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Editorial

 

Cultura: gerar em vez de pedir (*)

 

“Criar”, “inovar”, “gerar” são verbos que em si mesmos traduzem atitudes positivas, atractivas, apelativas. E todos eles são, afinal, sinónimo de Cultura.

 

As discussões em torno do financiamento da Cultura em Portugal centram-se grosso modo na reivindicação que o Orçamento do Estado contemple 1% para este sector: esta reivindicação é apresentada, por um lado, como premissa incontornável de uma qualquer política cultural que se queira consequente e, por outro, como fonte única possível de mais investimento na Cultura. Ora, propomo-nos atender apenas a este último argumento, deixando para uma outra ocasião a discussão mais do campo da política cultural: no nosso entender, seria importante olhar para a Cultura como sector económico e analisar o potencial de geração de riqueza que guarda em si mesmo. Antes de pedir mais, devemo-nos perguntar se estamos a gerar todos os dividendos que a nossa actual situação permite. Ou dito de uma forma simples: poderemos fazer mais com aquilo que temos no presente?

 

 

Há alguns números interessantes que vale a pena recordar: quando falamos de Cultura na sua perspectiva económica estamos a falar do sector das indústrias culturais e criativas (SCC) do qual fazem parte áreas como o turismo-cultural (ainda não medido convenientemente no nosso país), património (equipamentos culturais), arquitectura, publicidade, edição, design, artesanato, entre outras áreas. Este sector vale, em Portugal, 1,7% do PIB segundo a novíssima Conta Satélite da Cultura 2010-2012 (INE, 2015) vs cerca de 3% na UÉ; representando 2% do emprego nacional (vs cerca de 3% da UÉ); com profissionais caracterizados pela sua elevada formação (17% com habilitações de nível elevado – Mateus, 2010) e juventude (38% entre 25 e 36 anos - idem) e apresenta taxas de crescimento anuais na ordem dos 3% (Mateus, 2010). Números interessantes do ponto de vista da qualidade intrínseca do sector em matéria de contributo para uma sociedade mais equitativa, evoluída e certamente mais sustentável mas, igualmente, indicadores reveladores do potencial por explorar.

 

Existe contudo um binómio que, no nosso entender, ilustra muitíssimo bem todo este potencial económico ainda por activar neste sector: Portugal detém cerca de 1000 espaços preparados para receber visitantes no nosso país (monumentos, museus ou afins). A totalidade destes espaços recebeu, em cada um dos últimos 3 anos, uma média 11 milhões de visitantes, gerando, em cada ano, cerca de 50 milhões de euros, somente de receitas directas.

 

Ora, no nosso entender, para além de nos questionarmos sobre o que podemos fazer para que estes números sejam maximizados apenas tendo por base estes cerca de 1000 espaços já preparados ou aptos para receber visitantes, devemos perguntar-nos igualmente qual o universo potencial de outros espaços existentes no nosso país passíveis de serem preparados para acolher estas pessoas, nacionais ou estrangeiras (recorde-se que o sector do Turismo em Portugal representa cerca de 10% do PIB e que mais de 50% dos turistas estrangeiros que visitam Portugal visitam igualmente estes espaços culturais, denotando bem o contributo do património cultural para a dinâmica turística do país): existem em Portugal mais de 20 000 monumentos, cerca de 4 000 destes estando classificados. Assim, se quisermos atender somente a este universo, estaremos a falar de um potencial, no mínimo, de duplicação do número de espaços com pertinência e atractividade turística. Se juntarmos ainda uma parcela dos recursos que não estão classificados....

 

Olhar para as oportunidades, para o potencial de mais geração de receita deveria assim fazer parte das nossas reflexões enquanto profissionais do sector. Oportunidades que podem ser financiadas no âmbito do Portugal 2020 quer através de fundos comunitários passíveis de serem geridos por entidades públicas que queiram intervir neste campo (85% a fundo perdido para as regiões do Norte, Centro, Alentejo e também para a Região Autónoma dos Açores), quer ainda por outro tipo de fundos comunitários destinados à qualificação e internacionalização de micro e pequenas empresas actuantes nesta área (empresas de conservação & restauro, de touring cultural e paisagístico, de novas tecnologias aplicadas ao consumo patrimonial, entre outras), quer ainda no âmbito do programa da União Europeia para apoio ao sector cultural e criativo – o Europa Criativa. Para que estes investimentos se traduzam em criação de mais valor para os recursos intervencionados e para as comunidades deles dependentes, é fundamental que sejam percepcionados como capacitadores de geração de riqueza e não financiamentos a fundo perdido que se esgotam em si mesmos e que obrigam, de forma cíclica, a voltar ao Estado para garantir a ilusória subsistência dos projectos entretanto criados.

