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Equívocos do património


O debate em curso sobre as touradas poderia funcionar como um alerta para a ingenuidade com que, demasiadas vezes, se vem tratando das questões do património no século atual.

Contra um quadro que, desde a criação do modelo atual de ministérios da cultura na França do pós segunda grande guerra, estruturou as intervenções culturais entre os eixos do património construído (ocasionalmente arqueológico) e as artes, o século XXI reorientou o foco da vertente patrimonialista para o “património imaterial”, ou “intangível”, herdeiro, ainda que rebatizado, da “cultura e arte popular” de outras épocas, agora embalado na preocupação com a preservação da diversidade cultural, com os direitos à preservação das tradições culturais locais e com a resistência à globalização identitária. Perla mão do Brasil e do então ministro Gilberto Gil (um artista), o património “vivo” tornou-se dominante nas preocupações dos Estados, da Unesco e de grande parte do meio académico. Quase duas décadas depois, será útil ir debatendo as consequências dessa reorientação.

A estruturação bipolar entre património construído e artes, com todas as suas limitações e elitismo indiscutível, expressava um equilíbrio estratégico entre dois interesses sociais: a conceptualização de um passado “uniformizado”, ainda que através de perspetivas (teóricas, sociais, políticas) distintas, e o incentivo à diversidade cultural no presnete, feita de antevisões criativas portadoras de futuro. Este equilíbrio, que era, reitero, elitista, foi rompido em favor da promoção da diversidade, desguarnecendo a coesão identitária. Tal deve-se ao facto de que o património “morto” é passível de apropriação comum por interesses distintos (por exemplo, antigos operários e antigos patrões, podem reconhecer-se na musealização de uma ex-fábrica), mas tal não ocorre com o património imaterial, transformista, disputador. A atual pulverização identitária, abrigo de vários nacionalismos e radicalismos no mundo “ocidental”, beneficia desta orientação equivocada, quando não é o seu resultado.

O património intangível está vivo, pelo que a sua principal característica não é a preservação, é a transformação, o que quer dizer incorporação e aculturação. Neste sentido, a preservação per si desse património é a sua fossilização, o regresso da loja de curiosidades e da política do gosto (mas sem príncipes iluminados). Seria distinto se o foco no património imaterial fosse essencialmente o investimento no estudo antropológico, como defendem na sua maioria os profissionais que o estudam e valorizam, mas o que o modelo liberal faz é criar um produto pasteurizado para consumo turístico.

De caminho, a história (racionalização académica, exercício de convergência) foi substituída pela memória (parcelar, etnocêntrica, subjetiva), por sua vez embalada num discurso ingénuo sobre “as tradições”, “os saberes” e “as perspetivas”, todos considerados de idêntico valor em qualquer plano. Registou-se uma deslocação, relativamente rápida, do foco na argumentação racional objetizante (com todos os riscos hegemónicos que sem dúvida ela encerra) para o foco na “criatividade” (não por acaso é este o cerne do principal programa cultural Europeu) pulvedeslocrizante. Foi, também, a deslocação da atenção reflexiva ao tempo longo e intergeracional (do património material) para a atenção consumista do tempo curto e empresarial. Uma expressão desta deslocação é o fluxo dos investimentos, que se canaliza para os eventos e descura as estruturas (da não renovação de estruturas físicas à precarização dos recursos humanos). A Europa não está assim tão longe da tragédia do Museu Nacional do Rio de Janeiro (de Pompeia ao património tangível de Sarajevo, amplamente destruído pela “intangibilidade” dos seus utilizadores), e Portugal ainda menos.

Não devemos ter nenhuma dúvida de que o património imaterial deve ser preservado, face à erosão da globalização e dos interesses desenvolvimentistas. O património imaterial é, neste contexto, totalmente tangível. Mas não é história nem antropologia: é mercado e ingenuidade. Dele fazem parte, certamente, as touradas, a luta de galos, a chamada arte da falcoaria, e, já agora, a violência doméstica e a exploração infantil. O que queremos preservar ou extinguir? Não há nada mais tangível do que a espuma dos debates que não encaram as contradições porque estão demasiado habituados ao Twitter.

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