobre o que significa viver no campo e sobre a vida em comunidade. Por falar na vida comunitária, não é preciso inventar a roda e ir atrás de modas ​trendy como o ​coliving que implica redesenhar edifícios nas cidades para albergar mais pessoas. Fará sentido continuar a pensar em formas de sobrelotar cidades quando o interior se está a desertificar? Nem todos os que moram nas cidades são “bichus urbanus” e precisamos da natureza e seus recursos para viver (mesmo nas cidades). Estes jovens acreditam que se existissem mais pessoas no interior, poderíamos contrariar parte da hecatombe que nos assola todos os Verões: os grandes incêndios. Concordo e desafio o governo a lançar (ainda mais) medidas de apoio à deslocalização para o interior. Seria mais produtivo (e rentável no longo prazo) alocar parte do orçamento de combate a incêndios a políticas de incentivo à deslocalização e à prevenção florestal. Para os “bichus urbanus” que se sentiram tocados pelo ​el dorado campestre, partilho alguns recursos: ​https://wildlings.pt/pt-pt/biblioteca/aprender/​ (biblioteca online dos Wildlings com recursos úteis sobre a vida no campo) e ​https://www.novospovoadores.pt/​ (projecto que apoia casais na deslocalização para o interior).

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