 

Não é por acaso que o grande envelope financeiro do Horizonte 2020 incentiva fortemente o entrecruzamento de universidades com entidades públicas, com redes associativas, com empresas especializadas nestes domínios, fomentando o desenvolvimento de ferramentas e mecânicas de intervenção ou de consumo inovadoras, baseadas em I&D e market oriented.

 

O foco dos agentes do sector deve estar no “gerar” mais retorno em relação aos investimentos levados a cabo de forma a garantir a sua sustentabilidade: abordando frontalmente o mercado do consumo e procurando posicionar-se com verdadeiros serviços ou produtos entretanto criados; sendo permeáveis a parcerias entre agentes públicos e privados que optimizem as valências complementares destes dois tipos de agentes; atendendo, claro, às oportunidades não somente do tradicional e crescentemente escasso mecenato cultural, mas abraçando de igual forma os fenómenos de sponsorização cultural por grandes marcas.

 

De facto e mantendo-nos focados no património cultural, como é que este ainda não surge apelativo aos grandes sponsors dos dias de hoje, centrados eminentemente na música e nas performances dos seus festivais? Quantos conhecem os números tão positivos do sector e a sua evolução nos últimos anos? Quantos conhecem as suas projecções para os próximos tempos e reconhecem uma oportunidade de posicionamento singular? Que público padrão apresentam os agentes da Cultura a estes financiadores e surgirá esse público como minimamente atractivo numa óptica de sponsorização?

 

Podemos claro recusar-nos a este raciocínio. Podemos considerar que não é obrigação dos agentes do sector ter estas preocupações como profissionais de Cultura, independentemente do seu grau de responsabilidade - seja ele de ministro, de director-geral ou de presidente de uma associação. Podemos considerar mesmo ofensiva esta abordagem. A Cultura simplesmente não se compadece com lógicas de obtenção de sponsors, activação do valor económico destes recursos através da disponibilização de um serviço ou da criação de um produto: a responsabilidade de financiamento da Cultura recai sobre o Orçamento do Estado, tout court.

 

Poderá ser.

 

Mas não conseguimos deixar de nos perguntar: o que aconteceria se activássemos do ponto de vista da sua fruição pelo menos metade dos mais de 20 000 monumentos que temos no país? O que aconteceria aos territórios que acolhem esses monumentos tão equitativamente dispersos pelas várias regiões? O que aconteceria se trabalhássemos esses recursos com preocupações de organização temática e com escala suficientemente atractiva? O que aconteceria se nos decidíssemos a conquistar não somente as nossas “associações de amigos de...” já costumeiras, mas também os Millennials e a Geração Z, tão sedentos de dimensões de descoberta, viagem, procura de identidade e que o património pode, de forma tão espontânea, proporcionar? Que reacção teriam essas outras fortes fontes de financiamento que são, por exemplo, as marcas perante este enriquecimento da caracterização do público padrão? Quantos recursos humanos qualificados na forma de assalariados, trabalhadores independentes ou de empreendedores culturais seriam necessários para alimentar estas oportunidades geradas?

 

“Criar”, “inovar”, “gerar” são verbos que em si mesmos traduzem atitudes positivas, atractivas, apelativas. E todos eles são, afinal, sinónimo de Cultura. Talvez seja assim apenas uma questão dos agentes do sector deixarem a sua criatividade espraiar-se ao seu modelo de gestão...

 

E se não for espontâneo, basta imaginar que é como um jogo: é que, de facto, “gerar” é muito mais divertido do que “pedir”.

 


 

Augusto Mateus & Associados (2009), O Sector Cultural e Criativo em Portugal – Relató́rio Final (Estudo para o Ministério da Cultura – GEPAC), Janeiro de 2010.

Conta Satélite da Cultura (2010-2012), INE, 2015.

 

(*) Artigo originalmente publicado no jornal Público a 27.02.2017.


Catarina Valença Gonçalves

 

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