Buscar

Carregos de loiça: oleiros de Bisalhães

Atualizado: 6 de Set de 2019


Há imagens que nos descrevem vivências hoje inexistentes, e a fotografia que ilustra este texto é disso um exemplo. Contextualizando esta imagem podemos dizer que decorre o ano de 1955 e nela vemos oleiros de Bisalhães na estação de caminho-de-ferro da Régua, transportando à cabeça enormes cestos de quatro asas carregados com a loiça que produzem.

Bisalhães é um lugar da freguesia de Mondrões, concelho de Vila Real, onde o fabrico de loiça está documentado desde a centúria de Quinhentos. Ainda hoje aí se faz loiça preta, trabalhando-se na roda baixa e continuando a cozer-se em forno de duas câmaras descoberto. Estas olarias, à semelhança de muitas outras espalhadas pelo País, eram unidades familiares de produção onde toda a família participava: o oleiro trabalhando à roda, a mulher e os filhos preparando o barro, brunindo a loiça, indo à lenha e à água, ajudando na cozedura da loiça e procedendo à sua venda.

No século XX, a loiça destes oleiros abastecia o concelho de Vila Real chegando a Lamego e ao Porto. Como se pode ver pela presente imagem a loiça era transportada até ao Porto de comboio, metida em grandes cestos de quatro asas.

O percurso de cerca de 25 quilómetros que medeia entre Bisalhães e a estação de caminho-de-ferro da Régua era feito a pé, quantas vezes descalços, por caminhos sinuosos e íngremes, lembrando-se os oleiros de uma ou outra viagem em que tropeçaram e caíram, perdendo grande parte da loiça que transportavam, o que representava uma perda significativa nos magros réditos obtidos com a venda da loiça.

Vulgarmente este percurso era feito pelas mulheres, que podiam ser acompanhadas pelas filhas ou, não as tendo, pelos filhos. De um modo geral o oleiro ficava em casa fazendo a loiça, só participando nestas viagens quando os filhos eram pequenos e não podiam acompanhar a mãe. De facto, a venda da loiça era uma tarefa predominantemente feminina, sendo frequente que o caminho entre Bisalhães e a Régua fosse feito em conjunto por várias mulheres de oleiros, ajudadas pelos filhos menores e pelas filhas, as quais deste modo se entreajudavam e protegiam dos perigos do caminho.

O modo de carregar o cesto com loiça obedecia a regras que todos seguiam. No fundo do cesto dispunha-se uma camada de fetos ou “palhuço” (=palha) colocando-se sobre esta as peças de maiores dimensões com as bocas voltadas para baixo. Entre estas colocavam-se as peças mais pequenas até o cesto ficar cheio de loiça até às bordas, altura em que se cobria com fetos ou palha de modo a poder aguentar nova camada de loiça. Esta segunda rodada de loiça, que podia ser, por exemplo, constituída por alguidares e tachos, formava uma espécie de monte que extravasava em muito as bordas do cesto, podendo ou não ser também coberta com fetos ou palha. Para ligar esta carga e dar-lhe firmeza usava-se uma corda comprida, que passava sobre a loiça e pelas quatro asas do cesto, constituindo uma espécie de rede de malha muito larga.

Durante o percurso de 25 quilómetros, tinham necessidade de parar para descansar, tendo para isso de poisar o cesto da loiça, o que faziam em locais que já conheciam e onde era fácil libertarem-se do carrego que traziam à cabeça, como, por exemplo, a borda de um muro. De facto, tinha de ser uma estrutura com a altura aproximada da mulher, de modo a que sozinha conseguisse deslocar o cesto da cabeça para essa estrutura com altura semelhante à sua, de modo a ser fácil de pousar mas também de voltar a colocar à cabeça sem a ajuda de ninguém. Estes locais onde se podia poisar as cargas que se transportavam eram conhecidos por “poisadoiros” e estão documentados desde a Idade Média, sendo utilizados por todos que necessitassem de descansar e poisar os carregos que transportavam, fossem eles lenha, loiça, funilaria, cestaria ou bens alimentares…

No século XX, os oleiros de Bisalhães faziam a feira semanal da Régua, sendo costume deslocarem-se para o local da feira no dia anterior à sua realização. As mulheres dos oleiros costumavam pernoitar todas juntas, num coberto que existia junto ao rio e que era aberto por todos os lados. A louça não vendida costumava ser guardada em casa de pessoas benfazejas até à feira seguinte. Mais tarde, para evitar a penosidade do percurso com os carregos à cabeça, passaram a levar a loiça até à estação de comboio de Vila Real, sendo esta despachada a “baixa velocidade” para a Régua, continuando, no entanto, estas mulheres a fazer a pé o percurso entre Bisalhães e Vila Real, só que já não transportavam a loiça à cabeça.

A fotografia que deu origem a este texto sobre a loiça de Bisalhães e o seu transporte foi tirada por Joaquim Santos Júnior, em 1955. Este professor da Universidade do Porto, desde cedo interessado pela olaria, teve o cuidado de ir registando em fotografia as vivências dos oleiros, constituindo o seu acervo fotográfico um importante meio de estudo sobre os oleiros e as olarias portuguesas. O seu arquivo encontra-se na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, instituição a quem temos de agradecer as facilidades de acesso ao referido acervo. Outras imagens sobre os oleiros e as olarias de Bisalhães podem ser encontrados em «A louça preta de Bisalhães: Mondrões, Vila Real = The black pottery of Bisalhães» (2009) e «As mais antigas colecções de olaria portuguesa: Norte» (2012), ambos editados pelo Museu de Olaria e Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real.

Régua, Páscoa de 1955, Autor: Santos Júnior

Régua, Páscoa de 1955, Autor: Santos Júnior


BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

1/15

Conteúdos redigidos de acordo com a antiga ortografia, excepto no caso de artigos de autor, nos quais este/a é livre de optar.