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LANTERNAS MÁGICAS: VER, PENSAR, FAZER, CRIAR, QUESTIONAR! PIM


Como trabalhar em educação artística num contexto museológico?

O museu ocupa hoje um papel fundamental na educação dita não formal, e os seus projetos e atividades assumem-se como ferramentas dentro da educação artística, numa linha de ação social de disseminação cultural.

São determinantes, através da mediação cultural, na construção de pontes entre a obra de arte e o público que a visita, que precisa de vivenciar as atividades que lhe são propostas, de uma forma criativa, ativa e protagonista, potenciando a ligação com a obra de arte, e o património artístico e cultural que ela incorpora.

Dentro das propostas de um serviço educativo existem diferentes eixos de acção, o exemplo que se irá apresentar está pensado para crianças em altura de interrupção letiva, no modelo de oficina, espaço prático de exploração, onde a interação entre perguntar e fazer se juntam ao experimentar.

OFICINAS DE PÁSCOA – 10 a 13 de abril de 2017

Nº de sessões e duração – 4 sessões das 10h às 17h30 (6 horas/dia, 24 horas)

Exposição - José de Almada Negreiros, Almada Negreiros : Uma maneira de ser moderno.

Partiu-se da exposição do artista e com a intenção de abordar a sua biografia, e as obras expostas, e através destes elementos criar uma história que misturasse o real e a ficção.

Os processos de trabalho implicam sempre uma metodologia de projeto, aberta, flexível e adaptável, uma questionação ativa e as formas e processos de fazer artístico dos artistas abordados.

Foi uma proposta pensada por uma equipa de 6 educadores artísticos, que originou 3 formas diferentes de resposta, numa lógica de parceria e colaboração, para 3 faixas etárias distintas, esta é uma apresentação centrada em 2 delas. As abordagens diferiram entre os grupos, nas diretrizes, técnicas, explorações e expectativas. Cada grupo de crianças trabalhou com uma dupla fixa de monitores e o trabalho desenvolvido incidiu nas valências artísticas mais fortes de cada dupla – artes plásticas, fotografia, vídeo, stop motion.

O trabalho culminou com a partilha das descobertas feitas ao longo da oficina, numa apresentação final, comum a todos os grupos, e que pretendeu espelhar todo o percurso dos participantes na exploração da vida de Almada Negreiros e a multidisciplinaridade artística do artista faz tudo.

O grupo dos 5 aos 7 anos, explorou a passagem do artista por Paris, e criou uma história ficcionada que misturou dados biográficos com elementos das obras. Realizaram um cenário, figurinos, ensaios, e ilustração da história em folhas transparentes, com recorte de cor, luz e sombra em que as personagens ganham outra vida quando são projetadas numa escala maior que a dos seus corpos.

Contar histórias com imagens é ancestral, esta foi uma história contada de duas formas, em palco com gestos e som, e em projeção, com recurso ao retroprojetor como ferramenta de trabalho.

Figuras 1 e 2. Trabalhos de participantes. Fonte: própria

O dos 7 aos 9 anos explorou a estadia em Madrid local de encontro com os grandes criadores da sua época: Picasso, Dali, Gaudi, Miró, Buñuel. A linha narrativa surgiu da relação do grupo com as obras da exposição e da curiosidade que estas despertavam por conhecer mais da sua vida.

Da história partiram para a criação de 5 grandes cenas. Construíram os títulos, cenários, os objetos com recurso a materiais de diferentes "texturas visuais": trabalharam transparências (coloridas), luz, sombra; brincaram com variações de escala. Através do retroprojetor projetaram-se estas pequenas "telas" e deram-lhe vida com recurso à técnica de stopmotion. Integraram a imagem com o seu corpo e a sua sombra, também no papel de "atores mudos", como no cinema de Charlot de quem Almada era fã. Como resultado surgiu um filme animado, com banda sonora e efeitos especiais criados ao vivo pelos participantes/autores do projeto.

Figura 3. Trabalhos de participantes. Fonte: própria

No contexto de oficina criativa trabalha-se sempre a partir da obra de arte, sendo esta ponto de partida e plataforma de trabalho. Da obra artística nasce o esboço da proposta educativa, são pensados os exercícios a desenvolver, criam-se pontes com cada participante, validando os seus conhecimentos e acrescentando novos. Da obra nasce a comunicação, que nas palavras do próprio Almada é a função última da arte, comunicação que cada um estabelece de modo próprio e pessoal. Nasce também a experimentação dos processos de fazer artísticos, e a produção - os resultados que a criança produz. Isto torna-se possível no âmbito de uma pedagogia construtivista em que produção, apreciação e contextualização são agentes determinantes. Na consolidação da abordagem à obra inclui-se a forma de pensar e de fazer próprias do artista abordado, o seu contexto cultural, social e histórico.

Na apresentação conjunta, era visível o entusiasmo e a satisfação. Do artista retiveram a forma de trabalhar e de pensar e a sua história de vida. Nas suas vidas ficaram a facilidade de comunicação com a obra de arte, o pensamento crítico e o olhar criativo que se potenciaram nesta experiência de aprendizagem numa evidência do potencial transformador da educação artística.

Nas nossas ficaram as surpresas, os encantos e espantos, as partilhas e uma noção cada vez mais forte de que o trabalho como uma grande equipa, mediadores e crianças, nos abre novos horizontes e novas abordagens para todos, em que as intenções são trabalhadas de forma aberta e em transformação incluindo todas as vozes.

São metodologias e processos de trabalhar que potenciam verdadeiros momentos de aprendizagem e de conexão com o mundo a partir de um museu que se assume como uma plataforma cultural, artística e educativa.

*Este texto foi escrito com o Novo Acordo Ortográfico.

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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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